segunda-feira, 18 de abril de 2011

A "CULTURA POPULAR" DE FHC



Por Alexandre Figueiredo

Anos atrás, grupos de cantores e dançarinos apareciam para falar com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, como protesto contra o comércio pirata de CDs. Tinha desde cantores de MPB e Rock Brasil contratados pelas grandes gravadoras - que, independente de concordarem ou não com a pirataria, iam lá a contragosto - até ídolos do brega-popularesco ansiosos de forjar algum heroísmo com tal atitude.

Até as então dançarinas do É O Tchan (*), Scheila Carvalho e Sheila Mello, apareceram para falar com FHC. Mas tudo numa encenação oportunista, já que foi a pirataria que fez crescer a Música de Cabresto Brasileira, em detrimento da MPB autêntica que se torna refém do império brega-popularesco para não desaparecer da memória do povo brasileiro.

Apesar de serem fatos recentes, ao longo de 10, 12 ou 14 anos atrás, as fotos da Internet são dificílimas de encontrar. Os barões do entretenimento popularesco, que tão felizes estavam com a máquina político-cultural de Fernando Henrique Cardoso e do "painho" Antônio Carlos Magalhães - que com a concessão de FMs e TVs abertas nos anos 80 praticamente formatou a "cultura popular" dos ditos "sucessos do povão" que domesticam as classes populares - , hoje tentam fugir da associação como o diabo foge da cruz. Na melhor das hipóteses, se silenciam a essa associação.

Mas transformar as classes populares numa massa domesticada, conformista e dotada de uma aparente felicidade que nem as elites conseguem expressar, é um processo sutil de controle social que poucos conseguem compreender.

A música brega e todos os seus derivados - até mesmo os "modernos" axé-music e "funk carioca" - é o símbolo dessa domesticação, junto com a imprensa jagunça, os programas policialescos de TV, a imprensa de celebridades etc.

É estarrecedor que poucos se deem conta disso. Acham que o brega-popularesco é a "saudável cultura das periferias", o que mostra que não só essa pseudo-cultura tenta prevalecer, indo além das políticas direitistas que a sustentaram desde os primórdios da idolatria cafona, mas a própria visão de "povo" de Fernando Henrique Cardoso é compartilhada, sem querer, por muitos internautas, intelectuais, jornalistas, músicos e celebridades.

ATÉ O É O TCHAN (*) FOI FENÔMENO DA ERA FHC

Sim, Fernando Henrique Cardoso é o Justo Veríssimo politicamente correto, aludindo ao personagem de Chico Anysio famoso por desprezar as classes pobres. E a intelectualidade etnocêntrica e seus adeptos, que reclamam para a gente "perder o preconceito" com o que eles entendem como "cultura popular", são a versão politicamente correta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em outros tempos os faziam muito felizes.

É só ver que todos os estilos brega-popularescos, mesmo aqueles estilos e ídolos estimulados pelo mercado midiático sustentador do regime militar e dos governos Sarney e Collor, foram efetivados pelo mainstream midiático que apoiava explicitamente o governo de Fernando Henrique.

Até mesmo um escritor como Paulo César Araújo surgiu das profundezas do apagão da Era FHC, como uma das vozes que o "sistema" arranjou, através da editora Record (já alinhada para a direita), para manter os mecanismos de controle social, a exemplo do que ocorreu com a crise do Petróleo em 1973-1974, que fez a mídia conservadora formatar a "cultura popular" relembrada tendenciosamente por PC Araújo.

A "ditabranda do mau gosto", baseada na mesma ladainha de "romper o preconceito", ou de dizer que o "mau gosto apavora as elites intelectualizadas", entre outras lorotas e meias-verdades, teve que se impor como "a verdadeira (sic) cultura popular" para evitar que a população saia do controle midiático e vá para as ruas pedindo reforma agrária, redução das jornadas de trabalho e melhor qualidade de vida.

