sexta-feira, 29 de abril de 2011

O CASAMENTO REAL E O MITO DO ESPETÁCULO NO BRASIL



Por Alexandre Figueiredo

Hoje é o dia do casamento real. O príncipe William de Gales e a modelo Catherine Middleton - ou Kate Middleton, como é mais conhecida - tornam-se marido e mulher, e Kate torna-se oficialmente membro da família real britânica.

A cerimônia de hoje tem a óbvia pompa que imaginávamos em casamentos que envolvem a nobreza, e a cobertura jornalística que tem um quê de sensacionalismo chique. O dinheiro a ser gasto, segundo se prevê, é até mais modesto do que os 48 milhões de dólares usados no casamento da princesa Diana (1961-1997) e do príncipe Charles, pais de William. Provavelmente, deve ser por volta de um quarto do valor investido no casamento realizado há trinta anos atrás.

A mídia do espetáculo, que trata o valor das celebridades como mercadoria, em que o indivíduo famoso se torna uma quase divindade moderna, um fetiche, ao mesmo tempo uma coisa e um semi-deus, um moderno velocino de ouro a ser adorado feito um totem inquestionável.

Certamente a badalação é geral na imprensa do mundo inteiro. Mas, no Brasil, em que mesmo "pobres mortais" como Beyoncè, Britney Spears, Lady Gaga e Guns N'Roses, ou mesmo o já falecido Michael Jackson, habitam o Olimpo do imaginário do jovem médio de perfil conservador, são tidos como "divindades indiscutíveis", o casamento real então só faz aumentar a falsa impressão de superioridade do mundo das celebridades.

Nada contra o casal real. William parece simpático, e Kate de fato é muito linda e charmosa. A família real talvez seja uma boa família cômica, uma Família Trapo da não-ficção, mas politicamente ela causa incômodo nos cidadãos britânicos, por conta dos impostos desnecessários cobrados à plebe, para sustentar o luxo e as frivolidades da realeza britânica.

Um dos mais furiosos questionadores da monarquia britânica, o cantor Morrissey - que há 25 anos atrás, com sua então banda The Smiths, lançou o disco The Queen is Dead que, inclusive, tem uma música, "There's a Light That Never Goes Out", que, segundo teorias conspiratórias, teria "previsto" a tragédia de Lady Diana - , avisou que não vai ver a cerimônia.

Aliás, a própria Lady Di, nesse episódio do final de agosto de 1997, foi vítima do próprio sensacionalismo da imprensa, uma vez que o trágico acidente de carro que abreviou a vida da já ex-princesa, aos 36 anos de idade, ocorreu por conta de uma fuga desesperada de um outro carro com papparazzi (fotógrafos de celebridades - expressão tirada do filme La Dolce Vita, que Federico Fellini lançou em 1960), que perseguiu Diana, seu namorado Dodi Al-Fayed e outros dois ocupantes do carro (um deles foi o único sobrevivente da tragédia).

Mas, no Brasil, é assustador que uma boa parcela da juventude se dê a endeusar de forma tão neurótica as celebridades, o "ideal de sucesso e poder", o fetichismo da fama e da riqueza.

Não se pode questionar qualquer um de seus ídolos, mesmo uma Whitney Houston que cometeu tantos excessos. Ou nem mesmo o rock risível e caricato dos Guns N'Roses (quem conhece o rock de grupos como Led Zeppelin, Thin Lizzy e Deep Purple sabe do que estou falando) pode ser questionado sem que haja uma reação de um de seus fanáticos defensores.

São jovens irritados, indignados, que julgam a importância da pessoa pelo aspecto econômico - vendem discos, aparecem em paradas de sucesso, lotam plateias, aparecem em tudo quanto é revista etc - e, portanto, acham que a reputação é "justificada" pela fama.

Antigamente, uma pessoa, para ter sucesso na vida, precisava ter talento. Hoje é o contrário: a pessoa é vista como "talentosa" porque faz sucesso. Hoje é a fama que justifica a suposta reputação, e não mais é o mérito que justifica a fama de alguém.

Fica subentendida uma certa arrogância, que mostra quem é que tem a "superioridade" toda: os chamados "empresários de talentos", ou às vezes os produtores da mídia e os jornalistas da grande imprensa, que estão por trás da mitificação de determinados ídolos. Isso porque muito dinheiro é investido para promover celebridades, e o "ideal" é que fiquemos todos calados para garantir o sucesso financeiro dos ídolos em promoção.

Isso também se refere à confusão que, aqui no Brasil, se tem com qualidade de vida e direito ao consumo. Associando ao sucesso, a confusão se estende atribuindo o valor pessoal à ideia de riqueza e popularidade, que por si só é uma outra confusão. Afinal, ter mais fãs e maior visibilidade não significa necessariamente ter melhores amigos e reconhecimento pessoal digno.

No brega-popularesco, então, nem se fala. Os maiores medalhões do brega-popularesco, como Ivete Sangalo, Alexandre Pires, Zezé Di Camargo & Luciano, Luan Santana, Leonardo (ex-Leandro & Leonardo) e Banda Calypso, entre outros, possuem defensores fanáticos cujo reacionarismo fez desse "fã-clube" virtual ganhar péssima reputação, sendo apelidados pelo músico Lobão de "mini-Bolsonaros".

Num país de crise de valores, como o Brasil, o endeusamento de celebridades, da família real britânica aos ídolos popularescos do nosso país, passando por ícones do hit-parade dos EUA, mostra o quanto há uma juventude conservadora travestida de moderna - manobra garantida pela pouca idade, geralmente abaixo dos 40 anos - que, hoje, pode endeusar uma Lady Gaga, Whitney Houston ou Axl Rose, mas amanhã irá eudeusar o imperialismo político-econômico dos EUA.

É até engraçado que essa molecada também diga gostar de Che Guevara, talvez por um modismo causado pelos grêmios estudantis. Mas a postura pseudo-progressista se dissolve quando esses jovens exaltam o "deus-mercado", endeusam o mundo da fama, reagindo furiosamente a qualquer vírgula que se falar contra seus ídolos.

Esses jovens são vítimas da ideologia do espetáculo. Mas, como adultos, poderão ser os novos comandantes dessa mesma ideologia, quando terão o poder não de reagir com e-mails ou frases do Twitter, mas com tanques e gás lacrimogêneo disparados contra as manifestações sociais.

Aqui então a coisa fica feia. Fulano é "importante" porque lota plateias,

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