sábado, 16 de abril de 2011

CAIO MARTINS E A HIPOCRISIA DO FANATISMO ESPORTIVO


A HISTÓRIA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO SERÁ PREJUDICADA COM O FIM DE UM DE SEUS PRINCIPAIS ESTÁDIOS.

Por Alexandre Figueiredo

O fanatismo em torno do futebol, que não o valoriza como um simples esporte e lazer, mas como um misto de religião com doutrina metafísica que inclui simulacros de engajamento sócio-político, tem também suas hipocrisias.

Um dos históricos estádios de futebol do país, e que durante muito tempo foi o principal do Estado do Rio de Janeiro - é bom deixar claro que o Maracanã foi inaugurado no antigo Distrito Federal que depois veio a ser o Estado da Guanabara - , o Estádio Caio Martins, localizado em Niterói, corre sério risco de ser demolido, para dar lugar a vários prédios residenciais de luxo.

Sim, o estádio que simbolizou durante décadas o futebol no Estado do Rio de Janeiro corre simplesmente o risco de desaparecer, como se sua história de muitas partidas nunca tivesse existido.

E quem consente com isso é o mesmo fanatismo futebolístico - que os detratores chamam de "futebosteiro" - que, através da grande mídia esportiva, tenta transferir o glamour esportivo de 1958 (quando a Seleção Brasileira de Futebol conquistou sua primeira vitória em uma copa do mundo) para os dias atuais, coloca o esporte acima até mesmo da Educação.

Ou seja, para botar o futebol acima da alfabetização ou do ensino de matérias que preparassem os futuros adultos para a vida, a mídia quase toda se empenha. Mesmo a "mídia boazinha", tipo TV Bandeirantes, revista Isto É. Mas, para defender um estádio de futebol tradicional ameaçado de desaparecer por conta da especulação imobiliária, ninguém faz.

Infelizmente, blogs como este não possuem visibilidade suficiente para pedir a permanência do Estádio Caio Martins. A demolição do estádio fará a vida sócio-cultural de Niterói tornar-se capenga, mesmo com a recuperação do Cine Icaraí, abandonado há cerca de dez anos.

É certo que o Caio Martins, ultimamente, mais parecia um campo de várzea cercado por muros. Mais ou menos como o Esporte Clube Galícia, um dos dois clubes de futebol discriminados em Salvador (Bahia), por conta do poderio político dos times Bahia e Vitória.

Eu mesmo pude passar, várias vezes, na Rua Santiago de Campostela, entre o Iguatemi e o bairro de Brotas, na capital baiana, e via o abandono que sofre o Galícia, antes um histórico clube fundado por descendentes de espanhóis. Lá existe um campo de treinamento, que também parecia uma várzea, logo atrás da garagem de ônibus da empresa BTU.

Pois comparando minhas andanças na soteropolitana Rua Santiago de Campostela, até meados de 2008, com minhas atuais andanças pela niteroiense Rua Presidente Backer, vejo o quanto o fanatismo futebolístico - ou futebosteiro? - pouco cuida de times pequenos e de estádios abandonados.

Numa época em que se aproxima a Copa do Mundo de 2014 e ocorre todo o carnaval em torno do futebol brasileiro - onde os jogadores mais populares são como verdadeiras celebridades, numa badalação que, em certos casos, se compara a do príncipe William da Inglaterra - , a situação acima citada mostra o quanto a histeria pelo futebol só podia ser dominada pela "emoção", uma palavra que os cronistas esportivos definem como uma espécie de "mística esotérica em torno do futebol". Não o dizem no discurso, mas o fazem na prática.

São tantos os campos de futebol de bairro abandonados, com gramados arrancados e muito lamaçal, que só servem para o recreio mórbido de toxicômanos nos horários de menor movimento nas ruas. São tantos os pequenos times sem algum lugar ao Sol, são tantos os estádios pedindo socorro, e que não estão entre os principais.

Isso mostra o quanto o fanatismo em torno do futebol não significa que seja uma verdadeira valorização do esporte, mas uma histeria, um fanatismo que caminha pela cegueira emocional, e não pelo desejo de reais melhorias para o famigerado esporte brasileiro de origem ítalo-britânica.

O Caio Martins, em vez de se render à especulação imobiliária e dar lugar a um monte de prédios residenciais, deveria ser reformado, melhorado, modernizado, e convertido num poderoso espaço de lazer para a população do bairro do Jardim Icaraí, onde o estádio se situa.

Há até mesmo um registro de uma exposição de cães realizada no estádio, bem mais elegante e organizada que a improvisada exposição de filhotes que ocorre no Campo de São Bento.

A extinção do Estádio Caio Martins, além de contrastar com o fato de que, no Rio de Janeiro, o Engenho de Dentro (a umas léguas do Maracanã) também conta com um estádio de futebol, o Engenhão - que agora vai receber o ex-beatle Paul McCartney - , será um golpe duro para a memória do Estado do Rio de Janeiro, que teve no Caio Martins uma de suas maiores praças esportivas.

Demolir o Caio Martins será, portanto, a destruição de uma opção de lazer. Fará a história de Niterói e do Estado do Rio de Janeiro tornar-se em parte acéfala. Será uma afronta à história de Niterói e um desrespeito ao povo fluminense. Com a proximidade da copa, melhor seria que o Caio fosse reformado e modernizado, até com outras opções de comércio e lazer, o que seria, sim, unir a tradição com a modernidade, sem agredir a memória cultural do Estado do Rio de Janeiro.

Seria bom que os fanáticos do futebol deixassem um pouco de lado a "emoção", ou usassem-na para entender as verdadeiras necessidades dos cidadãos brasileiros.

3 comentários:

  1. O Caio Martins poderia virar um museu ou, pelo menos, manter a fachada como o Arsenal fez em seu antigo estádio que foi para o saco em 2005.

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  2. Prefeito cadê você?? Você e nossos vereadores e deputados que nos elegemos não podem permitir uma vergonha desta!!!Passei minha infância inteira tendo o Caio Martins como referencia era o quintal de minha casa, era lá que fazia natação, participava de vários esportes, era lá que existia até uma escola para crianças especiais,os melhores e grandes circos, Holliday on Ice, Shows fabulosos como "Sérgio Mendes e Brasil 66", prata da casa e tantos outros Shows Maravilhosos. Foi lá que conheci Mané Garrincha, Nilton Santos, Gerson" também prata da casa", com o Botafofo, para agora o Governo Estadual se reder a especulação Imobiliária,isso é uma vergonha!!!

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  3. Pessoas, moro em niterói e assim como vcs acho um absurdo o que querem fazer com as nossas memórias... Ajude-nos a tentar fazer algo contra isso assinando o abaixo assinado contra a demolição...

    http://www.peticaopublica.com.br/?pi=caiomar

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