terça-feira, 10 de maio de 2011

A BANALIZAÇÃO DO CONCEITO DE "INDEPENDENTE" NO BRASIL


PROFISSÃO REPÓRTER - Mais uma vez, a grande mídia dirá que certas tendências musicais sobrevivem sem o apoio da grande mídia.

Por Alexandre Figueiredo

Hoje o programa Profissão Repórter, da Rede Globo de Televisão, mostrará mais uma vez o discurso de que o brega-popularesco é "independente" e "alternativo". A retaguarda musical se impondo sob o rótulo da "vanguarda". Grandes mídias regionais se passando por pequenas porque não têm escritórios na Avenida Paulista nem representantes em Nova York.

A banalização do termo "independente" no Brasil tem o mesmo objetivo nocivo do processo de banalização que a cultura alternativa sofreu nos EUA, há 20 anos atrás, mas num contexto e com caraterísticas bastante diferentes.

Nos EUA dos anos 90, a banalização da cultura alternativa, com todo o processo de deturpação de sentido, teve como vítima o cenário de rock da cidade de Seattle, no noroeste estadunidense. Um hype foi feito pela mídia daquele país, talvez por ciúme pelo fato do jornalista inglês Everett True (do extinto periódico Melody Maker) ter feito, antes de qualquer grande crítico estadunidense, uma reportagem sobre as novas bandas da cidade natal de Jimi Hendrix.

A badalação em torno das bandas de Seattle, embora pareça que a cultura alternativa tenha se valorizado, na verdade ocorreu o contrário. Bandas que ainda procuravam o seu som eram jogadas precocemente ao sucesso. Sim, fala-se de Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains, Soundgarden e Screaming Trees. Isso representou muita pressão para esses grupos, estressando seus músicos. Destas bandas, só Pearl Jam teve a força de suportar as pressões, mas mesmo assim anda tendo intervalos maiores entre um álbum e outro.

Mas a banalização da cultura alternativa teve efeitos piores, nos EUA. Criou um estereótipo de alternativo com camisa de flanela em cores xadrez, cabeludo e ora barbudo (de preferência, com cavanhaque), meio preguiçoso e cético com tudo. Uma comédia da MTV, Beavis & Butthead, acabou sendo levada a sério demais. Psicopatas passaram a ser cultuados. E até mesmo nomes do pop adolescente mais inócuos, como Backstreet Boys e Britney Spears, acabaram assimilando a suposta rebeldia desse estereótipo.

O Brasil dos anos 90 chegou a pegar carona nessa visão "alternativa". A grande mídia criou um simulacro de "mídia indie" que atingiu vários setores: rádios que tocavam hit-parade e até brega viraram, da noite para o dia, "rádios de rock" sem qualquer adequação ao formato. Grandes gravadoras criaram selos "independentes" como Banguela, Radical e outros. Revistas ligadas à grande imprensa imitavam a linguagem dos zines (a imprensa alternativa da era pré-Internet). Grandes jornalistas passaram a se travestir de "alternativos", até mesmo André Forastieri, que muito antes de Pedro Alexandre Sanches havia colaborado para Caros Amigos e hoje está no portal R7. Carlos Eduardo Miranda e Rick Bonadio também se ascenderam nessa época.

Mas hoje em dia o contexto é outro. Trata-se da pretensa "cultura popular", a mesma que causa violentos escândalos envolvendo até roubo de músicas (que atingem até mesmo "peixes grandes" como Parangolé e Aviões do Forró), e que trabalha o estereótipo "popular" da ideologia brega - com seus pobres mais estereotipados do que em qualquer chanchada - , que agora usa o verniz "independente" para seduzir a opinião pública.

O HIT-PARADE QUE NÃO DEU CERTO

A banalização do termo independente, que em outros tempos superestimava selos "indie" ligados a grandes gravadoras - com o pretexto de seus diretores serem tão somente músicos, produtores de estúdio e jornalistas - , que desapareceram sem deixar rastro, agora a confusão ganha outro aspecto: a de selos "pequenos" regionais de música brega e neo-brega.

A pregação intelectual que deu aos desgastados ritmos do brega-popularesco produzido até os anos 90 uma sobrevida mercadológica nos últimos dez anos, gerando derivados desses ritmos - como o arrocha, tecnobrega, tchê music, o "funk" pós-Eguinha e outros que não passam de reproduções de velhos ritmos bregas e mesmo os neo-bregas dos anos 90 - fez com que uma associação tendenciosa à população da periferia virasse moda, livrando a culpa do empresariado que investe nesses ritmos e seus ídolos.

Pois essa pregação, existente até em documentários e em teses de mestrado e doutorado, chega mesmo a dizer que esses ídolos de sucesso nas rádios FM regionais - controladas por políticos conservadores, latifundiários ou por oligarquias estaduais - se popularizaram por iniciativa de "pequenas mídias", aparentemente sem o apoio de grandes gravadoras ou da grande mídia.

