quarta-feira, 27 de abril de 2011

A CRISE EXTREMA DO PSDB/DEM E O ENCOLHIMENTO DA OPOSIÇÃO



Por Alexandre Figueiredo

A crise do PSDB/DEM, que atinge níveis extremos, e o encolhimento da oposição política em nosso país, pode parecer, à primeira vista, uma excelente notícia. O bloco aliado aumenta, a base de apoio ao governo petista cresce e todos dormiremos felizes na esperança de acordar no dia seguinte com um Brasil transformado em país socialista. Certo?

Errado. Infelizmente, a novela não se encerra por aqui e nem haverá um final feliz à nossa espera na esquina. Pelo contrário, o inchamento da base de apoio do governo petista pode revelar um balaio de gatos dos mais diversos matizes mas enfeitados de vermelho socialista. Nos últimos dez anos, vemos uma revoada de direitistas que, enrustidos, passaram a posar de esquerdistas mesmo escondendo seus preconceitos e crenças, que ainda continuam de direita.

A crise dos dois partidos conservadores, a princípio, até nos diverte, como também diverte o desespero da mídia associada que perde seus representantes políticos. De Judith Brito, executiva da Folha de São Paulo e chefona da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), até Ronaldo Caiado, latifundiário que, pelo jeito, não compartilhou dos flertes kassabianos de sua igual Kátia Abreu, o desespero da direita em se ver esfarelada feito um bolo velho é notório e até rende boas gargalhadas.

A debandada do PSDB atingiu até mesmo quadros fundadores, como o economista Bresser Pereira, e os políticos Walter Feldman e Ricardo Montoro, este filho do falecido co-fundador do partido, André Franco Montoro, um político oriundo da direita católica brasileira e ligado ao PDC antes do movimento militar de 1964 dar cabo nos partidos políticos da época.

Mas não vamos nos esquecer que, no lugar da direitona claramente reacionária, teremos uma direitinha que não deixa de também mostrar seus surtos reacionários. É bom deixar claro que Jair Bolsonaro é da base aliada do governo petista, e nem por isso deixou de dar seus ataques de extrema-direita.

Por outro lado, a oposição aparentemente encolhe, mas em compensação haverá negociatas às portas fechadas, e a contaminação de preconceitos de direita nas fileiras esquerdistas. Não é sem razão que meu amigo Marcelo Delfino, do blogue Brasil Um País de Tolos, está há muito desiludido com a esquerda brasileira.

Na verdade, essa migração da direita para setores aliados é um fenômeno bem maior do que a dicotomia esquerda X direita pode sugerir. É a mania recente do brasileiro de dissimular suas posições, quando retrógradas. É uma hipocrisia que pode ser adotada por boa-fé, por má-fé ou por cinismo puro, ou apenas pelo pragmatismo de obter vantagens pessoais.

Num dos raros momentos de lucidez admirável na imprensa conservadora, o jornalista Paulo Moreira Leite, da revista Época, comentando a banalização do mal, em texto que li, por indicação em linque, do jornalista Idelber Avellar (blog Biscoito Fino e a Massa), descreve a pretensão de muitos brasileiros parecerem "luminosos" para agradar a outros.

Alguns trechos que Moreira Leite escreveu merecem ser citados:

A hipocrisia não é uma ideia, nem uma opção. É uma atitude de vida. Você enxerga o que é errado mas finge que não o vê. Simula concordar do fundo do coração com uma ideia, uma proposição, ou mesmo uma decisão em seu local de trabalho ou numa roda de amigos — mas só está agindo de acordo com aquilo que é conveniente para sua vida profissional ou até para começar a namorar uma menina interessante. A base de tudo é tratar a consciência como moeda de troca.

A hipocrisia é aquela postura que nos faz fracos, que esconde nossa estranha
capacidade de esconder convicções e valores pelo esforço de agradar e receber algum benefício. Quanto mais disfarçada, mais eficiente.

Digo isso para lembrar que ninguém vive em laboratórios de valores claros e
atitudes luminosas. Como proclamava-se em 68, nem os maiores gênios habitam torres de marfim.

Cada época cobra seu preço sobre homens e mulheres, que estão condenados a conviver com preconceitos, dramas e atrasos.


Nem precisamos mais dizer detalhes sobre os pseudo-esquerdistas que contradizem suas posturas declaradas com uma visão calcada no neoliberalismo ou no direitismo mais reacionário. Do professor mineiro que escreve como Diogo Mainardi mas diz esculhambar a Veja. Ou do colunista da Folha que foi para a imprensa de esquerda difundir, no contexto da cultura brasileira, a visão de Francis Fukuyama.

Mas fica muito estranho ver direitistas enrustidos falando de seus mestres - seja Fernando Henrique Cardoso, Antônio Carlos Magalhães, Roberto Marinho, Otávio Frias Filho ou mesmo Cabo Anselmo - como se fossem inimigos distantes, num distanciamento ao mesmo tempo falso e risível.

Da mesma forma que é muito estranha a oposição debandar para a base aliada, como gente de um cruzeiro marítimo em naufrágio que nada desesperada para o primeiro barco de pescadores que encontrar na frente. Um barco pequeno, que não tem lugar para todo mundo.

Pois seria melhor que houvesse uma oposição autêntica do que aliados hipócritas. Teríamos diversidade político-ideológica, em vez dos direitistas enrustidos que, de uma forma bastante hipócrita, bajulam Che Guevara e a esquerda brasileira.

O jogo democrático fica comprometido com tanta gente que, dotada de posições conservadoras, passou a virar a casaca e se dizer "socialista". Se relembrarmos que Hebe Camargo participou da passeata do Vale do Anhangabaú, em 19 de março de 1964, a célebre Marcha da Família com Deus pela Liberdade que pediu a derrubada do "comunista" João Goulart, fica patético ouvir a apresentadora dizer hoje que virou "bolchevique".

