segunda-feira, 28 de março de 2011

UMBERTO ECO ESCREVE SOBRE VISÃO DISTORCIDA DA CULTURA POPULAR



Por Alexandre Figueiredo

Dando continuidade ao embasamento bibliográfico para contestar a hegemonia do brega-popularesco, citamos aqui um trecho do famoso livro Apocalípticos e Integrados, que Umberto Eco havia lançado em 1969.

Eco é conhecido popularmente pelos romances O Nome da Rosa e Baudolino, sucessos de vendas. Mas o escritor italiano, na verdade, é mais produtivo como teórico da Comunicação, sendo um dos mais importantes do mundo.

Crítico da globalização e, sobretudo, da indústria cultural, Eco oferece ótimos subsídios para entendermos a chamada "cultura de massa", um tema ainda visto como tabu, já que a intelectualidade "consagrada" e "incontestável" ainda vê a indústria cultural como um inocente processo de veiculação da cultura "das periferias".

E, para piorar, esse deslumbramento todo é ainda servido para a demanda de esquerda, a partir dos textos do "esquerdista profissional" Pedro Alexandre Sanches, que, fora do expediente, muito provavelmente vai se reunir com seus amiguinhos da Folha de São Paulo, de onde ele nunca deveria ter saído.

Na página 18 de Apocalípticos e Integrados, Eco confronta um comentário de Karl Marx ao historiador alemão Bruno Bauer, sobre a questão do papel das multidões ("massas") na História, com a visão que a indústria cultural faz das mesmas.

Eis o comentário de Marx:

(...) as massas, tão logo adquiram consciência de classe, poderão tomar a direção da história e colocar-se como única e real alternativa ao vosso "Espírito".

Em seguida, a ideia da indústria cultural sobre as "massas":

(...) a massa, superadas as diferenças de classe, é, agora, a protagonista da história, e portanto, sua cultura, a cultura produzida para ela, e por ela consumida, é um fato positivo.

Em relação a esta ideia da indústria cultural, Eco faz o seguinte raciocínio: "E é nesses termos que a função dos apocalípticos tem uma validade própria, isto é, ao denunciar que a ideologia otimista dos integrados é profundamente falsa e de má fé".

Nota-se que "integrados", segundo o autor, são aqueles que se deslumbram com a indústria cultural, e os "apocalípticos", são aqueles extremamente céticos.

Por isso mesmo, o raciocínio de Eco desarma completamente qualquer tentativa dos "integrados" ao brega-popularesco (seja um Pedro Alexandre Sanches, uma Patrícia Pillar, um Marcelo Freixo, um Ronaldo Lemos, ou então uma Regina Casé, Eugênio Raggi, Paulo César Araújo etc) de fazer seu pensamento se integrar ao contexto esquerdista.

Essa integração à esquerda é muito falsa, porque entra em completa contradição com os movimentos sociais. O Brasil de Pedro Alexandre Sanches, definitivamente, não é o de Venício A. de Lima nem de Emir Sader. A "cultura produzida para as massas", portanto, não deve ser confundida com a "cultura produzida pelas massas", já que uma mera preposição pode mudar completamente o sentido.

Mas num país em que a maioria das pessoas abomina a verdadeira intelectualidade - só aceita aquela que defende os valores da grande mídia - e tem medo que ocorram movimentos sociais de verdade no Brasil, além de abominar a leitura dos livros (a não ser os best sellers, mesmo que sejam os do listão da revista Veja), tanto faz "cultura para as massas" quanto "cultura pelas massas".

Com estupidez e demagogia, essa plateia deslumbrada não quer saber de discernimento. Umberto Eco, para esse pessoal, não passa de mais um pensador desprezível.

A verdade dói.

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