quarta-feira, 20 de abril de 2011

OS ARTIFÍCIOS DE UM MODELO DESGASTADO



Por Alexandre Figueiredo

Há alguns dias, ocorreu o Festival de Teatro de Curitiba. No entanto, a maior peça da capital paranaense, uma tragicomédia de quase 40 anos, está no seu último ato, embora a peça aparentemente indique um "recomeço".

Trata-se do modelo tecnocrático de transporte coletivo, lançado no auge da ditadura militar pelo prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, em 1974. No mesmo período, as torturas homicidas do regime militar estavam no ápice, dizimando tudo quanto era "subversivo" nos porões do DOI-CODI.

O "milagre brasileiro" mostrou-se uma grande farsa, sofrendo um colapso pelas pressões da crise do petróleo no Oriente Médio. E os generais Emílio Médici e Ernesto Geisel faziam a troca de governo, quando este último prometeu uma "redemocratização" restrita e controlada.

O modelo de transporte, tido como futurista, tem apenas algumas virtudes. Mas elas são superestimadas em torno de uma ideologia da "racionalidade" que deslumbra incautos, quando aspectos negativos como o poder concentrado nas mãos das secretarias de transporte (motivo oculto por trás da "inocente" e "disciplinadora" padronização visual dos ônibus) e as pressões profissionais sobre os rodoviários são dissimulados por um discurso pseudo-progressista e sutilmente demagógico.

O modelo tecnocrático de transporte coletivo, lançado por Jaime Lerner e reproduzido em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e, mais recentemente, Rio de Janeiro, passa por um violento desgaste. Mas os tecnocratas e os políticos associados, preocupados em ver o modelo na mais completa decadência durante os dois eventos esportivos a ocorrerem no país, a Copa do Mundo da Fifa de 2014 e as Olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016, tiveram que se mexer para manter uma fachada de "renascimento".

Há poucos meses, eventos que chegam ao nível do trágico aconteceram envolvendo os "modernos" ônibus de Curitiba e São Paulo. Em Brasília, ocorre a corrupção escancarada do transporte "padronizado", que já inclui ônibus piratas visualmente padronizados e tolerados pelo governo. Em Belo Horizonte, são greves e mais greves dos rodoviários.

E, no Rio de Janeiro, o projeto de padronização visual promovido por Eduardo Paes e seu secretário de Transportes Alexandre Sansão (que já se revela uma espécie de Ali Kamel da busologia, pela sua prepotência), já mostra o quanto o modelo de transporte tido como "moderno" e "futurista" é, na verdade, antiquado, oneroso e difícil de ser administrado.

Em Curitiba, chegou-se mesmo a anunciar um colapso no transporte coletivo. As queixas dos passageiros surpreendiam pela frequência. Três passageiros morreram em acidentes com ônibus "ligeirinhos", e até mesmo os ônibus articulados circulavam superlotados.

Isso sem falar das pressões profissionais sobre os motoristas que, explorados até à medula, sofriam estresse e tinham ataques de mal súbito no volante, pondo sério risco à vida dos passageiros, como num acidente ocorrido em junho de 2010, no centro curitibano, que teve duas vítimas fatais.

CONTO DE FADAS

Mas, de repente, como que num conto de fadas, vieram 390 ônibus novos para Curitiba, incluindo alguns biarticulados que superam em tamanho os biarticulados de São Paulo (até agora considerados os maiores ônibus da América Latina).

Tecnocratas fizeram alarde, promoveram festas e cerimoniais, e muito discurso de um otimismo exagerado fez deslumbrar muitos busólogos, iludidos com a ideologia tecnocrática que tenta fazer valer a imagem fictícia dos super-secretários de transporte dominando empresas privadas sob a camisa-de-força do visual padronizado, num verdadeiro fardamento dos ônibus.

Não é à toa que o visual padronizado dos ônibus de Curitiba, pioneiros no modelo tecnocrático, se inspiraram justamente nas Forças Armadas para o tipo de pintura a ser adotado.

GROSSERIAS

Mas, por trás de toda essa fantasia, nota-se, como no caso do Rio de Janeiro, um clima de nervosismo que envolve autoridades, tecnocratas e até mesmo busólogos simpatizantes do modelo tecnocrático de transporte coletivo. Xingações, grosserias e desaforos são lançados por esses busólogos toda vez que alguma discordância lhes é mostrada.

Isso porque eles veem o contraste entre a indignação pública das ruas e o clima de encanto e magia das cerimônias com autoridades e tecnocratas, das exposições de ônibus, dos seminários de transporte, das palestras de Eduardo Paes, Jaime Lerner e outros.

Vendo o choque entre um projeto impopular que prevalece - a padronização visual dos ônibus, carro-chefe de uma lógica tecnocrática de autoritarismo político - e uma indignação popular contra um projeto que só traz desvantagens às classes trabalhadoras, aposentados, gestantes, idosos e deficientes, com dificuldade para reconhecer as empresas de ônibus (pois são visualmente iguaizinhas).

Além do mais, para políticos que não cuidam da Educação e Saúde, mas querem controlar o transporte coletivo numa malandragem administrativa - as secretarias de transporte mandam no sistema de ônibus, enquanto os empresários ficam com o sustento financeiro, a burocracia trabalhista e a manutenção técnica. As empresas de ônibus viram meras empregadas das prefeituras ou governos estaduais, num contexto administrativo em que hospitais e escolas públicos são abandonados à própria sorte.

O desgaste se mostrará mais evidente com o tempo. Afinal, não adianta comprar carros novos, modernos, maiores e com motor mais potente. Maquiar um modelo de transporte coletivo originário de uma lógica neoliberal da ditadura é muito fácil. Mas depois se revelará que ônibus novos podem gerar notícias festejadas nas revistas de transporte, mas não fará o sistema mais humano e decente.

Pelo contrário, os mesmos transtornos, tragédias e equívocos vividos por curitibanos, paulistanos, belzontinos, brasilienses e cariocas continuarão, só que com veículos mais novos.

Será a mesma peça tragicômica, só mudarão os "atores".

Um comentário:

  1. Não é à toa que, da mesma forma que comparamos os atuais projetos tecnocráticos de algumas secretarias municipais de transporte com o projeto de Jaime Lerner em 1974, há quem compare o atual momento econômico do Govenro Lula-Dilma com o "milagre econômico" do regime militar. Ambos farsantes, portanto.

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