terça-feira, 26 de abril de 2011

CHOQUE DE DESORDEM



Por Alexandre Figueiredo

Muito pretensiosismo e muita invencionice podem deslumbrar certas plateias que acham que promessas políticas mirabolantes e modelos tecnocráticos de administração são sinônimo de perfeição humanitária.

Pois a dupla Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes, governador do Estado do Rio de Janeiro e prefeito do município homônimo, respectivamente, desejava ter uma projeção equivalente ao que Juscelino Kubitschek teve nos seus "50 anos em 5" de 1956-1961. Talvez quisessem até uma projeção maior. Mas não chegaram a ter sequer um terço da reputação do saudoso político mineiro.

Em muitos episódios, os dois políticos só conseguiram pontos a seu desfavor. É certo que seu fã-clube reage a críticas, disparando mensagens grotescas, arrogantes, querendo impor moral mas só mostrando seu nervosismo neurótico de ver seus dois ídolos em xeque e não poder reagir com civilidade. Aí disparam grosserias, a mais leve delas do tipo "deixa de falar besteira...".

O "moderno" (na verdade, antiquado) sistema de ônibus planejado por Eduardo Paes está causando problemas sérios para os passageiros. São muitas as pessoas que pegam ônibus errados, sobretudo de noite, por conta do visual padronizado. Busólogos arrogantes e chapa-brancas tentam esnobar dizendo que isso é bobagem, e que dá para pegar os ônibus certos.

Ignoram eles que as pessoas vivem sobrecarregadas de compromissos urgentes demais para terem tempo de discernir um 676 da Três Amigos de um 910 da Paranapuan. E ignoram que existem idosos, gestantes, deficientes físicos, pessoas com TDAH, entre outros tantos. O caráter anti-social desses busólogos é tal que um deles, ligado a uma prefeitura do Grande Rio, anda com um temperamento pavio-curto comparável ao de um Jair Bolsonaro.

Mas em outras oportunidades, falaremos desse caráter anti-social da padronização visual, que os especialistas mais conceituados duvidam que vá durar 20 anos, ou mais do que isso. Se até em Curitiba a medida decai, apesar dos esforços do fã-clube de Jaime Lerner em mantê-lo "inteiriço" pelo menos até o encerramento das Olimpíadas de 2016 (que ocorrerão só no Rio, mas terá reflexo político e turístico nas demais capitais do país).

Recentemente, houve um atentado contra um blogueiro que criticava os desmandos da dupla carioca. Certamente Cabral Filho e Paes não são neo-varguistas, nem Ricardo Gama um neo-Lacerda, mas talvez haja um "Gregório Fortunato" surgido no subterrâneo dos e-mails reacionários deve estar por trás do atentado, cometido no Bairro Peixoto, na verdade um sub-bairro de Copacabana, bem próximo à Rua Toneleros onde ocorreu o célebre atentado de agosto de 1954.

Aí veio um atormentado que dizimou 12 adolescentes numa escola do Realengo, numa conduta cujo fundo social poderia ter sido prevenido seguramente pelos políticos que há muito tempo controlam o poder no Grande Rio. Um sujeito estressado, maltratado, vítima de bullying e que via Rambos, Bronsons e Braddocks empurrados goela abaixo para a criançada na Sessão da Tarde, nos anos 90.

Ainda tem traficantes no Complexo da Maré e criminosos já ocupam casas nas obras do PAC em Manguinhos, meses depois da "histórica" ocupação da polícia na região da Penha. E até agora nada foi feito na área, pois a Av. Brasil conta com gigantescos galpões vazios que poderiam ser demolidos e substituídos por conjuntos populares que, por sua vez, esvaziariam os morros que, com tantas favelas, tornam-se feios, inseguros e até perigosos para sua população.

Há o alerta de que as obras para a copa do mundo de 2014 continuam atrasadíssimas, e que já se cogitou mudar a sede do campeonato mundial de futebol para Inglaterra ou Alemanha. E, pasmem, Eduardo Paes anunciou que não vai haver investimentos privados, só dinheiro público será utilizado para as obras. Ora, mas dinheiro público não é capim, e o povo brasileiro já sofre com seu salário ainda apertado (apesar das melhorias trazidas pela Era Lula) e com muitos impostos a pagar.

E, agora, são as chuvas. Não é de hoje que a Praça da Bandeira se tornou a Veneza carioca, com as águas do Canal do Mangue transbordando em dias de temporais. Mas algo poderia ter sido feito, diante do pretensiosismo "heroico" dos supostos "super-heróis" Paes e Cabral Filho.

Nos seus momentos de promessas otimistas, os dois parecem nos fazer crer que há recursos públicos infinitos para tudo, que haverá construção de moradias populares dignas, urbanização intensa e ecologicamente sustentável, segurança policial constante e eficaz, e que tudo, tudo e tudo será realizado rapidamente.

No entanto, momentos como na madrugada de ontem para hoje, esse otimismo se desaba. Afinal, o realismo é muito melhor do que o otimismo demagógico e impossível. Porque este otimismo só encontra seus limites e suas impotências ao realizar o compromisso assumido na promessa, porque se verá que os recursos não são grandes, as condições não são sempre favoráveis e mesmo a vontade dos dois políticos não é tanta, assim.

Afinal, para repintar os ônibus com as cores plagiadas dos remédios da Boeringer Ingelheim ou dos portais da Globo.Com, eles decidem rapidinho. Mas para dar moradias dignas para a população, o processo é lento, lento e lento. Cadê o choque de ordem na Habitação?

Aliás, esse governo, estadual e municipal, do Rio de Janeiro, só está demonstrando ser um choque de desordem. Chocados estamos nós, diante de tanto pretensiosismo que se evapora nos momentos mais difíceis.

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