sexta-feira, 22 de abril de 2011

POR UMA CRÍTICA MUSICAL DE ESQUERDA



Por Alexandre Figueiredo

Ainda não apareceu uma crítica musical de esquerda. Não apareceu uma geração de críticos que pudesse pensar a música brasileira numa visão realmente de esquerda, sem falsos folclorismos. Uma crítica que una visibilidade e coerência, senso crítico e humildade, e com uma postura sócio-cultural que vá muito além do "socialismo de botequim".

Até agora, o que vemos é apenas a expressão ideologicamente alienígena de um crítico musical badalado pela intelligentzia, Pedro Alexandre Sanches, que escreve para três periódicos esquerdistas: Carta Capital, revista Fórum e Caros Amigos, sendo que nesta última ele tem uma coluna chamada "Paçoca".

Ele é ideologicamente alienígena porque até hoje ele não representou qualquer ruptura com o pensamento crítico musical que vemos na grande mídia de direita. Pelo contrário, ele muitas vezes reforça esse ponto de vista, como no caso do tecnobrega. De que adiantou botar Gaby Amarantos na capa de Fórum (na edição de março de 2010) se, no decorrer do ano, a mídia golpista se ajoelhou a ela, até mesmo a ranzinza revista Veja?

Ou seja, será que ninguém se deu conta da comunhão de pensamento de Pedro Sanches com a de Otávio Frias Filho, Ali Kamel e outros? A desculpa de que cultura é "apolítica" não cola, quando a intelectualidade brasileira consegue tirar de letra as posições ideológicas do Oriente Médio, mas não consegue identificar o coronelismo midiático que está por trás dos ditos "sucessos do povão" das rádios FM e TV aberta.

O próprio Pedro Alexandre Sanches, antes de ter entrado na mídia esquerdista, trabalhou com muito gosto na Folha de São Paulo, e passou pela revista Bravo (Editora Abril) e Época (Organizações Globo).

Ele tornou-se cobra criada da mídia direitista, do contrário de jornalistas de visão independente que trabalharam na mídia conservadora. Tanto que ele nem fez parte da debandada de jornalistas dissidentes da Folha, que vieram a compor o quadro de Caros Amigos em 2003-2004, como José Arbex Jr. e Marilene Felinto. Sanches foi "sozinho" para a mídia esquerdista em 2008, e tudo indica que é por "indicação" da DINAP, que distribui nacionalmente os periódicos de esquerda, mas é de propriedade do Grupo Abril.

CRÍTICA MUSICAL BRASILEIRA: HEGEMONIA DE POUCOS

O que faz com que Pedro Alexandre Sanches seja adotado pela ala mais frágil da intelectualidade progressista, tal qual um filhote de pato que, vendo uma pedra à sua frente, a trata como se fosse sua mãe, é uma situação de indigência que vive a crítica musical no nosso país.

Afinal, a imprensa brasileira se marcou por experiências fracassadas de revistas musicais que fazem história mas depois desaparecem pelos seus próprios descaminhos. Nem mesmo as influentes Geração Pop e Bizz ficaram para as gerações mais recentes, cujo gosto musical acabou sendo formatado apenas por uma meia-dúzia de críticos musicais "modernos".

Há dez anos atrás, com o colapso da Bizz (que havia se tornado Showbizz e havia tido uma má fase entre 1991 e 1998), vieram várias revistas obscuras de curta duração. Até que depois veio uma entressafra. Enquanto isso, a maioria da juventude viveu a hegemonia de uns poucos críticos que definiam o gosto musical padrão da moçada, e naqueles tempos somente quatro tiveram essa missão: os cariocas Tom Leão e Carlos Albuquerque e os paulistas Álvaro Pereira Júnior e Lúcio Ribeiro.

Resultado: os jovens passaram a ter um estranho gosto musical restrito a referenciais dos anos 90 e derivados, como o grunge, o poser metal, o techno, o hip-hop, com poucas variações. A superficialidade era notória e o preconceito contra tendências anteriores a 1989 era muito grande. Tudo porque, com poucos críticos musicais influentes, a transmissão de informação musical estava muito longe de ser abrangente, diversificada e de boa qualidade.

Por isso, anos depois, esse contexto até tentou ser resolvido com a volta da Bizz e, depois, com a introdução da Rolling Stone Brasil (numa atitude bem diferente daquela de 1971-1972). Ou seja, o problema de uma informação musical abrangente e diversificada, independente do plano ideológico, tentava ser resolvido, pelo menos mostrando um pouco mais do "feijão com arroz" que uma juventude pouco afeita à "garimpagem" - ou seja, a procura de informações musicais menos óbvias e pouco acessíveis - está acostumada a usufruir.

