terça-feira, 17 de maio de 2011

BREGA-POPULARESCO SÓ AUMENTA "APARTHEID" SÓCIO-CULTURAL


O MEDO DA CLASSE MÉDIA É DE SURGIR, NAS FAVELAS, ROÇAS E SERTÕES, ARTISTAS COM A FORÇA ARTÍSTICA E OPINATIVA DE CHICO BUARQUE.

Por Alexandre Figueiredo

Aparentemente, soa tão lindo. Os ídolos brega-popularescos das rádios FM dominantes gravam covers de MPB, duetam com medalhões da MPB, até começaram a fazer um som parecido com o que ouvíamos dos artistas de MPB de anos atrás.

O cantor sambrega agora faz um som que "lembra Benjor". O breganejo já põe mais som de viola e até quarteto de cordas em seus discos. A "diva" da axé-music grava até Bossa Nova. O MC funqueiro está na Fundição Progresso e o ídolo brega do passado ganhou um documentário super esperto que vai ser exibido em Cannes. O grupo forró-brega foi tocar no Rec Beat. Etcetera, etcetera, etcetera.

Com tais fatores, o apartheid social, dizem, começou a ser derrubado e que agora vivemos um clima de "verdadeira inclusão social" na cultura de nosso país. Certo?

Erradíssimo. O que se vê é tão somente o travestimento da "cultura de massa" brasileira, do hit-parade tropical, dos produtos e subprodutos musicais da grande mídia que tentam agora, para reciclar o seu sucesso, fazer tudo para agradar as elites da chamada MPBzona.

Mas o que parece ser a superação do separatismo cultural entre povo e elites, na verdade, representa o seu agravamento, a sua ampliação. O que ocorre é o oposto que o discurso melífluo de parte da intelectualidade adesista à "cultura de massa" alardeia, até num quase uníssono, em vários órgãos de imprensa, periódicos acadêmicos e sítios de Internet dos mais diversos.

Afinal, o apartheid sócio-cultural aumenta cada vez mais. O que ocorre é que uma parte "flexível" das elites adere ao espetáculo brega-popularesco, talvez como forma de agradar gente das classes populares de seu convívio direto, como porteiros de prédios, empregadas domésticas e faxineiros.

Tem-se a impressão de que a classe média aderiu às classes populares, que uma grande comunhão ecumênica passou a ocorrer, que as desigualdades sociais se resolveram, que a inclusão social tornou-se plena e definitiva. Tudo impressão. Tudo ilusão. Tudo conversa para boi dormir.

DESIGUALDADE SOCIAL: POVO SOFRIDO, ELITES ISOLADAS

Enquanto isso, a desigualdade social aumenta, por trás dessa aparente festa de confraternização. Se, por um lado, todo o oba-oba em torno da "cultura" brega-popularesca não resolve os problemas vividos pelas classes pobres e nem sequer contribui para a renovação de nossa cultura (apenas tenta definir os "sucessos das paradas" como se fosse "cultura séria", o que é muito duvidoso), por outro vemos as classes pobres sofrendo os mesmos infortúnios de antes.

A própria tradição histórica das classes populares - em que pese o consumo subordinado, de parte das mesmas, dos referenciais e ídolos impostos pelas rádios e TVs controladas por oligarquias empresariais e políticos - recusa essa posição subordinada. Vê essa "cultura" brega-popularesca como um fast food, um junk food que consomem pela falta ou pelo desestímulo que a indústria cultural promove às verdadeiras manifestações culturais do povo pobre. E o povo pobre só consome essa "cultura" pela falta de algo melhor.

Há um claro contraste entre os movimentos sociais populares e os bobos-alegres que hoje promovem a sua própria decadência na música brasileira, de Dário Jeans ao Parangolé, do MC Créu ao Aviões do Forró, do Forró Estourado ao DJ Marlboro, da Stefany Absoluta ao Leva Noiz.

