quinta-feira, 7 de abril de 2011

O CLIENTELISMO NA CULTURA BRASILEIRA


CHIMBINHA (E) TOCANDO COM MARCELO D2 E INTEGRANTES DOS PARALAMAS E LEGIÃO: BUSCA PELA VISIBILIDADE.

Por Alexandre Figueiredo

A cineasta tal vai fazer um documentário sobre "funk carioca". Ela acha mais válido trabalhar o tema porque atrai mais patrocinadores e mais verbas da Lei Rouanet.

Aí a cineasta lança o documentário e é paparicada pela crítica. O principal crítico musical elogia a produção dela, na esperança dela citar o nome do crítico em sua palestra, e assim ela faz. E aí o cientista social tal, podendo ser um antropólogo ou sociólogo, elogia o trabalho da cineasta, que fez seu nome na elite cinematográfica, na esperança de descolar um ingresso grátis na próxima mostra de cinema numa cidade brasileira.

Por outro lado, um músico de MPB que não consegue vender mais do que 5 mil cópias de seus discos mais recentes, apesar de ser um nome de credibilidade a zelar, pede para um nome do brega-popularesco, geralmente de uma tendência correspondente (o breganejo como forma diluída de música caipira, por exemplo), colocá-lo num dueto no próximo disco desse nome brega-popularesco.

Muitas vezes essa tarefa é organizada por emissoras de TV - Globo, Multishow e, às vezes, MTV - , ou patrocinada por multinacionais (como a Coca-Cola), ou então somente pela indústria fonográfica, que num arranjo de oportunismo publicitário, promove uma falsa MPB através de ídolos neo-bregas com currículo superior a cinco CDs de sucesso.

Em todo caso, a tarefa cobra o preço da popularidade do antigo medalhão da Música Popular Brasileira com uma associação, muitas vezes entre corporativista e clientelista, com um ídolo brega-popularesco veterano, que pode não ter metade do talento do medalhão da MPB, mas possui uma visibilidade três vezes maior.

Há também casos de intelectuais defendendo ídolos bregas esquecidos, atores indo para apresentações de brega-popularesco para cumprir compromissos contratuais, e recentemente uma jovem atriz, talvez desesperada em entrar no primeiro time de atores de TV, está se envolvendo num suposto affair com um ídolo sambrega, com visibilidade suficiente para entrar nos programas da Rede Globo pela porta da frente.

Esse clientelismo derruba de uma vez por todas a visão maniqueísta de que, num lado, existe a "maquiavélica" MPB "elitista", "fechada" para o povo, artisticamente isolada, e, noutro lado, existe a música brega-popularesca, rotulada apenas de "canção popular" ou "sucessos do povo", mas por vezes cinicamente definida como "verdadeira MPB" por conta de plateias lotadas e discos vendidos com muita facilidade.

Mas esse maniqueísmo entre qualidade X quantidade, sofisticação X popularização não existe, e que a "Academia Brasileira de Letras" musical da MPB "elitista", ou "MPB burguesa", atua numa aliança por conveniência com a "casa da Mãe Joana" musical, sobretudo dos chamados medalhões do brega-popularesco que, até pouco tempo atrás, faziam rodízio toda semana no Domingão do Faustão (hoje continuam aparecendo, mas sem a frequência de antes).

Afinal, a aparente comunhão entre músicos talentosos e outros "nem tanto", sobretudo usando a desculpa da "ruptura de preconceitos", ou de intelectuais e celebridades cortejando a mediocridade cultural dominante - lançando mão sobretudo das velhas argumentações "caetânicas" do Tropicalismo, agora através de outras vozes - , tem na verdade um objetivo outro que não é zelar pelo patrimônio cultural do povo pobre.

Até porque, se prestarmos muita atenção, essa recente "cultura popular" constituída do brega-popularesco, de todas as tendências derivadas da música brega, mesmo aquelas aparentemente ligadas a ritmos regionais, nada tem a ver com o povo pobre, e sim com o empresariado que investe nesses tipos de músicas.

A intelectualidade, os artistas, a crítica e as celebridades passaram a apoiar o brega-popularesco visando vantagens pessoais, que depois virão à tona, quando não será possível para eles esconderem o clima de compadrio, de troca de favores e benefícios, nessa nova etapa do jabaculê intelectualizado que pode manchar nossa cultura.

Quase que uma forma tardia das manobras da República Velha (1889-1930) aplicadas à cultura brasileira - que, no entanto, passava sob o desprezo ou a repressão das classes dominantes, há cem anos atrás - , o Clientelismo Cultural Brasileiro não pode ser confundido como uma saudável camaradagem de pessoas unidas por uma mesma causa.

Antes fosse uma forma da intelectualidade, dos músicos e das celebridades, sem saírem de sua posição elitista que lhes confere uma reputação de superioridade, exercerem sua projeção ao grande público, como uma forma de domínio e um meio conservador de manter os parâmetros dominantes de entretenimento reservado para as classes populares.

Muito se escreverá sobre isso, e muitos casos virão para esclarecer os problemas relacionados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...