domingo, 17 de abril de 2011

MASSACRE DE ELDORADO DOS CARAJÁS COMPLETA 15 ANOS



Por Alexandre Figueiredo

Há 15 anos, o massacre de 19 trabalhadores rurais de Eldorado dos Carajás por policiais da região chocou a opinião pública e chamou a atenção das organizações de direitos humanos do Brasil e do mundo por sua gravidade e pela grande ameaça de impunidade a seus responsáveis diretos e indiretos.

A intelectualidade etnocêntrica, acomodada em seus "modestos" apartamentos de luxo, acredita no mito dos "dois Parás". Um, o Pará político, sangrento, violento, problemático. Outro, o Pará do entretenimento, a "Disneylândia" brega, quase paradisíaca, da "ditabranda do mau gosto" de uma alegria fictícia de tão exagerada.

Mas esse Pará-paraíso é fictício, e sabemos muito bem que essa imagem adocicada do Pará, expressa por embustes do brega-popularesco como o forró-brega (cada vez mais rejeitado pelos mais renomados intelectuais da região, para desespero daqueles que pensavam que rejeição era "preconceito"), Banda Calypso e pelo tecnobrega, simplesmente não existe.

As lutas sociais são coisa séria, nada a ver com jovens hipnotizados pelo entretenimento cafona, pela "piada que se leva a sério demais" do brega - já que rir dos bregas é "desaconselhável" - , que vão que nem gado para os galpões suburbanos para consumir o sucesso que é determinado pelos programadores de rádio por "indicação" dos barões do entretenimento local.

Lutas sociais são coisa séria, e sabemos que essa cafonice que beira à tolice mais explícita - o que causa cada vez mais irritação e indignação da intelectualidade local, a despeito do deslumbramento da intelectualidade "de fora" - só faz esconder todo o sacrifício e trabalho das classes populares, que estão longe de serem os "adoráveis" bobos-alegres do circo midiático.


PARA A MÍDIA GOLPISTA, OS TRABALHADORES SEM-TERRA É QUE QUERIAM MATAR OS POLICIAIS.

E, por mais que certos cientistas sociais caiam no conto de que a cafonice simboliza "movimentos sociais", eles comungam com a visão da grande mídia golpista de que o povo só é "bom" quando expressa sua "doce e adorável ignorância" através do entretenimento cafona.

Para essas elites - e aqui não existe diferença alguma entre Pedro Alexandre Sanches e Ali Kamel - , o povo é "melhor" quando fica na sua "doce miséria", com seus sorrisos desdentados, dançando feito animaizinhos domésticos, expressando sua "burrice" que os discursos politicamente corretos atribuem a um tipo de "inteligência" que nós "não compreendemos".

Um povo que "consegue se safar" sem ter qualidade de vida. Mito hipócrita, que numa observação mais cuidadosa, poderia colocar muito cientista social no mesmo banco dos réus de Jair Bolsonaro. Afinal, para as elites, o povo é "bom" quando se diverte feito criança pequena no entretenimento cafona. "Feliz" sem ter qualidade de vida, "autossuficiente" nas suas limitações.

Aí o povo é "cidadão", "artista", é "inteligente" na sua ignorância que temos que acreditar que é uma "sabedoria que nós não compreendemos". Mas, se o povo faz passeatas para lutar pelos seus direitos, essa mesma elite "generosa" e "solidária" os chama de "desordeiros", "bagunceiros", "criminosos".

Pois Eldorado dos Carajás faz 15 anos e até hoje as famílias dos 19 mortos e vários feridos sofrem muito com o episódio. Quantos sonos são perdidos, quantas angústias, e o quanto essas famílias tiveram que recorrer sem o sustento de seus entes, dizimados a queima-roupa por policiais insensíveis, a mando de um fazendeiro da região!

Pois a mídia golpista, defensora das classes dominantes, tentou dar uma "outra versão" para o episódio. Eu mesmo pude ver no Jornal Nacional, o quanto o principal telejornal da Rede Globo tentou distorcer o fato.

Segundo o JN, e certamente o resto da mídia golpista, os trabalhadores rurais de Eldorado dos Carajás foram mortos porque "ameaçaram" os policiais com pás, enxadas e facões. A edição das imagens tentava transformar os agricultores em "monstros", e o discurso então tentava dar a impressão de que os policiais agiram "em legítima defesa".

Ora, os agricultores estavam lá para trabalhar. Aquelas "armas" não eram senão instrumentos de trabalho. Se eles protestavam, era de forma pacífica, contra a opressão do latifúndio, esta sim historicamente sangrenta e ameaçadora.

Afinal, vemos o quanto muitos latifundiários aumentam seus lotes de terra, enquanto na corrida tecnológica são capazes de despedir do emprego centenas de trabalhadores, bastando para isso uma rápida ação burocrática. Proprietários de terras que aumentam seus territórios, exercem seu poder político nos municípios próximos, promovem a miséria do povo pobre, manipulam a máquina política e eleitoral e, nos últimos anos, investem também no saudável entretenimento que intelectuais "sem preconceito" (mas com muito mais preconceito social do que, se admitissem, imaginariam ter) atribuem à "autossuficiente cultura das periferias".

O povo não pode ter reforma agrária, não pode se manifestar contra o poder do latifúndio. Além disso, o entretenimento brega, neo-brega, tecnobrega ou o que vier, com seus pseudo-ritmos que se apropriam de nomes como "carimbó", "palomba", "quizomba" etc, manipula os desejos e vontades da juventude pobre, transforma-a em caricatura de si mesma, para que as classes populares, adocicadas pela mídia, sejam isoladas dos agricultores e operários que pedem o fim do poder latifundiário.

Fica fácil reprimir os movimentos sociais pelo entretenimento. Se, por um lado, policiais metralham 19 inocentes trabalhadores, por outro a mídia financiada pelo latifúndio hipnotiza o povo pobre e o obriga a dizer: "Não vou, não, quero, não, posso, não, meu patrão não deixa não". Isso é movimento social? Nem em sonhos!

Por isso vamos respeitar a memória dos agricultores de Eldorado dos Carajás, cujo silêncio diz muito para nós. Porque é este silêncio que expressa o poderio coronelista, a politicagem, as desigualdades sociais. E vamos nos solidarizar com as entidades sociais que pedem reforma agrária e melhorias de vida para a população pobre, como Educação, Saúde, melhores salários, melhores condições de vida.

Vamos defender a justiça social, por mais que os poderosos sejam contra.

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