segunda-feira, 23 de maio de 2011

CULTURA E SABER, PSEUDO-CULTURA E NÃO SABER



Por Alexandre Figueiredo

O que é cultura? É a manifestação do saber, é a expressão e a transmissão de conhecimento.

Mas a dita "cultura popular" dominada pela grande mídia - mas que, pelo seu discurso oficial, é atribuída às "pequenas mídias" - tornou-se a manifestação do não-saber, quando até mesmo seus grandes medalhões, tidos como "grandes artistas", no auge de suas carreiras, ainda se comportam como se fossem crianças que acabaram de entrar numa escolinha de música.

Vemos uma profusão de discos ao vivo, duetos, covers, vindos dos cantores, duplas e grupos de axé-music, "sertanejo", "pagode romântico" ou mesmo "forró eletrônico" e "funk melody", isso quando nomes como Latino, Aviões do Forró e Parangolé não são acusados de plágio em algum momento de suas carreiras.

Nomes que mais parecem fazer um revival de seus sucessos de anos atrás, que se alimentam de notícias em revistas de celebridades, mas que vendem a falsa imagem de "grandes criadores da nossa música". Vez que outra, um cientista social, em monografias ou artigos delirantes, clama que o sucesso do momento ou o ídolo da ora corresponde ao "novo caleidoscópio da autodeterminação cultural das periferias".

Pode ser um breganejo que tenha um patrimônio latifundiário do tamanho da Grã-Bretanha, que o cientista social vai logo narrar o seu conto de fadas acadêmico. Tendo visibilidade, mesmo as piores bobagens ganham um sabor artificial de verdade.

Mas o que vemos aqui não é a manifestação do saber. Mesmo as alusões a ritmos do passado, ou a mestres como Oswald de Andrade, ou a comparações como a do punk rock, são falsas, só existem na imaginação dos cientistas sociais e dos críticos musicais que apoiam o brega-popularesco.

Até mesmo os primeiros anos do regime militar, se discutia cultura, sim. Os Centros Populares de Cultura da UNE surgiram para diminuir os riscos de uma incipiente cultura de massa que, a princípio sem querer mas depois tomando o gosto da coisa, queria transformar o interior do Brasil num cruzamento tropical de Texas com México. E mesmo as marchinhas de carnaval foram também discutidas numa reportagem de Manchete, em 1965.

Mas hoje, começam a reconhecer muitos intelectuais de esquerda, a cultura tornou-se o último setor em que ainda resistem resíduos herdados do regime militar ou do demotucanato. Aquelas apologias ao brega-popularesco que invadiam até mesmo a mídia esquerdista, a cada dia, mostram-se mais próximas de qualquer delírio pós-tropicalista digno do Instituto Millenium, até porque Caetano Veloso deixou seus "filhotes" ideológicos na mão, envergonhados estes que estão fora do ninho demotucano que os gerou.

A cultura de verdade não se manifesta pelos números quantitativos, pelas plateias lotadas, pelos discos vendidos. Muito fácil definir uma cultura como "verdadeira" a partir de uma popularização grande e instantânea. "Fulano é a verdadeira MPB porque lota plateias, porque sua música é ouvida em todo o comércio popular etc". Definição muito fácil, mas muito falsa.

Até porque, se a "MPB burguesa" está longe de ser popular, também o brega-popularesco em nenhuma hipótese pode ser assim considerado. Ele é "popular" na ótica do mercado, mas no que se diz à verdadeira função social da cultura, o brega-popularesco não é popular, é popularizado.

Muitos fenômenos, conceitos e valores tidos como "populares" foram decididos em escritórios, e recebem investimento generoso demais do empresariado dominante. E aquelas empresas que são tidas como "pequenas mídias", como as "aparelhagens" do tecnobrega, as equipes de DJs de "funk carioca" e as agências de entretenimento em geral, possuem uma estrutura financeira suficiente para enquadrá-las no poder da grande mídia, até porque compactuam com as oligarquias midiáticas tranquilamente.

Com isso, o que se vê não é a transmissão de saber de um povo pobre mas dotado de conhecimentos e experiências sociais. Não é a movimentação social de um povo sofrido que quer melhorias. É, ao contrário, o espetáculo, por vezes até superproduzido, na mediocridade de valores que caraterizam uma visão caricata e estereotipada de "povo pobre", um perfil claramente submisso bem ao gosto dos barões da grande mídia, que não se assustaram um pouco sequer com fenômenos como "funk" e tecnobrega, aceitos na hora pelo PiG.

E é bom enfatizar o contraste violento que há nas lutas feministas e nas musas calipígias "celibatárias", tidas erroneamente como "feministas" numa ótica pseudo-popular. Há também o contraste violento entre os movimentos camponeses e uma juventude que vai que nem gado aos galpões de "grandes espetáculos" dos subúrbios para ver o "sucesso do momento", seja um cantor de "pagode romântico", seja um funqueiro ou ídolo do "forró eletrônico" ou tecnobrega.

Não se diz que a verdadeira cultura popular, as verdadeiras manifestações sociais das classes pobres, devam ser de sofrimento, dor ou protesto. Mas é bom deixar clara a diferença entre um povo pobre de feições humanas, simples e dignas, e ídolos e musas que caricaturalmente animam o espetáculo popularesco.

A cultura popular que soberanamente reinava no nosso mainstream até 1964, fruto de um processo histórico de, até então, mais de 450 anos - isso só contando a partir do "achamento" do país pela esquadra de Pedro Álvares Cabral - , era dotada de muito conhecimento, porque era viva, orgânica, verdadeira.

Enquanto isso, não pode ser verdadeira uma pseudo-cultura que se alimenta pelo jabaculê midiático, pelo marketing, pelo tendenciosismo de mercado. Só porque é consumida pelo povo da periferia, não significa necessariamente que este seja responsável por ela, até porque as tendências brega-popularescas, sejam musicais, lúdicas e jornalísticas etc, são tuteladas por um empresariado muito rico, ainda que "voltado" para as classes C, D e E.

É essa questão que deve ser levada em conta. Assim como estamos discutindo as questões da grande mídia, da sua regulamentação e da derrubada do poder oligárquico nacional e regional, temos que discutir também a cultura popular.

Afinal, o brega-popularesco é derivado do poder midiático, querer que as oligarquias midiáticas sejam derrubadas mas que se preserve o brega-popularesco a pretexto do "bem estar das periferias", é praticamente nada fazer. Porque o poder midiático, no caso, seria derrubado parcialmente, sua herança seria integralmente preservada.

Daí que temos que pensar numa cultura popular verdadeira, não a de lotadores de plateias, não a de glúteos rodopiantes, jornalistas brucutus, forrozeiros patetas, lambadeiros abobalhados. Chega dessa visão apátrida e caricata de "povo pobre", vestido com cores aberrantes e sorrindo tolamente. Isso não é a verdadeira cultura popular. Isso é como dar apito para índio.

Por trás do brega-popularesco, interesses neoliberais estavam em jogo, e o processo de colonização midiático-cultural corria solto. Cabe a nós romper com isso.

Um comentário:

  1. Porque o palhaço Fausto Silva não gosta muito do "funk carioca", porque ele é "muito velho" pra ouvir esse tipo de "música"?

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