quinta-feira, 5 de maio de 2011

A BLOGOSFERA EM PASSIVIDADE BOVINA


RAPHAEL TSAVKKO GARCIA DEFENDE UMA ESQUERDA MAIS CRÍTICA E MENOS SECTÁRIA.

Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, Raphael Tsavkko Garcia escreveu um artigo bastante coerente sobre a postura acrítica que determinados blogueiros progressistas têm do governo ou de outros problemas relacionados à agenda de debates esquerdista.

Ele faz uma comparação entre a blogosfera progressista e o Partido da Imprensa Golpista, e reconhece a vantagem da blogosfera de esquerda - vale lembrar que o PiG também conta com seus próprios "blogueiros" - ter uma posição ideológica clara, em vez da pretensa "imparcialidade e isenção" da imprensa conservadora.

No entanto, Raphael Garcia critica a eventual omissão que muitos blogueiros de esquerda possuem, às vezes com certo clima "chapa-branca". Essa omissão se dá sobretudo diante de posições estranhas adotadas pelo Governo Federal, projetos que, pelas falhas de orientação ideológica do PT e pela pressão das alianças conservadoras que efetivou politicamente, vão contra os interesses populares.

É o que se chama de "passividade bovina", que setores da blogosfera progressista adotam, e que Tsavkko define como "convergência hipócrita", feita para encobrir fatos - e seus respectivos problemas e equívocos - , evitar debates ou fingir que certos problemas não existem.

O Governo Federal quis realizar a transposição do Rio São Francisco, numa clara afronta à sua estrutura ecológica. Poucos contestam a gravidade da medida, que vai contra sudestinos e nordestinos que utilizam do longo rio, carinhosamente apelidado de Velho Chico. Com o desvio do curso natural do Velho Chico, o impacto ambiental será violento, com sérios danos à sociedade e cujos benefícios só servirão mesmo para alguns fazendeiros da região.

Tem também a construção da hidrelétrica de Belo Monte, na região do Parque do Xingu, uma das áreas remanescentes de população indígena. A medida foi decidida "de cima para baixo", sem qualquer consulta à população, e o projeto da hidrelétrica foi condenado pela Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual o Brasil faz parte.

Há também o caso da Contribuição Provisória (ou Permanente?) de Movimentação Financeira (CPMF), um dos equívocos cometidos pelo governo Lula. A defesa da CPMF, felizmente extinta, num país com carga tributária sobrecarregada, torna-se hipócrita, porque o "imposto do cheque", como o tributo foi conhecido, era em tese destinado à saúde, mas seus defensores falavam, com indisfarçável cinismo, que a "contribuição" era "necessária" para todos os projetos a serem realizados pelo Governo Federal.

Ou seja, como é que podemos admitir que um imposto destinado somente à Saúde seja defendido para outras medidas e investimentos?

A "passividade bovina" chega mesmo à omissão. Como também nos problemas aqui analisados como a "cultura popular" respaldada pelo latifúndio e pelas oligarquias midiáticas e lojistas, mas apoiada por uma intelectualidade que bebe nas fontes das teorias sociológicas neoliberais, mas acha que pode entrar na esquerda pela porta da frente. Ou mesmo da presença de pseudo-esquerdistas com alguma visibilidade, porque eles podem garantir visibilidade aos esquerdistas autênticos mas de senso crítico mais frágil.

A verdadeira posição de esquerda se alinha com uma consciência crítica mais afiada. É verdade que não temos uma esquerda "pura" e nem se fala em desejar um padrão de conduta esquerdista. Porque isso pode ir à tentação do totalitarismo ou do sectarismo burocrático, e pode pôr as causas progressistas a perder.

Mesmo assim, até o mais flexível esquerdismo deveria ter um pouco de desconfiômetro. Sobretudo agora, quando o bloco político aliado está mais para um balaio de gatos do que para um ecumênico bloco de centro-esquerda, e vemos verdadeiros defensores do latifúndio, como Kátia Abreu e Marcos Medrado, para não dizer um reaça como Jair Bolsonaro, como "nossos aliados".

Por isso a omissão de setores da opinião pública de esquerda - que, pelo jeito, sonha até demais com o Oriente Médio, como se quisesse se mudar para lá depois que suas ditaduras e seu terrorismo forem derrubados - serve de gancho para a reação direitista (como no caso de Reinaldo Azevedo diante do caso do "funk carioca") e faz com que possíveis simpatizantes ou adeptos da causa esquerdista rompessem com ela, diante de tantos aliados suspeitos.

A blogosfera esquerdista deveria ser mais crítica ou mesmo autocrítica, porque a realidade em que vivemos é muito complexa para se omitir diante de certos problemas.

2 comentários:

  1. eu confesso que não desenvolvo tanto certas questões em meu blogue porque não tenho o mesmo poder de análise que você. a "geleia geral" me abduziu. preciso desenvolver um ponto de vista crítico, mas talvez a verdade seja que me tornei apática diante da desesperança. de toda forma, não me perdi totalmente, tanto é que leio seu blogue...

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  2. Opa, excelente post e muito obrigado pela citação!=)

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