quarta-feira, 30 de março de 2011

TELECINE CULT: A QUEM INTERESSA CHAMAR O CINEMÃO IANQUE DE "ALTERNATIVO"



Por Alexandre Figueiredo

Uma das mais graves afrontas à memória histórica dos cinéfilos brasileiros é cometida impunemente por um canal de TV paga, sem que muitos percebam o significado do problema.

Trata-se do canal Telecine Cult, um canal supostamente associado ao cinema alternativo, mas cujo carro-chefe é o cinemão comercial da fase áurea de Hollywood.

Numa grande hipocrisia publicitária e num jogo de propaganda enganosa, o canal da Rede Telecine se chamava Telecine Classic, até 2005, quando mudou para o nome atual. O nome Telecine Classic também era pretensioso, mas pelo menos era mais honesto.

Usando como logotipo um gato dentro de um balão, numa estética aparentemente associada ao cinema europeu, o Telecine Cult usa como lema a expressão "alternativo". Só que em quase todo o seu horário, o que se vê são filmes de grande sucesso da fase áurea de Hollywood, produzidos geralmente nos anos 40 e 50.

QUALIDADE DOS FILMES NÃO JUSTIFICA

Diante da apresentação do problema numa comunidade do Orkut, um dos integrantes chegou a usar como desculpa o fato de que o cinemão de Hollywood era de qualidade melhor do que o atual, na tentativa de justificar a manobra do Telecine Cult.

De fato, os filmes da fase de ouro de Hollywood eram bem feitos, bem produzidos, marcaram a vida de muitas gerações etc. Mas nada disso justifica creditá-los agora como "alternativos". É brincar com a memória curta de muita gente.

Pensar assim é o mesmo que não ver diferença entre a programação de um circo e uma aula numa faculdade de Ciências Humanas. Sem falar que a desculpa do internauta soa muito subjetivista e é um comentário típico de pessoas mais jovens, sem muita noção do que gerações anteriores vivenciaram e, por isso, totalmente vulneráveis à "memória curta" que, para eles, é tão somente o puro desconhecimento dos referenciais do passado. Em outras palavras: desinformação pura das coisas.

O tipo de gente que pensa assim é o mesmo que acredita que "anos 80" são apenas a gororoba de entretenimento que essa rapaziada viu na televisão na referida década. Só que, para eles, "anos 80" não são necessariamente os acontecimentos que ocorreram na década - e olha que eles tinham idade para terem conhecido Tancredo Neves, por exemplo - , mas sim muitos seriados e desenhos animados que, na verdade, foram produzidos originalmente nas décadas de 50, 60 e 70.

CINEMA ALTERNATIVO SURGIU PARA QUESTIONAR HOLLYWOOD

Aceitar que o Telecine Cult passe filmes da era de ouro de Hollywood sob o rótulo de "cinema alternativo" - num claro balaio de gatos que, neste sentido, o gatinho do logotipo talvez tenha sua razão de ser (como o ditado "na noite, todos os gatos são pardos") - é simplesmente jogar no lixo todo o esforço que as gerações anteriores de cinéfilos e cineastas fizeram para provar que cinema não é só Hollywood.

Desde o pós-guerra, a ilusão de Hollywood foi contestada por cinéfilos, críticos de cinema e cineastas. Afinal, Hollywood era um dos veículos para a transmissão do american way of life, da ideologia de sonho consumista, apoiada em enredos cinematográficos que afirmavam o padrão de vida "ideal" lançado pelos EUA.

Isso inclui desde comédias românticas, musicais, suspenses, como também faroestes. Tudo isso simbolizava o poderio do comercialismo norte-americano, que com sua força mercadológica chegava mesmo a sufocar as expressões cinematográficas de outros países.

Quem leu o livro Introdução ao Cinema Brasileiro, do cineasta e estudioso do cinema brasileiro Alex Viany (1918-1994), conhece bem o drama que o cinema brasileiro sofreu para ter um mercado interno forte, porque o cinema dos EUA chega ao ponto de ter, no Brasil, um mercado bem mais forte do que o nosso.

