segunda-feira, 25 de abril de 2011

O BRASIL POLITICAMENTE CORRETO DE ALI KAMEL



Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, o jornalista Ali Kamel havia perdido um processo contra Paulo Henrique Amorim, que havia questionado o sentido da expressão "Não somos racistas" aproveitada pelo livro do chefe de jornalismo da Rede Globo. Amorim questionou o sentido politicamente correto da expressão, não exatamente duvidando do não-racismo de muitos brasileiros, mas do contraste entre o sentido "absoluto" dessa frase e a dura realidade sofrida pelos negros no Brasil.

Na verdade, a expressão "não somos racistas" é um sintoma de um sentimento politicamente correto, propagado pela grande mídia, de tentar mascarar os problemas negando ou distorcendo posturas assumidas por pessoas reacionárias.

Enquanto reina o mel nas declarações de muitos figurões da grande mídia, ou mesmo de meros internautas escondidos em comentários no Twitter ou aqui no Blogger, eles mesmos escondem seus preconceitos sociais nos porões de seu inconsciente, os mesmos preconceitos que eles supostamente se esforçam em combater no discurso.

Já tive eu mesmo a experiência de ser vítima dessa postura "cidadã" da linha Ali Kamel quando critiquei as musas "popozudas". Houve gente que me chamou de "machista", sem perceber (ou ao menos admitir) que essas "musas" é que expressam uma visão machista da mulher brasileira. Houve quem posasse de pseudo-progressista e falasse até na "liberdade do corpo", fazendo "contracultura" em copo d'água. Não, "não somos machistas", prega esse pessoal cegamente.

Aí temos que ser politicamente corretos. Para não sermos racistas, muitos racistas enrustidos rejeitam a ideia de, por exemplo, dar melhores condições de vida, trabalho, segurança e proteção legal ao povo negro. Reforma agrária para negros e índios que vivem no interior do país, então, essa rapaziada sente o maior horror.

Para essa rapaziada "sem preconceitos", porém mais preconceituosa do que ela poderia admitir em derradeira instância, "não ser racista" é um nerd eleger a Tati Quebra-Barraco como a "mulher de seus sonhos" e achar que o medíocre Alexandre Pires é "o maior gênio da MPB".

Tudo isso, no entanto, não contribui em coisa alguma para superar o racismo. Em nada contribui. É só desculpa para fazer prevalecer o estabelecido pelo establishment da mediocridade cultural, que segue independente de raça, credo e cor.

E olha que temos negras lindíssimas, como Taís Araújo e Sheron Menezzes, e termos grandes artistas negros como Milton Nascimento, além de termos tido o geógrafo Milton Santos, como um dos maiores intelectuais de todos os tempos. E temos muitos negros batalhadores, que com muita dignidade fizeram, fazem e farão grandes contribuições para nossa sociedade.

A História do Brasil mostra muitos e muitos negros geniais, batalhadores, íntegros e admiráveis, de ontem, hoje e amanhã, que nos convidam admiravelmente a esquecer os poucos negros que se servem no circo do mercantilismo popularesco, do neoliberal-populismo da grande mídia da qual Ali Kamel faz parte.

É claro que o carinha que acha Alexandre Pires e Tati Quebra-Barraco "geniais" não tem o menor conhecimento de figuras como a falecida escritora Carolina Maria de Jesus, que em 1960 lançou um livro, Quarto de Despejo, que fala da realidade das favelas, bem antes desse tipo de residência entrar na agenda da juventude politicamente correta de classe média.

Por outro lado, o carinha também despreza um mestre da voz e do talento chamado Agostinho dos Santos, que não bastasse suas virtudes ajudou outro citado mestre, o citado Milton Nascimento, no começo de sua carreira. E Milton já surpreendeu a todos com seu magistral álbum de estreia, em 1967, Travessia, de rica poesia humanística e belos arranjos e melodias.

Mas a questão não é apenas o racismo desses politicamente corretos. Os fascistinhas de e-mail, tão afeitos em mascarar seu fascismo de bermudas com um discurso que lhes dê a falsa impressão de que eles é que "são socialmente conscientizados", também manobram seu discurso diante de temas como machismo, elitismo e outros preconceitos.