Como também a situação de instituições simpatizantes com a esquerda faz com que os incautos façam confusões que permitam a associação de valores retrógrados pouco manjados ao universo progressista. Como, por exemplo, achar que Gugu Liberato é "socialista" só porque ele trabalha na mesma Rede Record que Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna.

Os funqueiros - que, no fundo, preferem as Organizações Globo do que a Caros Amigos e o Brasil de Fato e falam mal da esquerda pelas costas - se aproveitaram muito dessas confusões. Muitos referenciais da Rede Globo seguidos pela "recópia" passaram a ser vistos como "equânimos". Daí para um Pedro Alexandre Sanches saído, sob lágrimas de seus colegas e de seu patrão-colega Tavinho Frias, da Folha de São Paulo, para manchar as páginas esquerdistas de tropitucanato temperado com ideias fukuyamianas, é um pulo.

Além disso, a farra adesista atual pode também criar situações como a debandada de antigos esquerdistas da base aliada para a oposição, como foi o caso do Partido Verde, que durante muitos anos foi como que um partido-irmão do Partido dos Trabalhadores.

E quem não garante que surja um novo Cabo Anselmo na base aliada que chutará o pau da barraca esquerdista a qualquer momento? Quem não garante que a bancada ruralista, mesmo na condição de "aliada", jogue os agricultores rurais para escanteio? E quem não garante que apareça um Jair Bolsonaro nos escuros porões do edifício aliado, para disparar seus preconceitos de extrema-direita?

Sabemos que foi muito ruim para a nação uma direita unida até as entranhas que, em 1964, fez o Brasil andar para trás com uma ditadura que arruinou com os brasileiros. Tínhamos um projeto de país que foi interrompido e muita coisa até hoje não foi ainda recuperada, como a cultura das classes populares, praticamente esmagada pelo mercado brega-popularesco apoiado pelo latifúndio e pela mesma mídia golpista que combate os movimentos sociais.

Mas o extremo oposto, que é o inchamento político da base aliada, também não irá resolver os problemas. Antes os camuflasse num momento para agravá-los em outro, como a efetivação de projetos anti-populares supostamente voltados "para o cidadão". A demagogia pós-moderna, aliás, criou esse personagem, o "cidadão", para personificar interesses privados disfarçados de interesses públicos.

No verdadeiro processo democrático, é muito melhor, mais coerente e vantajoso, que tivéssemos um diálogo franco e harmonioso com nossos opositores, do que nos engalfinharmos no momento crucial com qualquer um de nossos supostos aliados.

Em outras palavras, seria bem melhor negociarmos pacificamente as divergências mais explícitas do que entrarmos em sério conflito por causa de divergências ocultas pela convergência de fachada.

Vai ser até pior para nós sabermos quem realmente está no nosso lado. E mais grave ainda será saber quem não está.

Um comentário:

  1. Vale lembrar que um dos recentes entrevistados das famosas páginas amarelas da Veja (logo ela!) disse e a revista publicou: a esquerda é mais inteligente. Pensei imediatamente nos livros, nos filmes, na música, nas peças de teatro, nas artes plásticas e mesmo em programas de TV feitos por esquerdistas declarados.

    São poucas as obras apreciáveis feitas por direitistas. Elvis Presley apoiou Richard Nixon, Neil Young apoiou Ronald Reagan, Johnny Ramone apoiou Reagan e George W. Bush, e a banda Megadeth apoiou George W. Bush. Leia em http://whiplash.net/materias/curiosidades/064627-megadeth.html. Aqui no Brasil, nossa musa Paula Toller pediu votos para Geraldo Alckmin em um show na Lapa, em 2006. Ferreira Gullar tem apoiado todos os candidatos presidenciais tucanos nas últimas eleições. Dominguinhos tocou nas campanhas de FHC em 1994 e 1998, na de José Serra em 2002 e na de Alckmin em 2006.

    No quadro geral, a cultura de massa divulgada pela direita é essa cultura brega-popularesca que conhecemos, que envolve livrinhos de autoajuda, filmes com linguagem de Rede Globo e/ou de blockbusters americanos, música brega-popularesca (gospel ou não) e, claro, toda a produção da TV aberta, da Globo à Record.

    Só que esse governo regressista de Lula e de Dilma jogou fora toda a autoridade que pensava ter. Adotou a mesma política apátrida de praticamente todos os governos que vieram depois de Getúlio Vargas. O Governo Lula-Dilma gerou mais emprego e renda que o Governo FHC. Pra quê? Pra nova classe mérdia almejar TER mais coisas do que em SER alguém. Pra consumir a cultura brega-popularesca que a direita extirpada do quadro partidário continua promovendo na mídia de massa. Pra adestrar a classe trabalhadora em cursos técnicos e universitários feitos de qualquer maneira por meio dos PruUni da vida, e depois trabalharem para corporações exploradoras e neoliberais. Ou quem sabe prestarem concursos públicos e se tornarem servidores extremo-estatistas (desses que acham que até os supermercados deviam ser estatais) e massa de manobra do PT, que aplicará neles o medo das privatizações se ainda restar alguém da direita na oposição. Um formidável eleitorado cativo.

    Com a Copa 2014 e a Olim Piada 2016 chegando, a hora da desmoralização total da esquerda brasileira virá. E não adiantará fazer beicinho, dar pití e bater os pés no chão, dizendo que é tudo culpa do demo-tucanato. A essa altura, os demo-tucanos estarão extirpados, cumprindo a vontade do grande e idolatrado deus pagão de barba branca, que infestou o Palácio do Planalto por oito anos. Voltarei a este tema.

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