segunda-feira, 4 de abril de 2011

O CONSERVADORISMO FUNCIONAL


SÓ O CONSERVADORISMO FUNCIONAL, ALHEIO A APARÊNCIAS, QUE EXPLICA QUE EXISTE TAMBÉM FEMINISMO DE DIREITA, COMO O ANTIGO CAMDE, UM DOS DIVERSOS GRUPOS QUE DEFENDERAM O GOLPE MILITAR.

Por Alexandre Figueiredo

Muita gente ainda pensa que ser conservador é defender por si só as tradições sociais e expressar recusa contra o novo. Isso é um grande engano. O conservadorismo não se prende à aparência do falso maniqueísmo entre "velho" e "novo", como se para o conservador o "velho" fosse sempre bom e o "novo", sempre ruim.

Pelo contrário, a História, muitíssimas vezes, mostrou que os conservadores realizam muito mais rupturas sociais do que protegem tradições sociais. O conservadorismo só defende as tradições que estão relacionadas a privilégios de poder das classes dominantes.

Mas os conservadores também se apoiam no "novo". E muito mais do que se imagina. Mudam, e mudam muito, muitíssimo, para continuarem os mesmos, para manter os privilégios, para evitar resistências e proteger privilégios de poder.

Só para citar alguns exemplos de conservadorismo de ruptura, o golpe de 1964 instaurou o regime militar, mudando completamente o cenário político (mas não a ponto de ser a autoproclamada "revolução", até porque esta palavra se refere aos progressos sociais, e o que aconteceu foi um retrocesso).

Afinal, o regime militar também apostava no "novo", cassando parlamentares, promovendo um projeto sócio-econômico tecnocrático, impondo uma mentalidade diferente daquela existente entre 1958 e 1964. E nem por isso deixou de ser conservador.

Na economia do trabalho, quantos foram operários e agricultores que perderam o emprego para que fossem instaladas máquinas que poupassem o esforço de muitos homens? Isso não é apostar no "novo", dentro de uma perspectiva conservadora? É claro que sim!

O CONSERVADORISMO DE APARÊNCIA MODERNA

Em várias fases da história da humanidade, movimentos conservadores sempre se travestiram do aparato moderno, da linguagem mais simples ou arrojada, tudo para manter princípios retrógrados representados pelos privilégios de poder.

Em 1968, no confronto entre estudantes de esquerda da USP e jovens da Universidade Mackenzie, no famoso episódio da Rua Maria Antônia em São Paulo, os estudantes desta última, ligados ao movimento de extrema-direita Comando de Caça aos Comunistas, usavam visual típico de jovens beatniks, considerados de vanguarda.

Se observarmos, nos últimos dez anos, quem são os jovens direitistas no Brasil, teríamos de abrir mão da ideia de que o direitista se veste como "muito comportado" para não nos decepcionarmos de forma chocante.

Afinal, muitos jovens reaças de hoje parecem garotões comuns, ora parecendo skatistas, ora um misto de surfistas, hippies e rastafáris, falam palavrões, fumam "baseado", xingam, arrumam confusão, e falam muitas, muitas gírias.

O que dizer do incêndio na sede da UNE, logo após o golpe de 1964? Aparentemente foi um "ato de pura rebeldia", mas mostra o quanto o aparato de rebeldia também está a serviço de causas conservadoras. O atentado foi atribuído a membros cariocas do Comando de Caça aos Comunistas.

A polêmica que eu tive na comunidade "Eu Odeio Acordar Cedo", há quatro anos, por conta de uma simples gíria - "balada", propagada em conjunto pela Jovem Pan 2 e Rede Globo - , que me obrigou a eliminar meu primeiro perfil devido a ameaças de hackers associados à comunidade, mostra o quanto o reacionarismo da juventude de extrema-direita atual busca disfarce num repertório coloquial que possa disfarçar, junto a um comportamento "rebelde", ideias retrógradas defendidas por essa "galera irada".

Dependendo do caso, mesmo algumas causas sociais independentes de qualquer teor ideológico podem se adaptar ao contexto conservador. Foi o caso da CAMDE - Campanha da Mulher pela Democracia - , uma adaptação do movimento feminista para os propósitos direitistas, tendo sido um dos muitos grupos sociais que reivindicaram o golpe de 1964 e o regime militar.

Quem é que diria que Mayara Petruso, com sua aparência de brotinho moderno, era uma reacionária de fibra? Além disso, o reacionário da temporada, o militar e político Jair Bolsonaro, sempre foi visto como um "rebelde" dentro das Forças Armadas.

Como teria sido Cabo Anselmo, o pseudo-esquerdista com pinta de músico iniciante da Jovem Guarda. E que, depois, desmascarado como um ultraconservador agente da CIA e um impiedoso delator de seus próprios amigos e de uma ex-namorada - entregues à tortura e ao extermínio - , nem mesmo recentemente deixou de parecer "moderno", sendo uma espécie de sósia do roqueiro psicodélico Jerry Garcia, nos seus últimos anos.

E quantos jovens "modernos", hoje em dia, ligados ao establishment do entretenimento, da busologia, do Direito, do esporte e por aí vai, logo disparam em tom pejorativo adjetivos como "comunista", "psolista", "petista", "comuna", deixando vasar um direitismo nem sempre admitido no discurso, mas muito bem assumido na prática?

Mesmo entre figuras antes associadas a tendências culturais e sociais pós-modernas - Caetano Veloso, Ferreira Gullar, Fernando Gabeira, Marcelo Madureira e Sônia Francine - houve a tendência para guinadas conservadoras, várias surpreendentes.

Sem falar do apresentador do Big Brother Brasil, Pedro Bial, com sua aparência de garotão Zona Sul, seu jeitão jovial e seu currículo que inclui poesia performática e outros manifestos pós-modernos de arrepiar. Pois ele é um dos membros da cúpula do sombrio Instituto Millenium, junto a integrantes ligados à instituições ultrareacionárias como a revista Veja e os movimentos religiosos Opus Dei e Tradição, Família e Propriedade (TFP).

CAUSAS PROGRESSISTAS: O INTERESSE SOCIAL ESTÁ ACIMA DE QUALQUER ALUSÃO AO "NOVO"

Enquanto o conservadorismo funcional destrói qualquer mito de que o conservadorismo está sempre associado ao "velho", podendo se manifestar pela aparente inclinação ao que é "novo", as causas progressistas seguem o rumo inverso.

As causas progressistas envolvem a reivindicação de justiça social que, podendo agir em acordo com tradições sócio-culturais consolidadas, apenas pregam a ruptura com o poder vigente, com os privilégios de poder dominantes e socialmente nocivos à coletividade.

No campo oposto, o conservadorismo ideológico pode até mesmo lançar mão do maior número de rupturas possíveis, para evitar uma única só: a ruptura de seus privilégios e de seu domínio de poder político e econômico. Se for para o reacionário de extrema-direita passar a falar só gírias e cobrir o corpo de tatuagens e colocar piercings até nas genitálias, ele faz sem hesitar.

Já as lutas progressistas não pensam num país "futurista" dos Jetsons, num mercadão pop nem num aparato de gírias, tatuagens ou outros adereços e trajes "arrojados".

Para os movimentos progressistas, qualidade de vida não pode ser confundida com a inclusão social nos benefícios do consumismo.

O Brasil ainda vive no mundo das aparências, muito mais fácil de entender, por mais equivocado que seja, com todos os seus absurdos. Por isso muitos conservadores vivem tranquilos sob o verniz da modernidade, até deixarem cair suas máscaras no momento oportuno.

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