Eles desconhecem o Living Theatre, os Dzi-Croquettes, o teatro de Zé Celso Martinez Correia, a Semana de Arte Moderna de 1922, mas acham que o espetáculo oco das "popozudas" - sejam paniquetes, mulheres-frutas, dançarinas de "pagodão" ou "independentes" como Solange Gomes - é expressão da "liberdade do corpo". Fazem "contracultura" num copo d'água, quando mais parecem neo-macartistas brincando de Contracultura dos anos 60.

Eles nunca leram o Pif-Paf, nem o Pasquim, nem a imprensa marginal, nem os fanzines dos anos 80, mas acham que o popularesco jornal Meia-Hora é "parecido" com o Pasquim, num total senso de desinformação. Da mesma forma, nunca leram a Última Hora no seu período áureo sob a batuta de Samuel Wainer e no entanto criam uma analogia fictícia e equivocada entre o sangrento Notícias Populares e o antigo jornal de cunho nacionalista-popular.

Eles nunca ouviram falar de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Ronald de Carvalho, Anita Malfatti, Patrícia Galvão, Manuel Bandeira e outros, mas tentam falar do "funk carioca" e do tecnobrega como se eles fossem supostas extensões da Semana de Arte Moderna de 1922, num claro, gravíssimo e constrangedor exemplo de desinformação histórica.

Para essa patota alimentada pelo Brasil midiático e politicamente correto, esboçado por Ali Kamel, Otávio Frias Filho, os irmãos Marinho, Diogo Mainardi, os tecnocratas tucanos da USP, entre outros artífices e ideólogos, "todos somos tudo de bom" dentro do contexto politicamente correto que faz muita gente ser "sofredora" e "altruísta" e entrar nas fileiras dos verdadeiros excluídos e vanguardistas como qualquer legítimo fura-filas.

Dessa forma, a frase "não somos racistas" não é discutível porque o racismo é bom. Pelo contrário, o racismo é terrível de tão ruim, é um crime e é um ato abominável, pela sua natureza.

O problema é que a frase do livro de Ali Kamel mascara os problemas raciais ainda existentes, além de ocultar o racismo que esconde por trás daqueles que acham que Alexandre Pires, Tati Quebra-Barraco, Parangolé e Psirico são "geniais", mas nunca ouviram e nem querem ouvir falar de Carolina Maria de Jesus, Agostinho dos Santos, Jorge Veiga, Milton Santos, Cruz e Souza e outros.

Assim, também se distorcem conceitos feministas que acobertam valores machistas. Usurpam-se conceitos vagos que apenas lembram referências culturais nobres de outrora, que só servem para reafirmar arremedos grotescos e caricatos na mediocridade musical de hoje. Defende-se uma "cidadania" que não passa de um receituário moralista risível de tão inócuo. Enfim, são outras hipocrisias expressas sob a capa de "ser tudo de bom".

É o que mostra o quanto na Internet reina essa mentalidade golpista enrustida, vinda de pessoas que parecem jovens e modernas. Pessoas que lembram hoje o que um Cabo Anselmo era outrora, ou que um José Serra e Ali Kamel, para não dizer, em casos extremos, um Jair Bolsonaro, são hoje em dia.

É preciso mascarar esse reacionarismo travestido de "tudo de bom". Gente "sem preconceitos" que, num momento ou em outro, mostram preconceitos muito piores do que aqueles que dizem abominar.

É um pessoal capaz de chamar eu e você, leitor, de "preconceituosos", "elitistas", "moralistas", "burguesinhos" e "playboys", se achando a expressão máxima da "conscientização social" no país, mas no primeiro impulso mostra seus sentimentos podres, anti-sociais, retrógrados e restritivos. E que tal "conscientização social" não passa de um artifício para que esses verdadeiros burguesinhos mantenham as classes populares, com seus negros, seus índios e suas feministas, afastadas de qualquer raio de proximidade deles.

É como se eles quisessem "falar bem" das classes populares para que elas se mantenham longe do "território" deles e não os incomodem nos seus privilégios elitistas expressos no alto de seus condomínios de luxo.

É essa a manobra das elites conservadoras em parecerem "certinhas". Para que o povo não se volte contra eles, que eles possam expressar seus preconceitos de classe na "mais completa paz".

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