domingo, 24 de abril de 2011

UM ESPECTRO RONDA BRETTON WOODS


O ACORDO NA CIDADE DE BRETTON WOODS, NOS EUA, FOI O BERÇO DO FMI E DO BANCO MUNDIAL, HÁ 67 ANOS.

COMENTARIO DESTE BLOG: Este é um ensaio sobre a crise mundial do capitalismo e uma comparação entre o liberalismo clássico de John Maynard Keynes e os atuais rumos do neoliberalismo a partir dos EUA. Um bom texto para debater a teoria capitalista no seu conjunto.

Um espectro ronda Bretton Woods

O fantasma de Keynes retorna, profético, a Bretton Woods: esquecemos as lições de economia que nos ensinaram nossos ancestrais.

Por Will Hutton - Tradução de Cainã Vidor - Revista Fórum

Os fantasmas estão à espreita no Mount Washington Hotel de Bretton Woods, localizado no fundo de um vale assombrosamente silvestre e belo sob o Monte Washington de New Hampshire, ainda coberto de neve até mesmo no inicio de abril. Estão por lá os espectros dos delegados que estiveram no hotel em julho de 1944 para finalizar o acordo que criou o FMI e o Banco Mundial na conferência econômica internacional de maior êxito jamais vista. Mas o fantasma que ronda todo aquele que tenha participado em algum sentido da história é o de John Maynard Keynes, o maior economista do século XX, chefe da delegação britânica.

Negligenciou sua saúde tratando de conseguir o grande acordo de negociação. Um sistema comercial e financeiro mundial que combinava a abertura e a igualdade, evitando acima de tudo o protecionismo que foi precursor do nazismo e da Segunda Guerra Mundial. A maioria de nós consideraria o FMI, o Banco Mundial e quase sete décadas de paz e crescimento do comércio mundial, ao menos até 2009, como um resultado muito bom, mas Keynes tinha a impressão de que não havia aproveitado suficientemente bem o momento único da conclusão de uma guerra, quando a gente estava preparada para deixar de lado as diferenças nacionais pelo futuro bem comum.

Quis destruir a teoria propagada por economistas e políticos que pregavam equilíbrios orçamentários, austeridade pública, primazia da soberania nacional e liberdades para as finanças em casa e no exterior. Em troca, ele queria regras que reconhecessem a interdependência entre países e criar instituições globais e uma moeda mundial que abriria espaço aos governos para manobrar atuando com inteligência e criatividade a fim de estimular o emprego, o comércio e o crescimento. Conseguiu algo do que desejava, mas não o bastante e não é incomum escutar os ecos de seu discurso de despedida, no qual avisava de seus temores de que voltariam os dragões.

Na sexta-feira pela tarde, enquanto se celebrava aqui outra grande conferência econômica para debater a atual crise da economia internacional, organizada pelo Instituto do Novo Pensamento Econômico, que têm o rei liberal do fundo de cobertura, George Soros, como seu pioneiro e agitador, o discurso de despedida de Keynes parecia inquietantemente profético. Retornaram os dragões. Em Washington, um Partido Republicano revivido pôs o governo americano perto de fechar, a falta de autoridade política para liberar fundos enquanto combatia severíssimos cortes do gasto federal. Do outro lado do Atlântico, uma legião de fundos de cobertura e bancos de investimento forçou um diminuído e sozinho governo português a recorrer ao FMI e a União Europeia para um resgate multimilionário em euros. Na Grã-Bretanha, George Osborne se apresenta como paladino da imponente velocidade de seu plano de redução orçamentária, dizendo que não jogará roleta-russa com a economia britânica. Encontram-se por toda parte os ecos da linguagem que Keynes tratou de espalhar em Bretton Woods.

