quinta-feira, 26 de maio de 2011

CRÍTICA AO BREGA-POPULARESCO ESTÁ ACIMA DO GOSTO MUSICAL


ANA DE HOLLANDA EM CD - A ministra, em seu lado cantora, simboliza a ala da MPB hostilizada pelo pupilo de Tavinho Frias, Pedro Alexandre Sanches.

Por Alexandre Figueiredo

Atual queridinho da intelectualidade amestrada pelas cátedras tucano-uspianas nos anos 90, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, depois de Paulo César Araújo e Hermano Vianna, mas ao lado de tantos outros, representa o empenho de sua classe na defesa do establishment musical do brega-popularesco, numa campanha retórica que já dura dez anos.

Pedro Sanches - que continua escrevendo para Caros Amigos, Carta Capital e Fórum como se ainda estivesse na Folha de São Paulo - é sobretudo um garoto-propaganda entusiasmado do tecnobrega, agora tecnomelody, ritmo da Música de Cabresto Brasileira que herdou a retórica pseudo-social do "funk carioca".

Mas o colonista-paçoca - que, a observar o que nos disse Mino Carta, adoraria chamar Otávio Frias Filho de colega, mas não pode fazê-lo abertamente - também defendeu funqueiros, forrozeiros-bregas e outras tendências, ignorando a histórica associação do "funk carioca" com as Organizações Globo e Grupo Folha (com o próprio Pedro Sanches entrevistando Tati Quebra-Barraco, nos felizes tempos em que PAS dava bom dia para Tavinho Frias), e desprezando completamente as denúncias de concentração de poder no mercado do dito "neo-forró" ou "forró eletrônico".

Claro que, assustado com as recentes repercussões dos textos deste blog e de outro meu, O Kylocyclo, desmascarando o suposto esquerdismo de Pedro Alexandre Sanches, o próprio jornalista ensaiou uma grande desculpa para suas defesas a respeito do brega-popularesco, que se expressa no parágrafo a seguir:

"Pode ser que eu, você e a ministra reprovemos o melody em termos estéticos (ou de classe social?), ou não toleremos a precariedade de partida de quem teve que aprender música fazendo música (sic), sem mecenas nem professor. Mas o que jovens como esses da Gang do Eletro alegorizam no Brasil é um processo inédito (sic) e profundo (?!) de inclusão social - e, no caso deles, essa inclusão se dá por intermédio da inserção à cultura (!). Gosto musical - seu, meu, da ministra ou da presidenta, é o que menos nos interessa, diante da grandeza ímpar (?) deste momento histórico (??!!)".

É evidente que os sinais de pontuação e o "sic" foram devidamente colocados pelo autor deste blogue, para chamar atenção aos pontos nebulosos que o colonista-paçoca escreveu. E que Caetano Veloso escreveria para O Globo com todas as palavras, vírgulas, pontos e acentos sem tirar nem por. Afinal, o tecnobrega e o "funk carioca", entre outras tendências "espontâneas" da dita "cultura popular", em nenhum momento causam pavor ou repugnância da grande mídia, que, num processo longe de ser mera coincidência, adere a esses ritmos com o maior entusiasmo.

Mas se até Nelson Motta, colaborador do Instituto Millenium, escreveria um parágrafo igualzinho ao que Pedro Sanches escreveu, fazer o quê, né? Apesar de Sanches ter seu nome citado ao lado de grandes blogueiros e jornalistas de esquerda, o colonista-paçoca continua tendo como caros amigos seus antigos colegas do PiG. E ainda pensa igual a eles.

GOSTO NÃO É VALOR CULTURAL

Portanto, é lamentável que exista uma intelectualidade que, ao invés de se dedicar a desenvolver a consciência crítica, se lança contra ela para justificar fenômenos estabelecidos pelo "sistema", às custas de retóricas engenhosas.

Uma delas se refere ao tal "gosto musical". De repente, o "gosto" tornou-se sinônimo de reconhecimento de valor de alguma coisa. Eu "não gosto", mas o outro "gosta", logo o que o outro "gosta" tem "valor cultural".

Isso não faz sentido. O gosto carece de noções objetivas e critérios necessários para dar um valor real a alguma coisa. E também abrir mão do "meu gosto" para reconhecer o "gosto do outro" também não encerram os problemas.

Isso apenas mascara o subjetivismo do "eu" pelo do "outro", onde os critérios de objetividade se tornam apenas palavras mortas de uma retórica sutil, mas não correspondem à realidade objetiva de cada coisa.

Se fosse assim, qualquer balinha de qualquer sabor cítrico artificial - pode ser framboesa, cereja, morango, limão ou abacaxi, ou mesmo tutti-frutti - seria "nutritiva" porque "eu gosto". Ou, de outra forma, seria "nutritiva" porque "eu posso não gostar", mas "a criançada adora".

