quarta-feira, 11 de maio de 2011

DEFESA DO BREGA-POPULARESCO PODE ESTAR LIGADA AO ESQUEMA ECAD/ROUANET



Por Alexandre Figueiredo

Que interesse tem em defender aquela pretensa "cultura popular" que rola nas rádios FM, na TV aberta, que aparece na capa de Ilustrada, da Folha de São Paulo, no Domingão do Faustão, no Fantástico, no Caldeirão do Huck, como se fosse o "moderno folclore brasileiro"?

Que interesse tem defender uma "cultura" de mercado, que envolve, por um lado, cantores, grupos e duplas que se tornaram magnatas do entretenimento e são apadrinhados pela grande mídia e pelos barões do entretenimento e do atacado e varejo, e, por outro, por cantores, grupos e duplas emergentes ou de tendências "ainda mais populares" e "polêmicas" que são controlados, em controle de padrão fordista, por empresários gananciosos mascarados de "produtores culturais da periferia"?

Que interesse tem uma intelectualidade que deveria analisar criticamente o establishment cultural brasileiro, em vez de fazer propaganda travestida de monografias, documentários, reportagens ou artigos, entre outras linguagens comunicativas de fachada?

Pois a onda de produções intelectuais que buscavam defender os ditos "sucessos do povão" apoiados pela grande mídia e que faziam sucesso sobretudo durante cenários sócio-políticos conservadores (principalmente a Era Collor e a Era FHC), tocados pela quase totalidade de rádios FM controladas por grupos oligárquicos e coronelistas políticos, pode render coisas ainda mais estranhas do que o simples apoio tendencioso.

Isso porque o apoio já esconde o clima de clientelismo e compadrismo em que a intelectualidade - sobretudo cientistas sociais - se envolve, da inutilidade de suas defesas a tendências "culturais" que atendem a interesses dominantes da grande mídia e de seu mercado associado, o que em si já é coisa de se preocupar.

Afinal, é notório o contraste de intelectuais brasileiros que chegam a pedir para que a opinião pública não faça análise estética dos fenômenos musicais popularescos, e a intelectualidade estrangeira (EUA e Europa) que, desde há muitíssimo tempo, não temia análises severas sobre os fenômenos da "cultura de massa".

ECAD E LEI ROUANET

O motivo dessa discurseira toda em torno das tendências brega-popularescas, seja por cientistas sociais como os historiadores Paulo César Araújo e Rodrigo Faour, os antropólogos Hermano Vianna e Mônica Neves Leme, o sociólogo baiano Milton Moura e o crítico musical Pedro Alexandre Sanches, além do estranho padrão uniforme de argumentação (praticamente todos falam a mesma coisa para defender a "cultura de massa" brasileira), seria o poder financeiro que representa a Música de Cabresto Brasileira nos bastidores do entretenimento.

Um dos indícios dessa força está numa possível fraude de uma família, conhecida como Família Silva, composta de um casal e dois filhos, que teria registrado no Ecad músicas "fantasmas" homônimas a de vários sucessos radiofônicos. Muitos desses sucessos são de ídolos do brega-popularesco, como Ivete Sangalo, Latino e a dupla de "sertanejo universitário" João Bosco & Vinícius.

O ECAD aparece aqui como vítima, mas mesmo a fraude mostra o quanto as músicas são rentáveis, e títulos como "Festa no Apê" e "Chora Me Liga", pela força mercadológica, poderiam ter sido usados pela família fraudulenta para falsos registros de "músicas próprias" mas que certamente iriam confundir depois possíveis clientes da família.

A Lei Rouanet também é outro aspecto que mostra o quanto o brega-popularesco representa o poderio mercadológico. O uso de dinheiro público para eventos de obscuras duplas de "sertanejo universitário", ou para a reabilitação publicitária do inexpressivo Tchakabum, ou para Nando Reis "empurrar" o brega-popularesco para seus fãs, mostra o quanto se brinca com as verbas da cultura, que faltam ou tornam-se difíceis para projetos verdadeiramente culturais, sobretudo relacionados ao patrimônio histórico e a artistas de rua que nem ao Domingão do Faustão têm acesso, nem sequer no quadro "Se vira nos 30".