É até um desperdício de potencial, já que os jovens não querem apostar em coisas menos óbvias. Apenas usam seu estilo musical predileto, seja o que for, para se contrapor àquele que simboliza a "tendência dominante". Por exemplo, jovens que usam o poser metal como contraponto ao "pagode romântico". Ou jovens que usam o "pagode romântico" como contraponto à MPB "feijão-com-arroz" de Jorge Vercilo.

Mesmo assim, houve outro fracasso. A Rolling Stone peca pelos textos muito longos em tipos gráficos pequenos, de leitura difícil para o público jovem médio. A Bizz fracassou por não ter recuparado a credibilidade perdida, e pela ameaça do revival de sua fase anos 80 se converter no revival dos anos 90, da sua fase ruim de André Forastieri, Carlos Eduardo Miranda etc.

E, com o colapso do meio radiofônico - que divulgava novidades no mundo da música - , ocorreu um vácuo que fez o público juvenil aderir ao brega-popularesco da grande mídia golpista. Aí ídolos da axé-music, "pagode romântico", "funk carioca", "forró eletrônico" e "sertanejo", entre outros estilos, sob as bênçãos dos barões da grande mídia, entraram até mesmo nos salões de festas dos grandes condomínios e nas "cervejadas" das faculdades (cujos universitários organizadores eram literalmente "comprados" pelos barões do entretenimento popularesco).

Mas, tendenciosismo aqui e ali, Pedro Alexandre Sanches aproveitou a visibilidade conquistada por muitos serviços à famiglia Frias para - talvez sob a "recomendação" da DINAP - migrar para a imprensa esquerdista como um verdadeiro "tampão", para falar de "cultura brasileira" sob o ponto de vista dos jornalistas da Folha de São Paulo e dos produtores da Rede Globo de Televisão.

Sem algum outro crítico que representasse uma visão mais crítica ao establishment popularesco, Pedro Alexandre Sanches caiu na mídia esquerdista de pára-quedas, entrou na festa pela porta dos fundos e foi se passar pelo anfitrião.

A essas alturas Ruy Castro, apesar de sua visão lúcida sobre música brasileira, escreve para a imprensa conservadora. José Ramos Tinhorão, idoso, aposentou-se, depois de lançar suas ideias nos livros publicados pela Editora 34. E Dioclécio Luz, o jornalista claramente de esquerda, perdeu uma boa oportunidade de se destacar pela lucidez crítica contra o brega-popularesco, quando investiu numa desnecessária polêmica relacionada à Turma da Mônica.

Num contexto em que a imprensa escrita de esquerda ainda começa o seu caminho - temos que reconhecer que ela ainda está no começo - , ainda não se tem uma visão esquerdista de cultura popular.

Num mercado jornalístico dominado por agências de notícias, é muito mais fácil os analistas brasileiros identificarem posições ideológicas relacionadas à política do Oriente Médio do que verificar alguma posição relacionada ao entretenimento "popular" no Brasil. E isso apesar de ser uma tarefa não muito difícil de se executar.

Pelo contrário, o que vemos foi Pedro Alexandre Sanches, apesar de seu conhecimento sobre MPB e sua experiência como repórter, investir em momentos contrangedores como o endeusamento do tecnobrega, ritmo apadrinhado pelos barões da grande mídia paraense (como O Liberal, cuja família proprietária representa a Rede Globo na TV Liberal), apesar de toda a pregação de que o estilo (no fundo, um subproduto do "forró eletrônico" que começa a decair no Norte-Nordeste) supostamente não tem espaço na grande mídia, logo na capa da revista Fórum, em março de 2010.

Os fatos comprovaram que esse papo de que o tecnobrega, assim como o "funk", não tem espaço na grande mídia, demonstrou-se uma grande lorota. A grande mídia do Sul/Sudeste, tanto a Folha de São Paulo, O Globo, Rede Globo, o "refinado" Estadão e a "ranzinza" Veja, divulgaram com gosto o tecnobrega.

A Fórum, envergonhada, achou que o tecnobrega iria apavorar a grande mídia. Não apavorou. Pelo contrário, foi todo mundo aparecer para o Fausto Silva e beijar as mãos de Otávio Frias Filho. Reportagens de primeira página da Ilustrada, da Folha, e do Segundo Caderno, de O Globo, escreviam praticamente a mesma coisa que Pedro Sanches escreveu sobre o tecnobrega na Fórum.