Hoje as discussões sobre o cinema brasileiro - que resultaram em tentativas de criar uma indústria própria, através da Atlântida, Vera Cruz e Cinédia, entre outras - se evoluíram para a hegemonia da Globo Filmes, mas essa é uma outra história, tal qual a "cosmética da fome" que banaliza as temáticas sobre o povo pobre no cinema nacional.

Aliás, não por acaso, as Organizações Globo, donas da Globo Filmes, detém a franquia da rede Telecine, a rede que, com a violência de um Rambo, tenta destruir a memória histórica do cinema mundial.

No Brasil, Alex Viany era de uma geração que incluiu Paulo Emílio Salles Gomes e Walter da Silveira, que se empenhou em criar cineclubes para assistir a filmes independentes ou europeus cujos temas fugiam da estética de sonho ou do poderio ideológico (como nos faroestes) do cinemão norte-americano.

Os cineclubes sofreram a influência de análises e discussões sobre cinema feitos na Europa, e que resultaram, nos anos 40, no movimento do Neorealismo na Itália, e, na década seguinte, na nouvelle vague da França.

No Brasil, os cineclubes serviram de laboratório para que muitos estudantes de cinema analisassem a experiência mercadológica nacional nos anos 50 - sobretudo em relação às chanchadas - e criassem um outro tipo de cinema, que buscasse a identidade nacional de maneira crítica, e que foi batizado de Cinema Novo.

Não precisamos detalhar esses três movimentos de cinema não-comercial, o da Itália, da França e do Brasil, mas eles, juntos, simbolizam muito bem o esforço de cinéfilos, cineastas e jornalistas para fazer um cinema diferente da ilusão estadunidense.

Mas tudo isso para, depois, uma rede de TV paga botar por água abaixo todo esse esforço, porque agora a ilusão de Hollywood se nivelou ao "mesmo plano" da nouvelle vague, do Neorealismo e do Cinema Novo.

Vá falar, há 50 anos atrás numa faculdade, que John Wayne é ator de "cinema alternativo". As chacotas seriam inevitáveis. Se você for chamado de burro ao dizer isso, pode crer que é um adjetivo mais gentil.

Mas hoje, se você vai para uma faculdade e diz a mesma coisa, ninguém questiona, ninguém contesta. Pelo contrário, vão se limitar a comentar coisas do tipo "aquele filme (com John Wayne) eu vi na Globo quando era criancinha", "ah, aquele (outro) filme eu me lembro daquela cena final em que etc". Ridículo.

Esse grande desserviço à memória histórica só faz o Telecine Cult não merecer o crédito que tem. Pouco importa se exibe filmes clássicos. Em certos casos, nem tão clássicos assim, como filmes tipo Robocop ou os com Steven Seagal, ou mesmo qualquer filme banal dos anos 80, de preferência os maiores fracassos de bilheteria, que assim possam ser relançados como "alternativos" para uma plateia de memória curta.

Afinal, não podemos mais ser a eterna terra de cego em que qualquer equívoco "menor" é tido como "acerto". Temos que ter senso crítico e não trair as lições do passado, pouco importando se a gente viveu ou não esse passado. Mas nossos pais e avós viveram esse passado, e o que vemos é que as lições que eles tiveram é condenada a perecer no túmulo, devido à tolas e hipócritas "revisões" históricas que tratam os absurdos da vida como coisas naturais.

Só o caso do Telecine Cult daria num bom filme de Luís Buñuel.

Um comentário:

  1. A coisa mais cult que o recente cinemão americano tem são os filmes de Michael Moore, que são independentes (as grandes distribuidoras entram apenas como distribuidoras) e contestam o american way of life. Sábado passado o TC Cult exibiu o filme Capitalismo - Uma História de Amor, o mais recente de Michael Moore, distribuído pela Paramount.

    Só que nem os filmes de Michael Moore justificam esse nome Telecine Cult.

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