Além disso, a própria mercantilização da cultura brasileira, através da Lei Rouanet - nome ligado a Sérgio Rouanet, ex-ministro de Collor e ligado ao mesmo grupo da USP dos tucanos José Serra e Fernando Henrique Cardoso - , mostra o quanto a função social é deixada em segundo plano.

Neste caso, pode-se indagar se, por exemplo, as inserções de grupos como É O Tchan (*) e Gang do Samba em documentários sobre folclore brasileiro (no caso da Gang, o documentário era sobre o sambista Riachão) não teriam sido feitos para favorecer o patrocínio empresarial previsto pela Lei Rouanet, através do uso de intérpretes ligados ao comercialismo musical midiático?

Não seriam os documentários e monografias relacionados a tendências como o "brega de raiz" (caso do livro Eu Não Sou Cachorro Não, de PC Araújo), o "funk carioca" e o tecnobrega, também uma outra forma de favorecer toda a cadeia de clientelismo intelectual, patrocínios empresariais e faturamento de direitos autorais que beneficia uma elite de intelectuais, celebridades e jornalistas?

Afinal, as músicas brega-popularescas, por serem campeãs de execuções em rádios, TV e Internet em todo o Brasil, são altamente rentáveis, e por isso a pregação intelectual, a pretexto de definir tais músicas como "expressão do povo das periferias", na verdade está defendendo um grande negócio financeiro que está por trás disso e que pode estar alimentando um esquema de clientelismo artístico e intelectual.

PEQUENAS MÍDIAS, AONDE?

O caso das investigações do blogueiro Timóteo Pinto, o Tim Pin, dos bastidores do chamado "forró eletrônico", mostra que o discurso de "pequenas mídias" que envolve não somente o "forró eletrônico" mas outros ritmos com semelhante estrutura empresarial, como o "funk carioca", a axé-music e o tecnobrega, não passa de uma mentira descarada.

Afinal, que sentido tem a ideia de "pequena mídia"? A que não tem escritório na Avenida Paulista? A mídia provinciana é necessariamente "nanica"? Essa visão de que a pretensa "cultura popular" faz sucesso através de "pequenas mídias" é equivocada pelos seguintes motivos:

1) A indústria fonográfica está se transformando e, da mesma forma que as grandes gravadoras multinacionais se desgastam e tornam-se reduzidas, através de fusões e extinção de selos fonográficos, outras relações de poder já se estabelecem em gravadoras ditas "pequenas", que não podem ser chamadas de "independentes" porque elas dependem do mesmo padrão estrutural, ideológico e funcional das grandes gravadoras e contam com patrocínio de grandes oligarquias regionais.

2) O sentido de "pequena mídia", se for somente pela estrutura empresarial e alcance regional, dá margem a interpretações equivocadas, pela "relativização" do poder regional frente ao global. Se for por esse raciocínio, a Folha de São Paulo, diante dos grandes grupos jornalísticos dos EUA, França e Reino Unido, seria considerada "imprensa nanica", da mesma forma que, diante das grandes corporações de mídia dos EUA, a Rede Globo de Televisão (e mesmo acrescida de seu braço "estrangeiro" a Globo International) seria equiparada a uma "TV comunitária". O que é um grande absurdo.

3) O caráter não-ideológico das "redes sociais", com um universo eclético e disperso de usuários de tudo quanto é tipo, não pode ser associado à ideia de "mídia alternativa". Além disso, mesmo grandes corporações podem criar seu canal no You Tube, o que prova que não é um nome que aparentemente se lança a partir do You Tube ou do Twitter - como DJ Reginho ou então Stefany Absoluta, por exemplo - que será associado a um padrão alternativo de mídia. Grupos dominantes também têm canais no You Tube, Orkut, Facebook, Twitter e Blogger.

