domingo, 15 de maio de 2011

A (DES)COMPREENSÃO DA IDEIA DE "POPULAR"


GRANDE CONTRASTE - Existem movimentos sociais e "movimentos sociais". Na foto esquerda, a experiência social das Mães de Maio, e na foto direita, o mercantilismo coronelista do "forró eletrônico", como por exemplo o grupo Mastruz com Leite.

Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, li textos relacionados a aumentos de audiência das redes de TV SBT e Record, em comparação ao desgaste da Rede Globo, e analistas comemoraram a vitória da "vontade popular". Marco Antônio Araújo, do blogue O Provocador, havia até mesmo citado um comunicado da Rede Globo que reconheceu a ascensão da classe C consequente dos avanços trazidos pela Era Lula.

Antes que alguém embarque no bonde sem freio do brega-popularesco, aperte o acelerador e desça ladeira abaixo em direção a um muro de concreto, é bom ponderarmos diante de uma realidade que é bem mais complexa do que se imagina.

É certo que o SBT e Record tornaram-se redes menos sectárias ao demotucanato que a Rede Globo e (de forma sutil) a Rede Bandeirantes. Isso apesar do telejornalismo do SBT ainda fazer coro com o PiG, através de Carlos Nascimento, antiga cria da Globo.

O SBT se sobressai nos comentários midiáticos por conta do sucesso da novela Amor e Revolução, ambientada nos tempos da ditadura militar. Apesar de alguns clichês - como dar ao público a ideia de que os anos 60 só se limitaram ao triênio 1967-1968-1969 - , a iniciativa da novela é bastante ousada.

A Rede Record, por sua vez, se sobressai pela postura independente do jornalismo - isso apesar do setor popularesco do Balanço Geral - , que inclui os admiráveis Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna e Luiz Carlos Azenha além de pitéus como Milena Ciribelli (que eu ouvi durante os primórdios da Fluminense FM), Adriana Araújo (com sua beleza à-la Selena Gomez) e Heloísa Villela, além das também beldades Fabiana Scaranzi e Ana Paula Padrão (apesar das duas serem esposas de cinquentões yuppies).

No entanto, a Rede Record é propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus, e não uma emissora neo-bolivariana. Daí para dizer que até Gugu Liberato virou "guevariano" é uma grande insensatez. Da mesma forma que Rodrigo Faro não trouxe a rebelião neo-zapatista para as famílias brasileiras.

Mas a falta de compreensão do termo "popular" vai até além dessas questões, pegando de surpresa muitos antropólogos e sociólogos que tentam compreender a cultura popular trancados em seus quartos confortáveis, depois de verem a periferia brasileira reportada por documentários da TV britânica exibidos na TV por assinatura.

A elite quer compreender as classes populares mas sua formação de elite ainda lhes preserva muitos preconceitos. O ideário politicamente correto brasileiro, no entanto, os faz complexados e permite que eles disfarcem seus preconceitos com um sentimento paternalista que faz parecer generoso com o povo pobre.

Só que o poder midiático, a ditadura militar e os governos civis derivados de sua corrente política (Sarney, Collor e FHC), além de uma intelectualidade amestrada pelos conceitos acadêmicos lançados pelo acordo MEC-USAID, fizeram conceber um padrão de "cultura popular" postiço, estereotipado e tendencioso, onde o controle social das elites (políticas, econômicas, midiáticas e tecnocráticas) praticamente transformou as classes populares em caricatura de si mesmas.

Só que nem todo o povo pobre se submete a isso. Daí um violento contraste que vemos entre as tragédias vividas pelo povo pobre e o espetáculo brega-popularesco que mostra um "povo pobre e feliz", um contraste que chega a ser grotesco de tão extremo.

Afinal, de um lado temos as Mães de Maio paulistanas - diferentes das Mães da Plaza de Mayo argentinas, que perderam filhos militantes políticos, mortos pela ditadura, mas irmãs de uma mesma dor - , mães-órfãs de seus inocentes filhos. Temos os parentes das vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás. Temos moradores das favelas sofrendo com as chuvas, devido aos alagamentos, deslizamentos de terra e tudo, perdendo móveis, documentos, parentes.

De outro, temos pobres caricatos vestindo roupas coloridas e gravando discos com músicas que não podemos achar engraçadas, apesar da clara exploração do ridículo. Só para citar alguns nomes, vemos o MC Serginho (que acabou de perder o "parceiro", o dançarino Lacraia), o MC Créu, o DJ Reginho, a Stefany Cross Fox, Leva Nóiz, Aviões do Forró, Calcinha Preta. Muitos deles nem tão pobres assim, talvez mais ricos até do que muito "burguês" da Bossa Nova...