Um ponto risível dessa propaganda travestida de argumentos intelectuais é que até mesmo a grande mídia, seja O Globo/Rede Globo e a Folha de São Paulo, ou mesmo Estadão e Veja, chegam a dizer que ritmos como "funk carioca" e tecnobrega "não têm acesso nos veículos da grande mídia". Ora, ora, então o que esses veículos são?

Essa confusão mostra o quanto é complicado o termo "independente", usado agora para definir gravadoras que, apesar de seguirem a mesma lógica dependente da indústria fonográfica dominante - essa lógica é o mercantilismo mais voraz - , e que é mais uma palavra atraente que acaba servindo para o oportunismo de alguns aproveitadores.

Isso ocorre principalmente nas recentes tendências da música neo-brega brasileira. É cada embuste que tanto pode corromper nomes de antigos ritmos folclóricos, como o carimbó, como pode criar nomes como "arrocha" e "palomba". Ou então o tecnobrega.

Em todos os casos, o caráter patético de seus ídolos e a mediocridade de suas músicas em nada lembra qualquer conceito de "cultura alternativa" ou "independente", mas sim o de um hit-parade tão mercantilista quanto o dos EUA, mas é um hit-parade que, no mercado competitivo em que vivemos, simplesmente não consegue emplacar. E a indústria fonográfica é cruel até mesmo para os seguidores dos próprios ritmos comerciais que ela lança.

NEM TODA GRAVADORA PEQUENA É INDEPENDENTE

A definição de gravadora independente não envolve apenas uma estrutura supostamente menor. Envolve também uma lógica de trabalho, mais humana, tanto no trato dos artistas quanto na despretensão do lucro fácil e imenso.

Na Inglaterra, aliás, o mercado independente envolve tão somente uma lógica de respeito ao artista, de não sucumbir à competitividade voraz nem à obsessão do lucro. O mercado fonográfico independente do Reino Unido, único em todo o mundo, surgiu desde meados de 1976, impulsionados pelo movimento punk, e representou nos anos 80 um riquíssimo cenário de bandas cuja qualidade musical era a prioridade.

Além disso, a força independente é tal que surgiram grandes gravadoras indie, não grandes no sentido do poderio, mas da estrutura administrativa. Selos como Factory, Rough Trade e Creation tornaram-se grandes sem abrir mão de seus princípios.

A situação do mercado indie britânico é tão séria que, depois de um breve período, um selo de dance music, o PWL, praticamente acabou, expulso de um mercado que até hoje se mantém o princípio da qualidade musical, e não do sucesso comercial.

No Brasil, falar em "indústria independente" incomodou até mesmo os músicos da MPB paulista da cena da Lira Paulistana (Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Rumo, Vânia Bastos, Premeditando o Breque), porque o próprio termo "independente" é confuso, num país complexo como o Brasil.

Uma das poucas gravadoras que realmente podem ser consideradas independentes no Brasil é a Baratos Afins, movida pelo idealismo do farmacêutico Luiz Carlos Calanca, empresário e produtor do selo e um homem que alia simplicidade técnica com a preocupação com a qualidade musical.

"PEQUENAS" GRANDES GRAVADORAS

Já os "pequenos" selos fonográficos do Pará, da Bahia, do Ceará e de Tocantins, na verdade, são "pequenas" grandes gravadoras que já estabelecem relações de poder dignas da indústria fonográfica dominante.

Não se pensa em qualidade musical, enquanto se pensa demais no marketing do espetáculo. As tendências musicais são trabalhadas sob uma verdadeira lógica fordista - um dos principais paradigmas da exploração capitalista dos meios de produção - , com grupos, duplas e cantores comandados a mão-de-ferro por seus empresários.

As "pequenas" gravadoras são ligadas ao poderio regional de seus Estados, e recebem investimento até dos grandes fazendeiros locais. Se aliam à representantes da grande mídia do Sudeste e promovem festivais de música com apoio de deputados, vereadores e latifundiários.

Nota-se que, do contrário que se diz, essas gravadoras regionais, assim como as agências empresariais do entretenimento, de fato não podem ser considerados "mídias pequenas". O You Tube está acessível até a empresários ricos criarem seus próprios canais. Além disso, a prática comprova que rádios FM locais, gravadoras regionais e agências regionais de entretenimento possuem poder suficiente para serem considerados uma grande mídia.

É uma grande mídia provinciana, mas seu poder de manipular o grande público é devastador. Ela só parece pequena para os olhos da intelectualidade isolada nos seus condomínios na Zona Sul de São Paulo. E que vê a periferia "de longe", de preferência pelos documentários da TV britânica que passam nas emissoras de TV por assinatura.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...