No "forró eletrônico", o poderio de uma empresa de entretenimento como a A3 Produções, ou então o de uma rádio como Rede Som Zoom Sat, ou de verdadeiros grupos empresariais que estão por trás das "aparelhagens" do tecnobrega e das equipes de som do "funk carioca", é algo que não pode ser subestimado.

Não são pessoas da classe operária ou camponesa que investem nesses estilos musicais, mas pessoas que poderiam até ter tido uma origem humilde, mas que se tornaram empresários muito ricos dentro de seu meio. E, portanto, detentores de seu poderio midiático que, em muitos casos, se associa, sem medo, com o PiG.

Isso sem falar do apoio explícito que os barões da grande mídia, os latifundiários, os "caciques" políticos mais conservadores e os empresários de lojas de departamentos (inclui supermercados) que dão para essa "cultura popular" que nada tem a ver com a verdadeira expressão do povo das periferias e nem com a produção de mídias verdadeiramente pequenas e alternativas.

DISCURSO PARECIDO

Já a intelectualidade que defende todos os estilos da Música de Cabresto Brasileira - a suposta "música popular" que rola nas FMs e na TV aberta - , além de carecer do senso crítico necessário para sua missão pretensamente científica, adota um discurso até parecido demais para quem diz defender a dita "diversidade cultural" do brega-popularesco (que os críticos de anos atrás, sabiamente, definiram como "monocultura", lá pelos anos 90).

Seja Hermano Vianna, Rodrigo Faour, Pedro Alexandre Sanches, Bia Abramo, Mônica Neves Leme, Paulo César Araújo, José Flávio Júnior, Milton Moura, Denise Garcia, Breno Silveira e tantos outros, é a mesmíssima abordagem que tenta definir essa "cultura de massa" à brasileira como se fosse a "verdadeira cultura popular", quando sabemos muito bem que é uma pseudo-cultura há muitos anos alimentada e fortalecida pela politicagem midiática e pelo jabaculê radiofônico.

Isso porque o discurso, seja para defender bregas antigos como Waldick Soriano, ou nomes "emergentes" como Tati Quebra-Barraco, entre tantos outros em diversas tendências, é padronizado na retórica assim definida:

1) Os ídolos popularescos, em razão de seu sucesso, são tidos como "vítimas de preconceito", apesar do grande público que conquistaram em suas carreiras.

2) Seu sucesso é "contestado" por uma campanha de "inveja" e "horror moralista", como se nosso senso crítico fosse comparável ao do estúpido moralismo das "grandes famílias" do século XIX e da República Velha.

3) Os ídolos são "expressão da periferia" e tornaram-se sucesso através de "pequenas mídias".

É sempre essa mesma retórica falaciosa, que só varia em pequenos detalhes, e mostra o quanto essa geração de intelectuais, apesar de festejada e adorada por setores da opinião pública, é bastante tendenciosa e pode estar defendendo essas tendências musicais em prol de vantagens sócio-econômicas.

Os conchavos do ECAD com o MinC, o poderio dos "pequenos" barões do entretenimento no "forró eletrônico" e em outros estilos que contenham grupos musicais liderados por seus empresários, além do poderio econômico representado pelos sucessos popularescos, irá mostrar muitos novos escândalos a respeito do mercantilismo e da politicagem acerca da cultura brasileira.

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(*) O É O Tchan é pouco recomendado para a vovó e para o netinho, sendo um grupo abominável dos 8 aos 80. O É O Tchan é impróprio para a vovó, porque é pornográfico e pode causar problema no coração. O É O Tchan é impróprio para o netinho, porque seu erotismo exagerado e grosseiro pode criar desvios de conduta moral e controle dos desejos sexuais na idade adulta.

O É O Tchan é machista, mas suas dançarinas pensam que ser feminista é não contar com o sustento de maridos ou namorados. Dizem que não têm namorados porque está difícil arrumar homens, quando na verdade é porque está difícil arrumar horários para conhecer os homens que são pretendentes. Que, certamente, não sou eu nem você, no caso de você ser um leitor masculino. Nós queremos mulheres realmente de conteúdo, sem qualquer trocadilho pornográfico.

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