segunda-feira, 16 de maio de 2011

BERÇO DO BREGA, NORTE-NORDESTE VÊ AUMENTAR REJEIÇÃO A SEUS RITMOS


FORRÓ ESTOURADO - Parasitar repertórios estrangeiros é uma das queixas contra o brega-popularesco do Norte-Nordeste, como neste caso do grupo que fez "versão" para "Come As You Are" do Nirvana.

Por Alexandre Figueiredo

Dihelson Mendonça, Rachal Shererazade, André Luiz da Silva... Nomes assim parecem insignificantes, mas são de pessoas que simbolizam a reação de profunda indignação contra o império do brega-popularesco que atinge o Norte e Nordeste, regiões de onde surgiram suas primeiras tendências, ainda durante o regime militar e sob o patrocínio das oligarquias regionais que controlam o entretenimento e os meios de comunicação.

São nomes como Carreta Furacão, Leva Nóiz, Saia Rodada, Forró Estourado, Viviane Batidão, Mike do Mosqueiro, Forró dos Plays, Stefany Absoluta, e tantos outros. Ou então ritmos como o arrocha, de Salvador, representado sobretudo por Nara Costa, Silvano Sales e Brazilian Boys. Nomes que andam causando indignação e revolta de intelectuais, jornalistas e até do público nortista e nordestino que há muito tempo não consegue mais apreciar a cultura e, sobretudo, a música de qualidade, cada vez mais rara nessas regiões.

A música brega criou uma grande legião de ritmos derivados e gerações de ídolos que praticamente sufocou a música brasileira nessas plagas. A situação é tão grave que mesmo o "brega de elite" representado por ídolos do "pagode romântico", "sertanejo" e da "ala nobre" da axé-music, que conseguem se apresentar até em eventos musicais de primeiro escalão no país.

Os "bregas de elite" são tidos como "sofisticados", o que revela o caráter perverso da grande mídia - que, através das Organizações Globo e do Grupo Folha, apoia esses ídolos "sofisticados" - em "matar", aos poucos, a Música Popular Brasileira, substituindo-a por uma música comercial que é a Música de Cabresto Brasileira, a reunião de todos os ritmos derivados da música brega, dos mais grotescos aos tidos como "sofisticados".

Enquanto intelectuais "comprados" pelo establishment mediático - e isso vale até mesmo para aqueles que vestem a capa de "esquerdistas" como o para-sempre-crítico-da-Folha Pedro Alexandre Sanches - tentam dizer que o brega-popularesco (que eles não entendem com esse nome, que lhes soa pejorativo) não tem acesso na grande mídia, a cada vez mais se comprova que são seus ídolos, sejam eles funqueiros, forrozeiros-bregas, breganejos etc que estão com o poder nas mãos.

É por isso que até os roqueiros se renderam à Banda Calypso e muitos artistas de MPB, sobretudo de música caipira (como Renato Teixeira) ou do cancioneiro nordestino (como Geraldo Azevedo), visando serem inscritos em eventos musicais "de massa", cortejam ídolos do brega-popularesco em "parcerias" tendenciosas. Porque excluídos não são Chimbinha, Ivete Sangalo nem Zezé Di Camargo, Bell Marques ou Alexandre Pires. Estes são os donos do poder. Excluídos são justamente os artistas da "MPBzona" que não conseguem furar o bloqueio das rádios.

Essa ideia ainda deixa muitos internautas com o nariz a torcer - fica mais confortável acreditar que até Chitãozinho & Xororó só fez sucesso por causa das "redes sociais" da Internet - , mas a verdade é que o poderio do brega-popularesco torna-se mais cruelmente explícito no Norte e Nordeste, daí uma indignação cuja fúria nem mesmo o alegre cafajestismo intelectualóide dos baianos Milton Moura e Roberto Albergaria conseguem controlar.

Pois o jornalista Dihelson Mendonça, do Ceará, comparou o império do tecnobrega a um inferno. A hegemonia da axé-music e do forró-brega fez Rachel Shererazade corajosamente disse ser contra o Carnaval brasileiro de hoje.

E André Luiz da Silva já lançou uma monografia falando da decadência do forró, narrando o caminho da desqualificação de antigos baiões, xaxados e outros ritmos para o apátrida "forró eletrônico" de hoje, cada vez mais entreguista, concentrado em gravar versões de músicas estrangeiras ou de fazer engodos que misturam disco music, country e ritmos caribenhos e que hoje são rotulados de "neo-forró".

A indignação atingiu até mesmo nomes antes "inabaláveis" como Aviões do Forró e Parangolé, que foram acusados de roubo de músicas, o primeiro passando a perna num conjunto rival e menos badalado por conta da exclusividade de execução da música "Minha mulher não deixa" ("Não vou não, quero não, posso não..."), o segundo de ter plagiado um solo de guitarra (!) do grupo de heavy metal Angra.

Desta vez não colam mais acusações de "preconceito", "horror moralista", "saudosismo elitista" ou coisa parecida. A indignação é praticamente generalizada. Até mesmo intelectuais surgem, preocupados com o desaparecimento dos antigos ritmos regionais. E a hegemonia do forró-brega chega mesmo a sufocar até mesmo outras tendências do brega-popularesco de outros Estados, como no caso dos "bregas de elite".

Nas comunidades do Orkut, aliás, já crescem até mesmo a reação contra quem apoia as tendências brega-popularescas. "Falam sempre as mesmas coisas, que 'são vítimas de preconceito', 'sofrem inveja', que são 'a cultura da periferia'", é o que frequentemente se queixa daqueles que defendem o brega-popularesco.

A grande mídia, preocupada com a anunciada falência desses ritmos popularescos, tentou relançar, sob o verniz de "jornalismo investigativo" do Profissão Repórter (apresentado por um Caco Barcellos que construiu sua reputação com livros sobre criminalidade), as mesmas tendências sob o pretexto de que "elas fazem sucesso sem depender da grande mídia nem das grandes gravadoras", desculpa-clichê que tenta proteger as tendências mais grotescas do brega-popularesco, do "funk carioca" ao arrocha e paromba.

No entanto, é possível que a indignação cresça cada vez mais. O blogueiro Timóteo Pinto, apesar da condescendência com o brega-popularesco "mais autoral" (sobretudo os ídolos breganejos), há um tempo investiga escândalos nos bastidores do forró-brega, sem poupar sequer o "totem supremo" Aviões do Forró (que chega a ter no Orkut comunidades contra quem odeia o grupo). São acusações que variam de irregularidades trabalhistas até roubo de músicas, sem falar da excessiva regravação de músicas estrangeiras que praticamente compromete o suposto regionalismo atribuído a esses ritmos.

O que significa que a decadência de ritmos como o forró-brega e a axé-music mais rasteira - incluindo seus subprodutos como tecnobrega, paromba, arrocha e "pagodão baiano" - só está começando.

O senso crítico começa a despertar no Norte-Nordeste que no passado viu um Waldick Soriano patrocinado pelo latifúndio e pelos barões do atacado e varejo abrir a estrada para a devastação da cultura regional do Norte e do Nordeste.

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