São todos estes exemplos de políticos que respondem a novos desafios em circunstâncias que se transformaram. A questão é se têm razão. Por exemplo, até os democratas norte-americanos estão de acordo com os ativistas do Tea Party do seio do Partido Republicano em que se os EUA repetem o que fizeram na primeira década deste século, então a dívida pública se duplicará, tornando-se insustentável. O argumento é se a resposta deveria consistir em promover cortes no governo federal norte-americano ou se o governo, apesar das constrições fiscais, forma parte da solução mediante seu papel de estimulador de um crescimento maior e sustentável. Na Europa, o governo português poderia ter gerido seus assuntos com mais disciplina e os investidores desconfiam que possam perder dinheiro se acontecesse uma suspensão de pagamentos ou uma reestruturação da dívida. Mas novamente o resultado é ferozmente desmedido: os mercados decidiram de forma unilateral voltar-se contra o governo de Portugal, que não tem outra opção a não ser recorrer aos empréstimos do FMI e da UE.

Ao menos sobra a cortesia do FMI no que diz respeito ao que se sucedeu no Mount Washington Hotel há 67 anos. Mas Keynes teria ficado ainda mais desiludido ao final da Conferência de ter acreditado que o FMI iria ser utilizado como fundo de resgate para fazer do mundo um lugar seguro para especuladores ou bancos sobrecarregados, enquanto os povos têm que aceitar a temível austeridade. Isso era o contrário do que ele esperava que o FMI fizesse.

Sua meta consistia em converter o FMI em uma instituição que pudesse conceder a países na situação de Portugal um espaço no qual pudessem respirar financeiramente, entre outras razões porque se todo o mundo começa a apertar os cintos simultaneamente, então mínguam as perspectivas de outros países. Mas ele se encontraria duplamente alarmado pela forma que se está pondo em prática uma jihad em escala mundial contra a petição de empréstimos por parte dos governos depois de um arrocho de crédito que deixou muitos países com altas dívidas privadas contraídas por empresas e indivíduos que não podem cumprir com seu serviço. Há países, com a Grã-Bretanha e os EUA em mente, que tiveram que recorrer ao Estado para impedir uma queda financeira de primeira ordem, e agora o mesmo sistema financeiro que salvaram se volta contra eles e os põe na berlinda por ter as mesmas dívidas públicas que salvaram os bancos.

Um dos problemas é que a economia e os economistas foram demasiado débeis na hora de estabelecer que a crise tinha sua origem em comportamentos privados mais do que públicos ou em demonstrar de que modo o crescimento e a geração de emprego são resultado de uma completa interação entre as ações, o gasto e o quadro dos governos e o dinamismo do setor privado. O governo é parte inevitavelmente da solução, não o problema irredimível. Fica mais fácil para o movimento do Tea Party em todo o mundo, seja no seio do Partido Republicano, no Tesouro ou nos fundos de cobertura, especular contrariamente aos estados periféricos pertencentes ao euro, debilitando-os de um jeito ou de outro para impedir que atuem de forma criativa e inteligente como resposta a uma continuada crise financeira e aos níveis de dívidas privada que estão nas nuvens.

Dá a impressão de que nos últimos seis meses não houve em absoluto crescimento econômico na Grã-Bretanha e isso ainda antes que as imponentes medidas de austeridade se deixem sentir. Disse a um alto funcionário britânico que acreditava que não somente existia a possibilidade de que o crescimento britânico ficasse condenado durante anos, mas que o conjunto da economia corria perigo de cair num estancamento ao estilo do Japão. Ele respondeu que outros governos também pensavam o mesmo.

Economistas e dirigentes empresariais não deveriam deixar que o chanceler saísse impune com declarações ao Tea Party sobre os riscos de bancarrota para a Grã-Bretanha, na qual não há outra opção além de sofrer. Keynes dedicou sua vida a por em jogo esse pensamento e durante alguns anos o manteve vivo. As más notícias mentem que somente mediante desastres, como o que viveu Keynes, mudem o modo de pensar das pessoas. As boas notícias consistem em que são muitos os economistas excelentes e iconoclastas – há muitos por aqui – de muitos países que querem liberar de novo este combate. Trata-se de uma luta contra o pensamento convencional... e contra o tempo.

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