sábado, 9 de abril de 2011

CLIENTELISMO EM MÃO DUPLA


TUDO PELA LEI ROUANET - GRUPO NEO-BREGA INIMIGOS DA HP PEGA CARONA EM CHICO BUARQUE, E EMERGENTE DA MPB, A CANTORA TIÊ, RECORRE A SUCESSO DO CALCINHA PRETA. PELA VISIBILIDADE FÁCIL, VALE TUDO.

Numa época em que se começa a expor o clima de politicagem dentro do setor da cultura brasileira, cada vez mais o tendenciosismo musical relega a segundo plano a preocupação com o patrimônio cultural brasileiro.

Isso em ambos os lados: seja no brega-popularesco da Música de Cabresto Brasileira, seja na MPB autêntica acomodada no elitismo.

No primeiro caso, vemos o inexpressivo grupo paulista Inimigos da HP, que, embora oficialmente de "pagode universitário", oscila entre o sambrega e a axé-music (algo similar ao que o Tchakabum, que abocanhou uma "bolada" pela Lei Rouanet, faz no Rio de Janeiro), que nunca teve sequer um sucesso na vida, agora excursionar usando o repertório de Chico Buarque para se autopromover.

No segundo caso, vemos a emergente cantora da MPB Tiê, pouco conhecida do grande público, que decidiu gravar um sucesso do grupo de forró-brega Calcinha Preta, "Você Não Vale Nada", num recurso bem tropicaetânico: mudando os arranjos, dentro dos princípios do kitsch (que, segundo Umberto Eco, é o grotesco trabalhado como se fosse "arte superior") já conhecido pelos discípulos de Caetano Veloso.

Tanto no primeiro como no segundo caso, é bom juntar as peças e ver o tom do tendenciosismo tanto na atitude dos Inimigos da HP quanto na de Tiê.

Os Inimigos da HP decidiram "homenagear" Chico Buarque este ano. Ele é irmão da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, o que significa que a "bela homenagem" tem em vista os polpudos recursos públicos extraídos de isenções fiscais garantidos pela Lei Rouanet.

Tiê, por sua vez, cobiça a visibilidade fácil, usando um sucesso neo-brega que emplacou nas trilhas de novela da Rede Globo, e o fato de interpretar a música "de um jeito diferente" não disfarça nem desmente o oportunismo de entrar no mercado radiofônico através do brega-popularesco.

Em ambos os casos, o brega-popularesco, que é a mediocridade travestida em "cultura popular" que durante muito tempo foi alimentada pelo coronelismo político-midiático, tenta obter credibilidade, seja pela tentativa de associar um grupo de axé-sambrega à imagem de Chico Buarque, seja pela tentativa do Calcinha Preta de se "enobrecer" através da gravação de Tiê.

Embora em contextos bem diferentes, os dois casos dão uma boa amostra das trocas de favores que cantores e grupos dos mais diversos matizes fazem para obter vantagens no mercado. Tudo pela fama na grande mídia, nada pela cultura popular.

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