Vale lembrar que melhor qualidade de vida não significa jogar a população da favela num shopping center, para dentro das butiques ou nas mesas de lanchonetes de fast food, acreditando que a inclusão social exclusiva e necessariamente passa pela inclusão no mercado do consumo.

VISÃO ELITISTA

Por isso é hipócrita que essa visão que se tem do povo pobre, baseada naquela abordagem paternalista da mídia popularesca, seja tida como "autenticamente solidária e realista". Já tive problemas com a direita dente-de-leite, que numa inversão de discurso queria que sua visão preconceituosa sobre as classes populares seja tida como "sem preconceitos".

Muitos reacionários e conservadores, sob a máscara da causa pseudo-progressista, também apelaram para isso. Nem precisamos dizer mais sobre Eugênio Arantes Raggi, Pedro Alexandre Sanches ou Patrícia Pillar, que achavam que defender o establishment brega ou neo-brega seria zelar pelo folclore brasileiro. Só que sua visão de "folclore" e "patrimônio cultural do povo brasileiro" é tão equivocada quanto a visão de democracia de um Merval Pereira ou de um Caio Blinder, por exemplo.

Essa visão elitista foi favorecida pelo modismo do politicamente correto, que nos EUA marcou a Era Ronald Reagan - o conservador ator-presidente do Partido Republicano - e que foi introduzida no Brasil no final dos anos 90.

Com isso, verdadeiras traduções "folclóricas" de Jair Bolsonaro, Fernando Henrique Cardoso ou Golbery do Couto e Silva (para não dizer os Mainardis, Mervais, Frias e outros "intelectuais") vestiram a máscara de "defensores do povo", "solidários estudiosos da cultura popular". Com um discurso que os fez virarem queridinhos da intelectualidade, numa só tacada.

Afinal, são "filhotes" ideológicos de um Caetano Veloso já acomodado com o status quo, depois que voltou de Londres, em 1972. O mesmo Caetano que enfeitou o pós-tropicalismo de asas tucanas. Mas seus "filhotes" queriam viver sem sua "ave-mãe", tentando fugir de FHC, ACM, PSDB, FSP e outras siglas.

Claro, mais uma vez a memória curta, de um lado, e o politicamente correto, de outro, fazem com que a visão tucano-pefelista de "cultura popular", consagrada por definitivo no governo FHC, seja defendida como se nada tivesse a ver com o contexto político que a beneficiou.

São intelectuais e internautas, celebridades e músicos, entre outros simpatizantes da "causa" brega-popularesca - não só da música, mas das "musas popozudas", da imprensa policialesca, das fofocas exageradas, das piadas de duplo sentido e outros elementos do imaginário supostamente "popular" - , convivem direta ou indiretamente com empregadas domésticas, porteiros de edifícios, feirantes, e acham que sua visão etnocêntrica é feita para agradá-los.

Só que, por trás disso, há o protecionismo de uma classe média alta que usurpou o antigo patrimônio cultural brasileiro. Tirou do povo pobre seus sambas, em troca de uma caricata soul musictocada por pandeiro e cavaquinho. Tirou do povo pobre seus baiões poderosos, em troca de um engodo "forrozeiro" que mistura disco music, country e ritmos caribenhos de forma bastante diluída. E tenta desviar as atenções das classes trabalhadoras por trivialidades, baixarias e alienação.

E o reacionarismo desses defensores ainda agride: nós questionamos a visão elitista deles, e eles é que nos acusam, com irritabilidade evidente, de "elitistas", "machistas", "saudosistas", "preconceituosos", "moralistas", "burguesinhos", "playboyzinhos" etc. Tentam jogar contra nós adjetivos que são mais próprios deles. Lembra os golpistas militares que rasgavam a Constituição e acusavam seus opositores de tal tarefa.

