sábado, 9 de abril de 2011

NÃO SE FAZ PGT COM BREGA-POPULARESCO


HÁ QUEM ACREDITE QUE ESSE CERTIFICADO POSSA CONVERTER A MÚSICA BREGA NUMA "AUTÊNTICA MPB".

Por Alexandre Figueiredo

Numa situação em que o brega-popularesco, em seu derradeiro desespero, "compra" a MPB e a intelectualidade a ponto de um sambista autêntico, Diogo Nogueira, gravar Alexandre Pires e uma cantora emergente, Tiê, gravar Calcinha Preta, ou de uma atriz usar um affair com um cantor de sambrega para obter mais visibilidade, a indústria cultural tenta também "melhorar" a Música de Cabresto Brasileira, tornando-a "melhor produzida".

Não, não se trata de música de qualidade. Mas de arranjos mais arrumados, apresentações melhor produzidas, melhor figurino, melhor tecnologia, instrumentos mais caros, muita iluminação, além de um apoio "esperto" de uma intelectualidade que, em vez de questionar seus mecanismos, o aplaude passivamente, com a passividade bovina de focas de circo diante de vacas sagradas.

Mas, passando pelas rádios FM de "sucessos do povão", nota-se que essa "qualidade" não significa que, de repente, aquela geração de sambregas e breganejos de 1989-1992 ou de axézeiros e forrozeiros-bregas de 1997-2002 passaram a "fazer MPB".

Muito pelo contrário, numa audição mais atenta, eles tornaram-se até musicalmente mais confusos. Perseguem covers de MPB como caçadores de passarinhos mirando tais aves, e não bastassem as regravações oportunistas, os duetos tendenciosos, agora é a vez dos próprios ídolos da Música de Cabresto Brasileira empurrarem seu repertório para emergentes da MPB.

A tentativa de "gororobizar" a MPB, convertendo o clima "Academia Brasileira de Letras" de seus medalhões para um ambiente "Casa da Mãe Joana", tornou-se ainda mais radical, através dos investimentos empresariais de grande porte, que a cada dia tentam arrumar os ídolos brega-popularescos para que eles pareçam "artistas sérios". Sem sê-los, naturalmente, mas adaptando-os para certos macetes.

"TRAINÉE" MUSICAL

Como se isso fosse ajudar alguma coisa no aperfeiçoamento da cultura popular - o que, na verdade, não acontece - , os medalhões do "pagode romântico", "sertanejo" e axé-music, entre outros estilos da Música de Cabresto Brasileira, agora tentam "evoluções" artísticas que os fazem, aparentemente, próximos à ala dominante da MPB autêntica.

Alguns exemplos:

1) Grupos e cantores de "pagode romântico" que antes se limitavam entre uma imitação barata do soul norte-americano com instrumentos de samba, ou limitar-se a reproduzir as lições "sambistas" de Sullivan & Massadas através de Alcione, passaram agora a fazer imitações de Djavan e Jorge Benjor, ou de Zeca Pagodinho e Jorge Aragão.

2) Grupos e cantores de "sertanejo", que faziam algo como um estilo de Waldick Soriano ou de Odair José mais caipiras, passaram a fazer música com orquestra, contratando arranjadores de ponta, principalmente a geração dita "universitária". Geralmente passaram a fazer um country mais lento com vocais "mais regionais".

Fora as apropriações oportunistas dos intérpretes de axé-music, ou da campanha "tropicalista" em prol dos "polêmicos" ídolos do "funk carioca", forró-brega e tecnobrega, o que se vê é a aplicação, tão somente, de técnicas de Teoria Organizacional (um dos ramos da Administração), na música brasileira, inspirados em paradigmas como Programa de Qualidade Total (PGT) e certificado Iso 9001.

Treina-se o cantor de sambrega para ele fazer um som "igualzinho ao Benjor", e ele, em pleno auge de carreira, é adestrado como se fosse um cantor iniciante de programas como Ídolos. O mesmo ocorre com o breganejo, axé e outros estilos.

Ele é "sugerido" a incluir covers de MPB, faz discos ao vivo um atrás do outro para testar mudanças, e é colocado em duetos tendenciosos para tentar uma associação aos cantores participantes.

A FARSA COMO RESULTADO

O resultado disso tudo torna-se uma farsa. Tudo parece à primeira vista bonitinho, o ídolo brega-popularesco dos antigos e risíveis sucessos parece um "grande nome da MPB", seus discos agora são superproduzidos, tudo bonitinho, ele vai para um evento de MPB autêntica e as famílias abastadas se comovem, a crítica aplaude, e por aí vai.

Só que o "trabalho" desse "artista" não deixa de ser burocrático nem artificial. E nem o fato dele gravar mais covers da MPB, sobretudo as do "tempo da vovó" - seja um samba dos anos 1950 ou uma música caipira dos anos 1930 - o faz mais espontâneo nem mais sábio.

Em vez disso, o "artista", por mais que esteja fazendo o dever de aula com relativa eficácia, só consegue se nivelar a um calouro de televisão, da linha do programa Ídolos, ou um crooner de luxo que apenas expressa algum profissionalismo.

Não é sua performance mais "correta" ou "bonita" que o fará mais criativo, nem mais competente, nem mais artista. Até porque, se observarmos os bastidores, é muito fácil um breganejo gravar clássicos do Clube da Esquina, ou um sambrega "lembrar Benjor", até criando um repertório autoral "correto". Isso porque há por trás dessa "atitude espontânea" a orientação de produtores e arranjadores.

No fundo, é apenas uma forma de tornar o produto da música brega-popularesca mais "palatável". Oferecer os "sucessos do povão" de vinte anos atrás para plateias tidas como "exigentes", dentro das normas da estratégia organizacional e de qualidade total da teoria administrativa.

Tudo fica mais "perfeito", mais "bonito", mais "certinho", mas nada fará com que esses ídolos se tornem "mais artistas", "mais espontâneos", "mais MPB". Eles apenas se tornam produtos "melhor acabados", para garantir o consumo de novas plateias.

Mas, francamente, isso não é arte nem cultura.

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