REIFICAÇÃO DO HOMEM PELA "CULTURA POPULAR" DO PÓS-64

E quem garante que o povo realmente "gosta" das tendências brega-popularescas? Se verificarmos todo o contexto midiático, sociológico e político que está por trás, tornará-se de uma coerência assustadora toda a contestação que se faz à validade cultural atribuída ao tecnomelody, forró-brega, "funk carioca" e outras tendências da Música de Cabresto Brasileira, mesmo os "sofisticados" sambrega, breganejo e axé-music.

Não cabe aqui detalhar esse quadro midiático, sociológico e político que está por trás do brega-popularesco, definido pelas relações de poder dominante que estão por trás, porque outros textos meus já fizeram isso.

Mas a verdade é que, desde 1964 a dita "cultura popular" se desenvolveu dentro de paradigmas de controle social e concentração de poder econômico dos patrocinadores do entretenimento, dentro de uma perspectiva fordista de reprodução em série - pouco importa se são sob diferentes rótulos, seja "paromba", "rebolation" ou "cibermelody", "spacearrocha", "tecnotchan", "eletrocréu" ou coisa parecida - e de um processo político de reificação do homem.

Aliás, a palavra "reificação" torna-se aparentemente ambígua, porque os menos informados podem imaginar que a "reificação do homem" está ligada a ideia errada de "transformar o homem em "rei" ou "senhor de seu destino". Mas seu sentido real está no contrário, na transformação do homem em "coisa", sem qualquer consciência de sua situação nem de sua missão na Terra.

Isso é algo que o "esquerdista" Pedro Alexandre Sanches não deve saber ou despreza, porque é uma das ideias trabalhadas pelos livros de Karl Marx, e um dos problemas relacionados à alienação do homem no trabalho e no lazer.

É preciso recorrer a dois estudiosos da indústria cultural, Teixeira Coelho e Luiz Costa Lima, para verificarmos o quanto está errado Pedro Alexandre Sanches e sua retórica neo-caetânica.

Sobre a "inocente" indústria cultural exaltada por Sanches, Teixeira Coelho, no seu livro O Que É Indústria Cultural - lançado na série Primeiros Passos pela Editora Brasiliense, fundada por Caio Prado Jr. (que, para lembrar Sanches, teve uma biografia lançada pela mesma Editora Boitempo que publicou os dois livros do colonista-paçoca) - oferece subsídios para uma possível e válida contestação. Diz ele:

"Nesse quadro (de reificação do homem), também a cultura - feita em série, industrialmente, para o grande número (de consumidores) - passa a ser vista não como instrumento de livre expressão, crítica e conhecimento, mas como produto trocável por dinheiro e que deve ser consumido como se consome qualquer outra coisa."

Em outras palavras, não é pelo "gosto musical" que reprovamos os fenômenos popularescos. É pelo fato de que eles não cumprem sua função social. Eles são apenas fenômenos economicamente bem-sucedidos, e expressam um falso equilíbrio social que tão somente favorece o mercado, deixando as classes pobres no paliativo do entretenimento brega ou neo-brega.

Luiz Costa Lima é ainda mais contundente quanto a ideias que contribuem para analisarmos a deterioração da música popular pelo brega-popularesco, e que eu dou o devido rótulo de Música de Cabresto Brasileira:

"A série adaptada pela indústria cultural, levada a preços reduzidos a um público resultante torna o seu uso acessível, não significando a introdução da massa num domínio já antes fechado, apenas contribui para a degradação da cultura.

Só esse parágrafo contesta, de forma espantosa e decisiva, as alegações de "inclusão social" ditas por Pedro Alexandre Sanches a respeito dos ídolos brega-popularescos. Afinal, isso não expressa a inclusão das classes populares num mercado "fechado" pelos mecanismos de poder político e econômico, mas tão somente degrada, coisifica e desumaniza a cultura, reduzida a um arremedo ou a uma caricatura.

Além disso, no brega-popularesco, o povo pobre não é sujeito, mas apenas objeto de um mercado de consumo. É apenas "sujeito" na condição de consumidor, e sua "criatividade" não é mais do que uma linha de montagem dentro de um padrão de mídia colonizada simbolizada pela TV aberta e pelas rádios FM controladas por grupos oligárquicos associados ao capital estrangeiro.

Portanto, pouco importa se há mais ou menos sotaque local nos ritmos popularescos, como tenta nos fazer crer o discurso de Sanches, quando fala que o tecnomelody "vai muito longe da influência estadunidense" (menos, menos, colonista). A influência do poder dominante do hit-parade estrangeiro é grande o suficiente para que qualquer sotaque nortista, nordestino ou de outra região façam alguma diferença.

DESPREZO ESTÉTICO

Mas a alegação do esperto Pedro Alexandre Sanches - que escapuliu das redações da Folha-Abril-Globo a que estava vinculado, antes que alguém o reconhecesse como "o crítico musical do PiG" -vai mais além. Ele, como outros intelectuais que defendem os referenciais brega-popularescos, nos "convida" ao desprezo estético, da forma mais cínica possível.