Pois essa "cultura popular" simbolizada pelo "funk carioca", por jornais tipo Meia Hora e Supernotícia, por musas calipígias de glúteos exagerados, do Domingão do Faustão, do Pânico na TV, pelo "sertanejo", pela axé-music, pelo tecnobrega, pelo forró-brega, pelo circo da imbecilização do povo pobre, é a "cultura popular" tramada ao longo do tempo por pessoas como Ernesto Geisel e Fernando Henrique Cardoso.

Essa pseudo-cultura não representa de forma alguma a libertação do povo pobre. Antes significasse seu aprisionamento num padrão de entretenimento que mistura grosseria e pieguice, baixaria e alienação, evitando com que grandes massas realizem mobilizações como as do Oriente Médio, que aqui refletiriam na luta contra o latifúndio e o coronelismo político.

Mas como os avanços sociais se dão gradualmente, FHC deixou a máscara cair e manifestou seu desprezo contra o povo. Quem será o próximo?

(*) O É O Tchan é pouco recomendado para a vovó e para o netinho, sendo um grupo abominável dos 8 aos 80. O É O Tchan é impróprio para a vovó, porque é pornográfico e pode causar problema no coração. O É O Tchan é impróprio para o netinho, porque seu erotismo exagerado e grosseiro pode criar desvios de conduta moral e controle dos desejos sexuais na idade adulta.

O É O Tchan é machista, mas suas dançarinas pensam que ser feminista é não contar com o sustento de maridos ou namorados. Dizem que não têm namorados porque está difícil arrumar homens, quando na verdade é porque está difícil arrumar horários para conhecer os homens que são pretendentes. Que, certamente, não sou eu nem você, no caso de você ser um leitor masculino. Nós queremos mulheres realmente de conteúdo, sem qualquer trocadilho pornográfico.

4 comentários:

  1. Talvez o funk possa ser revolucionário. Veja o Tom Zé falando dele: http://www.youtube.com/watch?v=hubD31XaHqU&feature=related

    Tá, foi no programa do Jô (q é um idiota!), mas não é qualquer um que consegue falar isso na Globo! o Tom Zé é um revolucionário!

    Muito da dominação ideológica de um povo vem da "castração" já efetuada pela Igreja. O ser humano, castrado, fica sem sua "força vital" e abaixa a cabeça e se deixa ser guiado como um gado...

    estou aberta à divergência de opiniões. gosto do seu blog, não sou funkeira, mas não sei se vale a pena radicalizar tanto contra o funk, e ele é muito menos midiático q um axé, por exemplo

    ResponderExcluir
  2. Coral, o "funk" é tão midiático quanto a axé-music, o problema é que os dois estilos se revezam em modismos de temporada.

    ResponderExcluir
  3. "(...) haverá, portanto, constantes na ligação do ontológico ao sexual. (...) haverá também uma relação constante da sexualidade com as formas sociais." (Simone de Beauvoir)

    A. F., vc viu o vídeo? é preocupante que 75% das alunas da USP entrevistadas não gozem...

    não sei também se, ao falar de sexo abertamente, como fazem as músicas de funk, se isso não seria uma forma de controlar a sexualidade da população, do mesmo jeito q o nazismo pegou um símbolo q representava a sexualidade para o hinduísmo (a suástica) e colocou no uniforme de um ditador e do seu exército... talvez o funk, como movimento de massa, pegue essa energia sexual e domestique o povo através dela, de toda forma, a sexualidade não pode ser ignorada como movimento social...

    mas, como uma mulher q nem conhece plenamente as capacidades de seu corpo vai entender certas coisas e resisitir à ditadura imposta pela mídia?

    ResponderExcluir
  4. Depois q a Igreja já fez o "trabalho de base", castrando a população, é "mamão com açúcar" para a mídia... e aí talvez o funk sendo veiculado pela mídia seja como os gregos vindo dentro do cavalo de Troia, fazendo um trabalho ao avesso...

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...