Porque o povo pobre é verdadeiro na busca de suas melhorias de vida, na sua organização comunitária, na sua busca por conhecimentos, diferente de suas formas caricaturais de bobos-alegres vestidos com cores aberrantes, sorrindo feito patetas e "fazendo" músicas que, se percebe logo de cara, são boladas ou ao menos financiadas por poderosos grupos empresariais que estão muito longe de constituir as "pequenas mídias da periferia" que muitos dizem.

Se há esse contraste, que se mostra evidente quando há a violência, as intempéries, a fome atingindo o povo, um drama muito maior do que a demagogia "social" dos funqueiros, por exemplo, diz reconhecer, enquanto seus intérpretes mostram o espetáculo do patético e da vulgaridade gratuita dentro de uma indústria de DJs-empresários riquíssimos e poderosos, por outro há a elite que, sem aderir ao circo popularesco, se isola cada vez mais.

Se há um povo pobre que continua sofrendo sob o descaso de autoridades ou mesmo da "sociedade organizada", por outro há as elites protecionistas, que, se apropriando do legado da cultura popular do passado - pode parecer piada, mas há quem queira que o povo seja proibido de fazer baiões, sambas etc, porque "não lhes cabe fazer mais isso" - , querem gozar desse acervo musical de qualidade nos seus salões.

Por isso, essa música de qualidade, para essas elites, tem mais é que desaparecer do rádio, da TV, e de preferência não aparecer na Internet. Que músicos como Pixinguinha e Luiz Gonzaga sejam apreciados tão somente em museus de imagem e som pelo país, ou em salões fechados para os bacanais restritos de uma intelectualidade preciosista.

Chegamos ao ponto de quase vermos nomes de qualidade mas acessíveis, como Djavan e Milton Nascimento, desaparecer da mídia como se fossem artistas obscuros. E ver que nem as "colegas de trabalho" de Sílvio Santos conhecem Gal Costa é o fim da picada. As elites, com medo de que um novo Chico Buarque, uma nova Joyce, surjam nas favelas, roças e sertões, estavam perto de comemorar, com a hegemonia absoluta de um brega-popularesco que já estava quase subordinando a classe média-média que outrora também podia apreciar a MPB autêntica.

INTERNET TENTA RECUPERAR MEMÓRIA CULTURAL

Mas, felizmente, temos a Internet e, mesmo nas lan houses, a rapaziada começa a ver que o joio não é trigo nem muito menos parte dele. Os jovens da favela começam a se interrogar se, com o contato que começam a ter com o samba do passado, vale a pena continuar apreciando as formas caricaturais do sambrega, que, por mais que pareça "bem tocado", nunca sai da "Síndrome do Imitasamba".

Aliás, não adiantou os "pagodeiros românticos" bancarem os "sambistas sérios" com o decorrer do tempo. A "inclusão" no mercado de MPB não trouxe melhorias. Pois aqueles sambregas do passado, que só mexiam seus pés em coreografias sofríveis, quando passaram a tocar "samba sério", se limitaram a imitar, feito papagaios, o que há de mais manjado na música de Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Fundo de Quintal, mas sem saber a diferença entre lundu e maxixe, entre samba de roda e samba de gafieira.

Por isso o separatismo musical e sócio-cultural não se resolve promovendo mulheres-frutas a "ícones do feminismo", ou a jogar medalhões do brega-popularesco em eventos e redutos de MPB. Isso só mascara os verdadeiros problemas. Mesmo porque os próprios ídolos brega-popularescos ficam mais inseguros e confusos quando são empurrados a "fazer MPB", investindo num ecletismo sem pé nem cabeça e concentrando seus repertórios em covers e na overdose de discos ao vivo e duetos, que os nivelam a crooners de reality shows.

Superar o separatismo sócio-cultural é, na verdade, promover a emancipação cultural das classes populares, devolvendo a elas as tradições rompidas pelo poder midiático. É retomar o caminho que as tradições culturais percorriam até 1964 - quando o regime militar empurrou o brega-popularesco - e seguir em frente. Sem medo de se atualizar nem de dialogar-se com o mundo, mas sem cair no ridículo da cafonice que não transgride, só regride.

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