sexta-feira, 20 de maio de 2011

CULTURA POPULAR E O PROBLEMA DA ALIENAÇÃO


CADERNOS DE NOSSO TEMPO - Periódico do ISEB publicava textos resultantes de seus cursos, estudos e pesquisas.

Por Alexandre Figueiredo

Infeliz da intelectualidade que quer brecar o senso crítico, em vez de valorizá-lo em prol do aperfeiçoamento da realidade. Pois é o que muitos intelectuais brasileiros em evidência hoje fazem, sobretudo quando se trata do problema da alienação na indústria cultural brasileira.

É constrangedor ver que, em muitas das abordagens sobre a "cultura" brega-popularesca, há argumentações que se resumem nas seguintes frases: "Enquanto acusam tais ídolos de alienados, o sucesso deles é comprovado pelo apoio do povo das ruas", "As acusações de alienação são infundadas diante das atividades do ídolo tal, que representam a realidade (sic) da periferia, tamanha é a comunicação com seu público".

Argumentos tolos, que, na verdade, são um verdadeiro passo para trás. Isso porque o trabalho intelectual deveria valorizar o senso crítico, e não o contrário. A intelectualidade não pode estar a serviço de reafirmação de fenômenos que, sabe-se, são bastante problemáticos e apresentam sérias contradições.

"Encharcadas" de alegações "pós-modernas" lançadas pelo establishment pós-tropicalista e "temperados" da visão de classes populares lançada pela intelectualidade tucano-uspiana, essa intelectualidade não sabe a diferença entre barbarismo e "antropofagia", e ainda trata a ideia de alienação, tão respeitada por intelectuais mais antigos, com um certo esnobismo.

Lendo sobre a história do ISEB (Instituto Superior de Estudos Sociais), vejo o quanto se pensava o país com seriedade, ainda que sob os riscos do sectarismo ideológico. Mas havia um projeto sério para o país, em busca de uma identidade cultural verdadeira, de justiça social, redução das desigualdades, e outros problemas que, aos poucos, voltam à pauta nos dias de hoje, mas que estavam em evidência há 50 anos atrás.

A alienação cultural se definia por uma subordinação cultural das classes populares, que adotava referenciais alheios à sua realidade, sem qualquer preparo para adaptação. Era o que se chamava de semi-colonialismo, pois, por detrás do respeito oficialmente instituído às soberanias nacionais, um processo de dominação mais sutil controlava as classes populares.

Temos que nos fechar para os referenciais estrangeiros? Evidentemente que não. Daí a diferença entre a antropofagia cultural já pensada por Oswald de Andrade em 1928 e o entreguismo do barbarismo cultural. Na antropofagia, assimilamos referenciais estrangeiros com vontade própria e de maneira crítica, mas neles impomos nossa visão, nossa realidade.

Ainda que seja um estilo totalmente estrangeiro, como o rock, na antropofagia cultural, ao assimilarmos na sua estrutura geral, mexemos em suas entranhas e colocamos nossa realidade lá. Foi assim com o semba africano, que dentro de uma dolorosa mas peculiar realidade brasileira (o país vivia sob o signo da escravidão) desenvolveu o brasileiríssimo samba.

Mas no barbarismo, no entreguismo cultural, ocorre a alienação. Aqui a assimilação dos elementos estrangeiros mostra claramente o caráter dominante dos mesmos, que fazem o processo inverso no brega-popularesco, que é "nacional" ou "regional" na sua estrutura geral, mas torna-se estrangeira e colonizada em suas entranhas, constituindo em ritmos "brasileiros" que mais parecem feitos para turista e investidor estrangeiro verem.

Esnoba-se essa ideia de alienação, de subordinação cultural, porque a intelectualidade mais recente, nascida depois de 1961 - claramente, a geração de Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Paulo César Araújo e outros não viveu para entender melhor a lógica da cultura popular do pré-1964 - , se formou numa concepção acadêmica corrompida tanto pelos princípios conservadores do regime militar quanto quanto pelas ideias neoliberais trazidas pela burocracia intelectual dos anos 80 e 90, que viria, no ramo político, a constituir quadros de destaque no PSDB.

Por isso, a visão confusa, fragmentada, de cultura popular. Mistura-se o folclore com a mercadoria, o entreguismo com a antropofagia, em uma retórica cheia de contradições que chega mesmo a fugir das normas científicas, como o delirante artigo "Esses pagodes impertinentes..." de Milton Moura. Mas a essas alturas o sociólogo baiano Moura tinha prestígio docente e visibilidade suficiente para permitir tais "liberdades", enquanto mesmo teses científicas de pós-graduandos iniciantes são vetadas por carregarem senso crítico autêntico.

Mas se a intelectualidade passa a esnobar a questão da alienação cultural, é porque ela está alienada e não sabe. Pior: está alienada de si mesma, por estar desprovida não só de senso crítico, mas acima de tudo de senso autocrítico.

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