sexta-feira, 1 de abril de 2011

GOLPE MILITAR E CULTURA BRASILEIRA


WALDICK SORIANO REPRESENTOU, SIM, O TIPO DE CULTURA DEFENDIDO PELO REGIME MILITAR.

Por Alexandre Figueiredo

A ideia de que a música brega foi reprimida pela ditadura militar é tão falsa quanto a censura aos jornalões da grande imprensa.

Da mesma forma que a Folha de São Paulo e a TV Bandeirantes (cujo atual dono é neto de Adhemar de Barros, cuja esposa organizou a Marcha Deus e Liberdade no Vale do Anhangabaú, o maior protesto anti-Jango que impulsionou o golpe de 1964) tentaram passar uma imagem falsa de anti-ditadura, se apressando pelo apoio oportunista às campanhas de redemocratização, a música cafona tentou trabalhar a imagem de que "combatia" o regime militar.

Casos episódicos de censura não significam necessariamente que o censurado seja um cavaleiro da redemocratização ou um paladino da luta contra o regime militar. Não havia maniqueísmo no regime militar, em que, de um lado, haviam os generais e seus subordinados, no outro a sociedade brasileira.

Havia diversas forças sociais, de interesses dos mais diversos, e entre os censores, havia desde gente um pouquinho mais generosa até mesmo gente cheia de chiliques. Muito do material censurado era, na verdade, inofensivo, mas tido pela paranóia moralista como "subversivo" muitas vezes por conta de má interpretação do conteúdo.

Foi isso que Sérgio Porto, sabiamente, quis dizer, quando no primeiro livro da série FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País - , sob o codinome Stanislaw Ponte Preta, escreveu que o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) queria prender o autor grego Sófocles, acusado de "subversão", mesmo muitos séculos depois dele ter falecido.

Só que veio um sinistro Paulo César Araújo com aquele discurso enganador, tentando moldar uma imagem ao mesmo tempo heróica e adocicada dos ídolos cafonas, e o escritor se transformou logo na "vaca sagrada" da intelectualidade brasileira, mesmo ridicularizando a verdadeira cultura popular, mas evitando falar mal de José Ramos Tinhorão.

Tinhorão certamente reprovaria a música brega, apesar das indagações de PC Araújo de uma suposta indiferença do historiador da música brasileira quanto à pretensa "força popular" dos ídolos cafonas.

Afinal, Tinhorão é conhecido por uma postura muito dura quanto às influências estrangeiras na música brasileira. E, verificando que a música brega de Waldick, Odair José e quejandos é, na prática, a aplicação literal do projeto econômico do Ministro do Planejamento Roberto Campos na música brasileira, Tinhorão não veria outra coisa nos ídolos cafonas senão pálidos arremedos de boleros, country music e rock (sobretudo de segunda mão, através da Itália).

VISÃO OFICIAL DE "CULTURA POPULAR" FOI CRIADA EM 1974

Aliás, a relação entre a ditadura militar e a cultura brasileira se deu aos poucos. A cultura não foi reprimida nem deturpada em larga escala em 1964, foi preciso o AI-5 e o "milagre brasileiro" acontecerem para o regime militar criar o seu padrão de "cultura popular".

Da fato, o regime militar ainda estava para definir sua estratégia de dominação do povo. Até 1968, ainda era forte a influência da geração de músicos brasileiros lançados no pré-1964. E tinha o aparato de "democracia" que tentava criar uma falsa impressão de normalidade.

A formatação do padrão conservador de "cultura popular" segue a lógica já trabalhada pelo latifúndio. O coronelismo midiático que formatou os referenciais que deram nos primórdios da música brega hoje encontra-se no auge através do "cartel" do "forró eletrônico".

Essa formatação da "cultura popular" pelo latifúndio se deu já por volta de 1958, quando os grandes proprietários de terras e senhores da "inocente" mídia regional do interior do país e mesmo de capitais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, temendo os avanços das Ligas Camponesas, criaram um padrão de "entretenimento e cultura" que deveria estar associado ao povo pobre através de uma campanha maciça pela mídia dominante.

