domingo, 3 de abril de 2011

CULTURA POPULAR PODE MODERNIZAR-SE, MAS NÃO DA FORMA QUE SE DEU


ISSO NÃO É PÊSSEGO CAÍDO DIRETO DA ÁRVORE.

Por Alexandre Figueiredo

A cultura popular pode se modernizar. Mas não da forma que aconteceu. Não podemos achar que, num país onde o entretenimento, governado pelo "deus mercado", é regido pelas relações de poder envolvidas, a cultura popular flua naturalmente como a fauna e flora do campo.

Infelizmente, temos a hegemonia do brega-popularesco que tirou a verdadeira cultura do povo pobre de suas mãos. O brega-popularesco é uma "cultura popular" de mercado, baseada numa "ditabranda" do mau gosto, que serve para domesticar o povo pobre e diminuir a incidência de movimentos sociais.

A lógica é igualzinha ao neoliberalismo. Quem ouve as rádios "do povão" sabe que os ideais neoliberais são seu combustível, mascarado por um populismo hipócrita e claramente domesticador.

É a mesma linha de montagem, com direito a aplicações das lições do fordismo e do toyotismo que "aperfeiçoam" o produto da mediocridade cultural, tornando-o "apresentável" para as classes mais abastadas.

No entanto, a intelectualidade mais influente, no Brasil, ainda tenta evocar o velho discurso "artesanal", aliado a uma utopia de "mundialização". Ou seja, é discurseira atrás de discurseira, que mais parece propaganda de produto industrializado, anunciado como se fosse "a natureza perto de sua casa".

A INVOLUÇÃO CULTURAL

A cultura é um processo vivo e transformador. Isso é consenso. Só que o grande problema é que a verdadeira cultura popular, que era hegemônica até 1964, deu lugar a uma forma industrializada, "geneticamente" modificada pelo sistema radiofônico e televisivo dominantes, que moldaram um tipo de "povo pobre" que, sabemos, é caricato, estereotipado, apátrida e socialmente conformista.

A "ditabranda" do mau gosto torna-se, assim, um processo claramente capitalista. Não vamos nos ater em detalhes, mas cria-se linhas de montagem para essa "cultura popular" depois que os primórdios do brega, através dos primeiros ídolos "cafonas", fizeram o povo se esquecer das raízes culturais, através de formas caricatas de boleros, valsas e country.

Nos anos 70, por interesses de afirmação nacional do regime militar e, da mesma forma, de afirmação turístico-econômica dos governos estaduais na época, começaram-se a criar arremedos de ritmos regionais, diluindo ritmos dos mais diversos, seja o samba-de-roda, o samba de gafieira, a música caipira, o carimbó, o marcha-rancho, entre outros.

Tudo isso resultou numa linha de montagem de ídolos "engraçadinhos", mal vestidos, pouco talentosos, visualmente risíveis, mas que hoje são vistos como "artistas sérios" até demais. Porque, no auge do politicamente correto aliado à "cultura trash", nos últimos anos, a visão elitista de nossos intelectuais, ou mesmo de parte de muitos jovens, tenta creditar o brega-popularesco como se fosse "natural expressão das periferias".

Daí que falam que isso é a "modernização" da cultura popular, como se isso pudesse nos tranquilizar com a nossa "estranheza" com os "sucessos do povão".

Só que está na cara que isso não é de forma alguma a modernização da cultura popular.

Primeiro, porque a cultura popular autêntica foi esquecida pelo mainstream, e o que está aí são apenas arremedos, diluições, caricaturas.

Segundo, a modernização de uma manifestação cultural autêntica não se dá numa linha de montagem ditada pela indústria - mesmo as "pequenas" gravadoras regionais, que trabalham o mesmo método mercantil das grandes gravadoras - nem através de sucessos radiofônicos por si só, mas através de um instinto de pesquisa por parte do músico.

Terceiro, essa "modernização" não se dá pela natural pesquisa artístico-cultural das comunidades, mas pelo tendenciosismo modista dos executivos do entretenimento. Não se pode confundir uma coisa com outra, mas é o que se faz, com frequência assustadora e quase sem oposição.

Misturam-se alhos com bugalhos, mas a verdade é que, se um DJ de "funk carioca", ou um membro de "aparelhagens" ou um "descobridor" (ou dono?) de forró-brega querem se equiparar a um ativista cultural como Chico Science, só morrendo em acidente de carro. Parece um comentário muito cruel, mas é a única coisa que pode uni-los ao cantor pernambucano.

Não há pesquisa cultural alguma no brega-popularesco. O que há é um tipo de som puxado por um modismo, que muda tendenciosamente. Ou o ídolo se torna veterano, e, por isso, tenta "sofisticar-se" para parecer "musicalmente mais sério", ou simplesmente se adiciona mercadologicamente um novo elemento artístico, para puxar outro modismo.

Por isso a música brasileira não se modernizou como deveria ser naturalmente. A Música de Cabresto Brasileira - definida eufemisticamente como "sucessos do povão" - em nenhum momento representa essa modernização, até porque nota-se claramente que é a "cultura do atraso", a "ditabranda" de mau gosto que a intelectualidade etnocêntrica tenta defender como "cultura séria".

Por isso, seria melhor que voltássemos para a música brasileira de raiz, para a MPB dos festivais da canção e para a música do povo pobre do pré-1964, mas que possamos ver o caminho que perdemos devido ao brega-popularesco e depois seguirmos adiante.

A cultura popular de verdade ainda está no atoleiro.

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