sábado, 30 de abril de 2011

AS FALSAS ALUSÕES DO BREGA-POPULARESCO


ESTE SENHOR É UM ILUSTRE DESCONHECIDO PARA O PÚBLICO DO TECNOBREGA E DO "FORRÓ ELETRÔNICO". SÓ A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA IGNORA ISSO.

Por Alexandre Figueiredo

A campanha da intelectualidade para fazer continuar prevalecendo a música brega-popularesca e toda sua pseudo-cultura que está por trás, é bem conhecida.

É uma intelectualidade treinada nos salões da tecnocracia demotucana, e que depois foi publicar livros, artigos, colunas, reportagens, documentários, etc, endeusando nomes como Waldick Soriano, Odair José, Tati Quebra-Barraco, Zezé Di Camargo & Luciano, Banda Calypso, Gaby Amarantos, É O Tchan, entre tantos outros.

Essa campanha veio como uma avalanche, semelhante ao movimento dos ideólogos do IPES, nos anos 60. Tanto que a campanha que vemos através de gente como Hermano Vianna, Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Denise Garcia, Mônica Neves Leme, Ronaldo Lemos, José Flávio Júnior, Rodrigo Faour entre tantos outros poderia muito bem ser apelidada de "CPC do IPES", como se fosse uma resposta tardia do IPES - o "Instituto Millenium" dos anos 60 - aos Centros Populares de Cultura da UNE. Eu até apelido essa intelectualidade de "Instituto Tropicalium".

Pois a campanha deles se destaca pela tentativa de atribuir a essa pseudo-cultura uma suposta continuidade das tradições culturais brasileiras. Tradições que o público de todas essas tendências brega-popularescas desconhece, porque quem conhece essas tradições é a intelectualidade que faz propaganda.

Não é à toa que muitos músicos do brega-popularesco, no auge da carreira e já veteranos, se surpreendem, nos bastidores, com os referenciais de tradição cultural que acabam sabendo por terceiros, em última hora. Ah, existiu um sambista chamado Jorge Veiga? Tinha mais nomes bacanas do forró dos tempos da vovó? O "corta-jaca" também foi criticado em seu tempo?

As falsas alusões seguem dois principais discursos: primeiro a analogia, também falsa, a um moralismo do século passado para desqualificar a rejeição que sofrem os ritmos popularescos de hoje, e segundo, a falsa comparação dos ritmos popularescos com o folclore de outrora ou com referenciais culturais do passado.

Culpam, por exemplo, Lupicínio Rodrigues, Vicente Celestino e Nelson Gonçalves pela música brega dos anos 70. Mas os três cantores nunca foram cafonas. Eles faziam serestas, e eram um retrato do seu tempo. E tinham seu talento, sua beleza, seu valor, sua dramaticidade. Eram mais ligados à tradição ultraromântica da poesia que, popularizada postumamente pela obra de Casimiro de Abreu, tornou-se o paradigma do lirismo amoroso brasileiro.

O problema é que os primeiros ídolos cafonas imitaram os seresteiros do passado como uma caricatura, como um arremedo. Waldick Soriano, por exemplo, tornou-se uma caricatura esganiçada do Vicente Celestino. A pieguice dos ídolos cafonas não pode sequer ser comparada a "O Ébrio", suposta canção cafona de Vicente, porque esta é dotada de um lirismo teatral.

Há também falsas alusões à antropofagia cultural, como no caso do "funk carioca", tecnobrega e "forró eletrônico", quando na verdade seus ídolos e fãs nunca ouviram falar de Oswald de Andrade, o teórico da antropofagia cultural, e nem sabem o que é isso.

O próprio "funk carioca" teve um discurso apologético carregado de muitas referências, que na verdade eram fictícias, produto da mente fértil de seus propagandistas. Na sua propaganda, muitas vezes travestida de "monografias" ou "artigos científicos", tinha de tudo: Revolta de Canudos, Semana de Arte Moderna, movimento punk, Pop-Art novaiorquina etc. Mas é só tocar os CDs de "funk carioca" que tudo isso se desmorona de vez, e o que se ouve não passa de uma coisa tão oca que é difícil de definir, porque é a definição de algo sem valor.

E o caso do É O Tchan? Não bastasse a falsíssima comparação com o samba de roda, porque o É O Tchan faz tão somente uma péssima caricatura de samba de gafieira, o grupo ainda foi associado por Mônica Neves Leme ao lundu, que foi uma das formas de samba mais antigas. Ora, vejam Barravento, de Glauber Rocha, e saberão o que é o samba de roda. E vejam o vídeo "Vamo falá do Norte", do Bando de Tangarás (que teve Braguinha, Almirante e Noel Rosa como integrantes), e saberão o que é um lundu. Em ambos os casos, não há qualquer coisa que tenha ligação com o abominável Tchan (*).

As letras do Tchan, como também do "funk carioca", também tiveram sua baixaria "protegida" pela associação fictícia a Gregório de Matos. Ou seja, o antigo poeta baiano, que viveu no século XVII, passou a ser usado para defesa dessa baixaria, de forma tendenciosa e burra. Quando sabemos que Gregório não fazia baixaria gratuita, ele teve seus propósitos para usar esta linguagem, não era algo feito para ganhar dinheiro ou vantagens midiáticas fáceis.

A rejeição sábia aos funqueiros, porno-pagodeiros etc, também foi falsamente aludida pela intelectualidade etnocêntrica a movimentos moralistas que condenavam o samba, o maxixe e o lundu entre o século XIX e início do XX. Grande engano. Nós somos moralmente muito mais abertos.

Se rejeitamos popozudas, funqueiros, "rebolations", "tchans" ou coisa parecida, é porque eles são estupidez gratuita, não se trata de qualquer condenação ao sexo em si, mas à sua banalização e idiotização. E isso também não deve ser levado como desculpa moralista, porque uma coisa é ser livre, outra coisa é ser idiota e ser escravo dos mercadores do entretenimento.

Portanto, não valeu essa alusão toda, não. Todas essas comparações são falsas. Porque música de mercado é artificial, só se volta ao lucro fácil e tendencioso, nada tem a ver com qualquer continuidade de antigos movimentos culturais que tinham motivos de expressão comunitária e finalidades sociais.

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(*) O É O Tchan é pouco recomendado para a vovó e para o netinho, sendo um grupo abominável dos 8 aos 80. O É O Tchan é impróprio para a vovó, porque é pornográfico e pode causar problema no coração. O É O Tchan é impróprio para o netinho, porque seu erotismo exagerado e grosseiro pode criar desvios de conduta moral e controle dos desejos sexuais na idade adulta.

O É O Tchan é machista, mas suas dançarinas pensam que ser feminista é não contar com o sustento de maridos ou namorados. Dizem que não têm namorados porque está difícil arrumar homens, quando na verdade é porque está difícil arrumar horários para conhecer os homens que são pretendentes. Que, certamente, não sou eu nem você, no caso de você ser um leitor masculino. Nós queremos mulheres realmente de conteúdo, sem qualquer trocadilho pornográfico.

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