terça-feira, 12 de abril de 2011

A CAMPANHA PELO DESARMAMENTO VOLTA À PAUTA


O ATOR CHARLTON HESTON INTERPRETOU MOISÉS NO CINEMA, MAS ATÉ O FIM DE SUA VIDA ERA LIGADO AO NATIONAL RIFLE ASSOCIATION.

Por Alexandre Figueiredo

Depois que veio à tona o atentado a jovens alunos de uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro - episódio comparado ao atentado na escola Columbine, nos EUA, em 1999 - , voltou-se a discutir a questão do desarmamento, depois que uma campanha moralista e alarmista fez a população votar pela manutenção do comércio de armas de fogo e munições.

O plebiscito foi há pouco mais de cinco anos, e gerou uma situação insólita no Brasil. A direita moralista pregava pelo desarmamento, ou seja, por mais restrições à venda de armas de fogo e munições. Já a aparente "esquerda", ou seja, a suposta esquerda social dotada de muita visibilidade e presença, defendia a manutenção deste comércio.

Era a época do movimento Cansei - que reunia Hebe Camargo, Ivete Sangalo e Zezé Di Camargo, entre outros, engajados na causa direitista - e de um moralismo "familiar" voltado para episódios de violência contra jovens de classe média no país. Por outro lado, havia uma sociedade "modernamente" revoltada, mas que não sabia discernir Che Guevara e Rambo.

Mas é verdade que essa "esquerda" é de mentira, já que na mesma época do Cansei, do "mensalão e de quando o banqueiro Daniel Dantas era só denunciado pela Carta Capital, capaz de criar aberrações como os "chicleteiros de esquerda" (um grande absurdo, se lembrarmos do poderio econômico do cantor Bell Marques), não é e nem será a verdadeira esquerda comprometida com os movimentos sociais.

Afinal, dentro da esquerda autêntica, a posição era mesmo contra o comércio de armas de fogo e munições. Tudo isso por uma razão bem simples. Comprometida com as causas sociais, os esquerdistas autênticos não abiriam mão da solidariedade às centenas de vítimas da violência, seja ela a violência do campo, a violência do machismo, do arbítrio político-institucional, da violência urbana, que vitimam trabalhadores, ativistas, mulheres, pobres, crianças, mendigos.

Além disso, a "causa esquerdista" que no Brasil pedia a manutenção do comércio armamentista entrava em choque com a mesma causa nos EUA, representada sobretudo pela National Rifle Association, entidade que teve como membro honorário o ator Charlton Heston, já falecido. Ele tornou-se famoso por ter feito o papel do profeta bíblico Moisés, no filme Os Dez Mandamentos, de 1956.

A NRA, assim como o ator, assumiam (a entidade continua assumindo) uma posição ultra-conservadora, bem ao gosto do Partido Republicano, então no comando dos EUA, na pessoa de George W. Bush (aparentemente hostilizado pela "esquerda" brasileira que bajulava Che Guevara mas se silenciava em relação a Roberto Campos).

Daí a situação tipicamente buñueliana do Brasil ter aprovado a manutenção do comércio de armas, preferindo que o cidadão comum, se quisesse, pudesse comprar uma arma como quem compra um pão na padaria. Não por acaso, parte do PiG defendeu o comércio - a essas alturas, Pimenta Neves havia se tornado o "matador" que empolgava seus coleguinhas - e, já que falamos de Luís Buñuel, é bom deixar claro que um dos personagens do hilário filme O Fantasma da Liberdade era um franco-atirador que de um andar alto de um prédio fuzilava qualquer transeunte, e que, ao ser condenador à morte pelo júri, no entanto foi solto à impunidade (sátira das condenações legais brandas) e ainda deu autógrafos para alguns fãs (?).

Agora o contexto é outro. Alguns orkuteiros conservadores deixaram de brincar de "esquerdinha" e assumiram a direita de vez, e a chacina da escola de Realengo foi forte demais (eu mesmo chorava diante dos noticiários, é sério) para que algum moralismo-rambo triunfasse. Isso apesar de Tropa de Elite e mesmo da campanha de parte da mídia em vender os filmes de pancadaria como se fossem cult.

Vamos abrir mão de uma pseudo-insegurança autista e vingativa e pensarmos o quanto seria melhor que se restringisse cada vez mais o comércio armamentista.

4 comentários:

  1. E viva as Organizações Globo (a fina flor do PiG), o senador José Sarney e outros derrotados do Referendo 2005, que estão doidos para revogar o resultado da votação no tapetão do Congresso Nacional. Melhor seria se fizessem um Referendo sobre o mesmo tema de quatro em quatro anos.

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  2. Infelizmente os defensores da manutenção do armamento tem uma pitada de ódio em seus corações, confirmando a tese de que ninguém é 100% bondoso e que a propaganda da Coca-cola estava errada quando disse que a maioria das pessoas são boas.

    E nem adianta argumentar que é para "defender". Defender com o ódio não é uma boa ideia.

    Tenho certeza que se a coisa explodir, teremos guerra civil no Brasil, com cidadãos comuns matando uns aos outros com tiros voando para tudo quanto é lado.

    Vou ter que procurar um abrigo secreto para me preservar.

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  3. O PSTU defende o porte de armas. Ao menos no referendo de 2005 eles se posicionaram assim alegando o direito de defesa dos trabalhadores.

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  4. Boa, Bruno. Ainda há gente independente e idealista também nos partidos de esquerda.

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