Isso causa constrangimento na intelectualidade. Reina um silêncio em torno do "mico" que o fenômeno tecnobrega causou na intelectualidade de esquerda. Todo mundo achando que Gaby Amarantos na capa da revista Fórum iria botar a grande mídia para correr de medo. Mas dois meses depois ela já apareceu no Domingão do Faustão e, pouco depois, até a ranzinza Veja já entrevistava a cantora.

Ver que Augusto Nunes, Otávio Frias Filho e Ali Kamel também comiam paçoca causou choque. Mas ninguém diz, todavia o próprio fato da intelectualidade esquerdista botar um freio na abordagem brega-popularesca - apesar de insistirem no preconceito de que seus ritmos são rejeitados por uma campanha "moralista" igualzinha a de 1910 - já mostra o quanto trêmulos estão seus dedos diante do computador, depois de ver que até Otávio Frias Filho e William Waack adoraram a Beyoncè do Pará.

Antigamente, o povo pobre sofria mesmo preconceito. Mas produzia conhecimento, se mobilizava politicamente, não tinha um comportamento risível e patético. Só que hoje, ficou aquela ideia fixa de que o povo "é melhor sendo ruim", porque o "ruim" é apenas a maneira deles de "ser bom", e que nós apenas "não compreendemos".

Não por acaso, concepções assim criam ideólogos reacionários da linha do professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, que, com os portões do Instituto Millenium abertos para ele (com direito a passaporte grátis de Belo Horizonte para São Paulo), prefere ainda ser "de esquerda", talvez feito um "Cabo Anselmo da Pampulha".

Afinal, soa muito cômodo defender uma visão de "popular" caraterizada pelo conformismo, pela suposta "felicidade" do povo da periferia, pelas classes populares vistas como se ainda fossem dóceis bebês "recriando" aquilo que os outros criam primeiro.

Essa intelectualidade, respaldada também por muitos internautas e por burgueses que preferem ser "sociólogos de condomínio" e julgar a "melhor visão" da periferia vendo-a de longe, prefere que o povo pobre seja uma multidão domesticada, caricata e ingênua, "feliz" com sua miséria, que é glamourizada pela grande mídia "popular".

Dessa forma, o povo pobre não tem qualidade de vida, mas pode "produzir" aquilo que esses intelectuais chamam de "cultura da periferia", que não passa de um pop comercial e rasteiro, o brega-popularesco, que não produz conhecimento nem valores sociais sólidos. Apenas permite a inserção do povo pobre no mercado de consumo, mas sem que o povo seja realmente cidadão, sem que as classes populares tenham uma visão realmente crítica de seu meio.

No máximo, "cidadania" para eles é algo que se vê na retórica demagoga do "funk carioca": "quero ir ao Barra Shopping de chinelos sujos e tudo, comprar artigos de grife e voltar para a favela, sem ver um policial por perto". Nada de qualidade de vida, só consumo e livre circulação nos redutos das elites.

Os verdadeiros movimentos sociais das classes populares nada têm a ver com tecnobregas, pancadões, Waldicks, Zezés, Wandos, Gretchens, Joelmas, Chimbinhas, "super-heróis" de axé-music, Meia-Horas, Balanços Gerais, e todo esse imaginário "popular" que tem mais a ver com os departamentos comerciais da grande mídia do que do universo popular apreciado pelos verdadeiros cientistas sociais (os da Unicamp dão um banho nos da USP, "contaminados" pela visão neoliberal de Fernando Henrique Cardoso e José Serra).

Movimentos sociais das classes populares são aqueles que buscam qualidade de vida, conhecimento, dignidade, respeito, e isso nada tem a ver com "patrulhas moralistas". Afinal, vamos "respeitar" a mediocridade popularesca, que por sinal conta com suas próprias elites ricas por trás? Se observarmos bem quem investe dinheiro no tecnobrega, levaremos um susto se ignorarmos serem as mesmas elites oligárquicas do latifúndio e do poder lúdico-midiático.

É bom deixar claro que a cultura musical popular produzida antes de 1964 era de excelente qualidade. Nomes como Luiz Gonzaga, Jamelão, Marinês e Seu Conjunto, João do Vale, Léo Canhoto e Robertinho, Helena Meirelles, Cartola, Nelson Cavaquinho, Ataulfo Alves, Donga, Jackson do Pandeiro e muitos outros nunca investiram no ridículo para fazerem sucesso. Nem sucumbiam à vulgaridade mais abjeta, a pretexto de "ousadia". Tinham respeito consigo mesmos e com a obra que produziam.

Por isso, a "cultura popular" da grande mídia, que é a "visão oficial" que a intelectualidade têm das classes populares, só garante o consumismo através de uma libertinagem de valores. A verdadeira cultura popular, sim, é aquela que busca dignidade, cidadania, competência, respeito e produção de conhecimento.

É isso que pouca gente consegue compreender.

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