É até de dar pena que essa campanha se "evoluiu" para dizer que esse tipo de "cultura popular", que sempre esteve em alta na grande mídia, "nunca apareceu em qualquer veículo da grande mídia de nosso país". É tanta cara-de-pau que nenhum verniz consegue lustrar.

Pois esse padrão de "cultura popular" que muitos acreditam ser "genuíno" - não é preciso dizer que é uma intelectualidade movida a TV aberta que prega tal ideia - na verdade foi uma visão de povo pobre construída pelo coronelismo midiático e pelas elites do entretenimento, com apoio até das mesmas multinacionais que financiaram o IPES,.

TROPICALISMO E CAFONAS

Talvez um movimento cultural espontâneo, porém paralelo e independente da herança cepecista-bossanovista, com toda sua boa-fé em relação à indústria cultural, tivesse, mesmo sem querer, sido útil para as manobras do regime militar no âmbito da padronização cultural.

O Tropicalismo, em si, tem até um grande valor artístico, e, até certo ponto, entrou em sintonia com a influência da Contracultura do resto do mundo. Mas o movimento afirmava-se apolítico - talvez os mais próximos do engajamento político tenham sido Tom Zé e o falecido Torquato Neto - , apesar da associação com o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha.

Portanto, a rebeldia tropicalista nunca foi além do comportamental. Pelo contrário, ela foi superestimada por coincidir com o contexto de revolta da época, sobretudo estudantil. E, por isso mesmo, a ditadura militar tenha entendido mal o Tropicalismo.

Segundo José Ramos Tinhorão, autor acima citado, o Tropicalismo foi mal interpretado, porque segundo ele o movimento estava de acordo com os propósitos do regime. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos, mas o próprio regime viu nisso um engano, e só deixou os dois cantores "de molho" porque seus cabelos foram cortados, e seria um péssimo marketing dois músicos cabeludos reaparecerem com corte de recos.

Na volta do exílio, Caetano Veloso e Gilberto Gil passaram a formatar o establishment da música brasileira. Permitia-se que a geleia geral, que compreendia todas as manifestações culturais existentes no Brasil, mais a chamada "cultura de massa" nacional, convivessem numa aparente harmonia. Mas o direitismo de Caetano - e também de Roberto Carlos, ídolo cortejado pelos tropicalistas - aos poucos estaria à tona.

MODERNA CULTURA DE CABRESTO

Foi em 1974 que se consolidou toda aquela "cafonização" cultural que já havia começado no interior do Brasil sob o patrocínio do latifúndio.

A música medíocre, ora melosa, ora grotesca, a imprensa de jornais policialescos e revistas fofoqueiras, a programação imbecilizada da TV aberta, as rádios FM "do povão", o Aemão populista e grosseiro, o humorismo de piadas maliciosas, tudo isso criou para o povo pobre um estereótipo pior do que os cinemanovistas dos anos 60 atribuíram à visão das classes populares pelas chanchadas.

Até os ritmos regionais deixados de lado pelas primeiras tendências bregas, voltaram depois à tona - através do êxito do "sambão-jóia", diluição brega do sambalanço - de uma maneira diluída e superficial, apenas como forma de afirmação regional de suas cidades de origem, atendendo a políticas de turismo dos governadores e prefeitos que respaldavam o regime militar (até porque eram nomeados pelo regime).

A linhagem da música brega dos anos 60 e 70 depois se efetivou com o aproveitamento de normas diluídas da "MPB burguesa", a fase de intenso comercialismo que atingiu o mainstream da MPB entre 1979 e 1988.

Fundindo o brega com a "MPB burguesa", com o claro apoio de um Caetano Veloso mais à direita, surgiram as gerações mais recentes da suposta "música popular" - que representam tendências como "sertanejo", axé-music, "pagode romântico", "funk carioca", "forró eletrônico" e outros - , apoiados por um sistema de valores transmitido pela TV aberta, pelas FMs "do povão" e pelas classes dominantes que controlam o entretenimento em nosso país.

Portanto, não há como dizer que essa "cultura popular" é democrática e autêntica se ela foi claramente formatada pelas elites dominantes durante o regime militar. Por isso ela em nada contribui para a verdadeira emancipação das classes populares.

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