quinta-feira, 14 de abril de 2011

BREGA-POPULARESCO É A "AMERICANIZAÇÃO" DA MÚSICA BRASILEIRA



Por Alexandre Figueiredo

Passeando pelas ruas ou indo para vários estabelecimentos, nota-se que os chamados "sucessos do povão" do rádio, agora em fase "ISO 9000" como se isso adiantasse para colocar a mediocridade musical brasileira no primeiro time da MPB, são muito carregados de influência estrangeira assimilada conforme o poderio dominante dos EUA.

São grupos de "pagode romântico" que "capricham" na influência da soul music, "sertanejos" que capricham num country mais choroso, "romântico" até dizer chega. A axé-music, pelo menos a partir de suas estrelas Ivete Sangalo e Cláudia Leitte, assimilam explicitamente as influências do pop estadunidense, sobretudo pelo excesso de dançarinos e pela superprodução visual.

O "funk" e o forró-brega, então, nem se imagina. O "funk carioca" é chupado do miami bass da Flórida, e só nos últimos anos apelou para o "tamborzão" (som de bateria eletrônica que imita batuque de candomblé) como recurso para turista ver.

O forró-brega - ou "forró eletrônico", oxente-music ou forró-calcinha - nada tem da "regionalidade" que tanto alardeia ter, porque se trata de uma gororoba que mistura disco music, country music, merengues, salsas, estética de saloon texano, estética caribenha de "Rolyud" (qualquer coisa, recorra aos textos de Glauber Rocha), visual de piratas de teatro mambembe porto-riquenho.

Não vão seus defensores recorrerem a Oswald de Andrade e falarem em "antropofagia", "auto-suficiência das periferias" e outros discursos que já não convencem mais. Sobretudo aquele papo de "vamos romper o preconceito" que não passa de desculpa para empurrar o popularesco goela abaixo.

Isso porque o brega-popularesco não tem a ver em coisa alguma com a antropofagia cultural pensada pelo escritor modernista. Isso porque não existe uma única forma, a positiva, de assimilação local de culturas estrangeiras. Há também outra forma, bastante negativa e nociva.

Afinal, a antropofagia cultural se refere apenas à assimilação de elementos estrangeiros que de modo nenhum interferem com a soberania cultural local. Primeiro, porque o elemento estrangeiro é assimilado de forma espontânea e livre, vinda de "baixo" (é o povo, o artista popular ou a comunidade que decidem). Segundo, porque o elemento estrangeiro é usado não de forma prevalecente, mas de forma a complementar e enriquecer uma cultura local.

Mesmo quando ritmos estrangeiros são inteiramente introduzidos num local, como o rock, a "leitura local" torna-se prevalecente. Como no caso do rock produzido na Grã-Bretanha, um ritmo originário dos EUA que, no Reino Unido, ganhou caraterísticas radicalmente próprias, por mais que seus músicos se lembrem até dos bluesmen esquecidos pelos próprios estadunidenses. É um claro exemplo de antropofagia cultural que, num exemplo típico, permitiu o respeito mútuo entre os californianos Beach Boys e os liverpudlianos Beatles, em meados dos anos 60.

Já o entreguismo cultural nada tem a ver com antropofagia. Pelo contrário, são as águias ianques que voam para os ninhos de nossos canários, araras e bem-te-vis para devorar os ovinhos de seus filhotes. Não há joão-de-barro que construa sua casa sob as ordens da águia ianque.

Por isso o som brega-popularesco é americanizado. Ele é subordinado ao que o rádio e a TV aberta transmitem. Que são valores apátridas, que transformam o povo brasileiro numa caricatura do que se vê nos "enlatados" estadunidenses.

Não há qualquer valor sócio-cultural brasileiro que seja realmente considerado, a não ser na forma de arremedo. E, o que é pior, quando tenta-se evocar valores "regionais", como os "sertanejos" e "pagodeiros" tentam fazer em última hora, sobretudo em bajulações baratas a nomes sérios como Almir Sater e Jorge Aragão, ou Renato Teixeira e Zeca Pagodinho (sim, apesar de sua aparente massificação, Zeca é um respeitável sambista), que chega ao ponto da imitação caricata de seus estilos.

Só o caso de Alexandre Pires é sintomático. Ele parece mais aquele tipo "brasileiro" defendido pelas "missões culturais" do Departamento de Estado dos EUA. Símbolo de sambista estereotipado da Era Collor, ele foi empresariado pelo casal Gloria Estefan e Emilio Estefan Jr. - cubanos anti-castristas - e foi direto se apresentar para um evento com o presidente George W. Bush, aparecendo ao lado dele. Anos depois, praticamente se sentiu à vontade gravando uma versão "sambista" para um tributo de canções da Disney.

Só isso mostra o quanto mesmo tendências mais "sofisticadas" do brega-popularesco mantém boas relações com o mercado dominante dos EUA, e influente aqui no país.

QUE CULTURA BRASILEIRA!! LEGAL MESMO É TER HIT PARADE E CULTURA POP

A intelectualidade etnocêntrica e pós-moderna, discípula dos delírios tropitucanos de Caetano Veloso, finge que deseja que o patrimônio cultural brasileiro seja preservado.

Ainda vamos falar muito nisso, mas a verdade é que essa intelectualidade tão badalada e festejada, em vez de desejar a preservação da cultura popular, quer tão somente a prevalência da dita "cultura pop" no Brasil, da mesmice do hit-parade brega-popularesco.

Porque "cultura pop" traz dinheiro, cultura popular autêntica não. O interesse social não interessa. Os interesses financeiros é que movimentam o oba-oba intelectual.

Por isso há todo o descaso de se o "povão" está realmente gostando dessas músicas apátridas, estereotipadas, dessa "cultura" esquizofrênica que consome no rádio e na TV, mas cujo sucesso é agora tão "inocentemente" associado às "redes sociais" da Internet (como se o PiG não pudesse também montar um canal no YouTube, por exemplo).

Por isso, até agora, o patrimônio cultural popular autêntico hoje está confinado nos museus ou nos redutos de apreciação da classe média alta. O povo, infelizmente, está privado de sua própria cultura, enquanto consome arremedos que, ainda que atribuídos à "cultura das periferias", é imposto pelo mercado midiático dominante, regional ou nacional.

E que, como sabemos, agrada muito bem os tecnocratas do FMI e as autoridades do Departamento de Estado dos EUA.

Cultura fraca, povo fraco. Povo fraco, para as elites, é mais fácil de dominar.

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