Em suas passagens na Fórum, Caros Amigos e Carta Capital, Pedro Sanches fez muito mais coisas lamentáveis, como uma raposa cuidando de um galinheiro à noite. Escreveu na Carta Capital um texto sobre a crise da MPB, mas elogiando a mesma Banda Calypso que foi abraçar o (des)animador do Instituto Millenium, o casseta Marcelo Madureira. Tentou fazer elogios a Parangolé, Calcinha Preta e no todo-querido-da-Globo Fábio Jr., em vários de seus textos na Caros Amigos. E ainda tentou elogiar o "funk carioca", incluindo a lamentável Tati Quebra-Barraco, com direito à mesma ladainha do "preconceito" que também escreveu no seu texto sobre o tecnobrega.

Até hoje, não temos um crítico musical que unisse senso crítico e visibilidade. Mantém-se Pedro Alexandre Sanches na imprensa esquerdista como se hipoteticamente um partido trotskista chamasse Fernando Henrique Cardoso para ser seu diretor-executivo.

Até agora, temos tentativas de transmissão de informação musical na revista A Nova Democracia - cuja linha esquerdista é mais radical que o trio Caros Amigos-Fórum-Carta Capital - , principalmente baseadas nas abordagens críticas de José Ramos Tinhorão. Ou então há as dicas musicais de Luís Nassif, que no caso da música brasileira se voltam para os ritmos de raiz, principalmente samba.

Mas até mesmo nos primórdios do regime militar, quando a imprensa tentou reagir aos arbítrios e quando os generais ainda adotavam um simulacro de democracia, periódicos como a revista Manchete, Correio da Manhã e Última Hora fizeram preciosos questionamentos sobre indústria cultural, sobre cultura popular e sobre a então emergente cultura de massa. Com uma objetividade e coerência que faria seus leitores jogarem os livros de Paulo César Araújo no lixo, indignados.

No entanto, num Brasil carente de estudos constantes e consistentes sobre indústria cultural, a geração de Pedro Sanches, Hermano Vianna, Bia Abramo e outros se perde por uma abordagem apologética, que esvazia qualquer intenção de abordagem crítica. E isso oitenta anos depois dos EUA iniciarem estudos similares, é lamentável que a crítica musical brasileira ainda viva sua fase desertificada, árida, estéril. Um bom texto analisando criticamente o gosto musical da "cultura de massa" norte-americana data, pasmem, de 1948!

Como desenvolver uma crítica musical que desvendasse as relações de poder por trás dos "sucessos do povão"? Como desenvolver uma crítica musical que não se contentasse com os arremedos atuais dos antigos ritmos populares, como samba, afoxé, baião, catiras e modinhas? Como desenvolver uma crítica musical reflexiva, e não demagógica, sem qualquer prática jabazeira nem abordagens etnocêntricas?

Que crítica musical de esquerda será possível que veja a população das periferias, roças e sertões sem a visão caricata, estereotipada e apátrida que a própria mídia golpista já desenvolve há décadas? Afinal, não é esse mau costume do brega-popularesco entre o grande público que fará essa pseudo-cultura parecer "natural" e "espontânea".

Muito jabá e muito marketing foram usados para fixar esse mau gosto musical no grande público. É preciso reconhecer que, por trás dessa "cultura", existe uma estrutura empresarial perversa, que inclui meios de comunicação ligados a oligarquias, grandes senhores do atacado e varejo e latifundiários, gente que age contra os movimentos populares.

É essa crítica que ainda falta nesse país. De que adianta tirar de letra a trajetória de Itamar Assumpção, diante da tentação de exaltar a cafonice do tecnobrega e do "funk carioca"? De que adianta achar a Gal Costa de 1967-1972 genial, se lamenta que o Calcinha Preta e o Parangolé "não têm reconhecimento artístico"? De que adianta 80% de inteligência acrescido de constrangedores 20% de estupidez? De que adianta ser jornalista musical "de esquerda" que apenas reafirma preconceitos e estigmas já trabalhados pela mais golpista mídia de direita?

Espera-se que este texto traga luz ao debate público e se espalhe pelos fóruns de blogueiros progressistas de todo o país.

Um comentário:

  1. Se Pedro Alexandre Sanches (que já elogia TODO o brega-popularesco) escrevesse, na revista "Caros Amigos", um texto criticando "emas" tipo o Fiuk (que eu chamo de "Filhuk do Fábio Sênior"), o Luan Santana, o Justin Bieber e o Restart (grupinho colorido que é muito mais FRESNURENTO do que o Fresno), mas elogiando as bandas de proto-emo como, por exemplo, o Fincabaute (que cantava "Coisa de Maluco"), será que ele iria comparar o Rafael (cantor da Baba Cósmica) ao Cazuza?

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