Primeiro, porque ele, através de um traiçoeiro parêntesis, tenta definir a questão estética como uma questão de classe social (elitismo), indo na contramão de uma tradição intelectual que vem desde a Antiguidade, que é avaliar a questão estética dos fenômenos quaisquer que ocorrem na humanidade.

Confundir avaliação estética com preconceito elitista é a forma mais cínica e mais arrogante de certas correntes defenderem o "estabelecido". "Você é elitista", diz essa intelectualidade que finge que não é etnocêntrica e ainda nos acusa como tais, porque questionamos o estabelecido.

Nós alertamos que as elites "amigas do povo" gostam de ver o povo pobre culturalmente fraco, domesticado pela mídia e pelo mercado dominantes, porque isso é "mais povo" e deixa o povo "mais feliz", e os "elitistas" somos nós? Absurdo!

Só isso mostra o quanto Pedro Alexandre Sanches foi formado nas cátedras intelectuais comandadas pelos mesmos artífices do PSDB, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Sérgio Paulo Rouanet e Francisco Weffort, que, a pretexto de acusarem os CPC's da UNE e o ISEB de "sectários" - numa alegação que cheira a anticomunismo sutil - , contestava todos os valores da cultura popular anteriores da 1964.

É essa corrente tucano-uspiana que, sinalizando o inevitável desgaste dos ídolos da "cultura popular" midiática popularizados (e não, essencialmente, populares, a despeito da origem pobre de vários deles), que criou uma retórica socializante que tentou salvar do "funk carioca" ao "pagode romântico" que anima até cruzeiros marítimos.

É uma tese que se baseia na "purificação" da cultura popular através da "inocente" e "imparcial" ajuda da grande mídia e do mercado, que só querem apenas "propagar" seus valores e ídolos para o grande público e subisidiá-los financeiramente.

Mas, recheada de conceitos teóricos vindos de teóricos da direita como Francis Fukuyama, Roberto Campos, Auguste Comte, Paul Johnson, adaptados para uma perspectiva liberal-populista de domesticar culturalmente as classes populares para extinguir nelas seu potencial crítico, tornando-as culturalmente subordinadas e colonizadas e evitando nelas o máximo de incidências de movimentos sociais.

Afinal, vemos o quanto defensores do brega-popularesco, desde que eclodiram no exterior as revoltas sociais que derrubaram ditadores no Oriente Médio - e que poderiam influenciar na revolta popular brasileira contra o latifúndio - e que já existe uma revolta popular contra o império mercantilista do forró-brega no Norte-Nordeste, estão reagindo para salvar aquilo que eles dizem ser "cultura das periferias", mas que não passa de uma indústria milionária que já consiste, em si, em oligarquias do entretenimento, como as "aparelhagens" do Pará e os empresários-DJs de "funk carioca".

Por isso as argumentações podem variar de uma retórica engenhosa de um Hermano Vianna ou Pedro Alexandre Sanches, ou de um desaforo mal-educado de um direitista dente-de-leite. E dá-lhe desprezo estético, vamos queimar os livros de Platão, Aristóteles, Hegel, Marx, Lukács e Marcuse, porque nenhum deles devem servir para avaliar o "tchan", o "créu", o "tchibirabirom", o "uisminoufay", o "cibermelody", o "brega-de-raiz", o "rap das armas" ou qualquer outra coisa de gosto duvidoso.

Queimemos os livros de teoria estética, porque isso que está aí é "porque o povo quer" (Eduardo Sander), "não precisamos gostar" (Eugênio Arantes Raggi) mas devemos reconhecê-los como "processo histórico e profundo de inclusão social" (Pedro Alexandre Sanches), porque a "cultura popular de hoje mudou" (Hermano Vianna).

Mas todos eles andam de mãos dadas com Fernando Henrique Cardoso, no sentido de seu desprezo ao povo, que o fez investir na maciça e hoje tida como "espontânea" domesticação da cultura popular pelo brega-popularesco, um processo mais intenso do que o que já ocorria durante o regime militar a partir de 1964 e nos latifúndios nortistas-nordestinos em 1958.

Até quando continuará valendo essa visão oficial de "classes populares" baseada na domesticação que põe o povo pobre numa suposta felicidade sócio-cultural?

Por trás dessa visão generosa existem mecanismos de controle social, mais perversos do que imaginamos, e que com as recentes crises envolvendo o ministério da Cultura - não, Ana de Hollanda, a despeito do clã respeitável e do currículo de cantora de MPB sofisticada, não é parte inocente da situação - , que podem atingir tanto a ministra e o ECAD quanto a intelligentzia na qual se inserem Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo, muita coisa vai rolar.

Até porque, se os mestres (demotucanos) começam a cair, não serão seus alunos-discípulos que permanecerão de pé, mesmo escondidos nas vermelhíssimas "casas amarelas".

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