quarta-feira, 9 de março de 2011

SOBRE A POLÊMICA DO "PAGODÃO" BAIANO



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Embora seja difícil dizer tudo num comentário que seja o mais sucinto possível, procurei questionar o caso do Psirico, que num comentário irritado alegou ser vítima de racismo, por conta de uma declaração de um empresário contra o vocalista Márcio Victor. O empresário, natural de Inhambupe, no interior baiano, teria usado os termos "negro" e "pobre" de forma ofensiva, para dizer que a música do Psirico incita a violência.

No ano passado, foi a vez do Parangolé sofrer racismo quando a dona de um hotel no interior de Minas Gerais definiu o grupo como "um bando de pretinhos desgraçados". Eu escrevi um texto a respeito.

Reprovo manifestações de racismo, de toda ordem. Mas episódios assim não vão transformar grupos desse ritmo medíocre em "gênios". É constrangedor que ídolos do brega-popularesco, em todas suas tendências, se usem da suposta imagem de "vítimas de preconceito" para se promoverem.

Vaidade às avessas? Sim, sem dúvida. Afinal, o "pagodão" baiano, como o resto da Música de Cabresto Brasileira, é uma música de mercado, cujo valor artístico é duvidoso. Sua credibilidade é mais publicitária, mas não é uma música para ser ouvida, e sim para ser meramente consumida pelo rádio e pela indústria fonográfica.

Sua qualidade artístico-cultural destoa seriamente da excelente música popular autêntica, que se tornou histórica, sobretudo no pré-64. Vá comparar, por exemplo, Jackson do Pandeiro, um dos grandes mestres da música pernambucana, com o Psirico. Ou vá comparar Elza Soares, ativa até hoje, com Tati Quebra-Barraco. Um abismo separa o grande ídolo popular do "grande ídolo" do brega-popularesco.

Por isso grupos como Psirico e Parangolé não vão se tornar "geniais" porque foram vítimas de racismo. O racismo cometido contra eles é um violento erro, que de fato merece prisão e outras sanções legais. Mas não seria racismo silenciar quanto à mediocridade artística desses grupos, diante de um rico patrimônio que gerações e gerações de negros (sobretudo escravos, cuja criatividade artística perdeu-se no tempo) deixaram e deixam para nós?

Sim, seria um racismo da linha do livro de Ali Kamel, um racismo mascarado pelo politicamente correto. Seria uma forma de dar superioridade a manifestações da mediocridade artístico-cultural, que podem partir tanto de um "pagodão" ou sambrega feito por negros quanto por galãs "galegos" que fazem breganejo, incluindo o dito "universitário".

Até a atitude de Márcio Victor no trio elétrico foi grosseira e oportunista. Quem quiser que clique no post do blog de Nassif, que tem o vídeo.

E, em parte, com todo o seu grave erro e seu crime de racismo, o empresário de Inhambupe está certo numa coisa: o "pagodão" baiano incita, sim, a violência (sobretudo contra a mulher), vide sucessos como "Tapa na Cara", "Toma, toma", "Pancadinha", "Madeirada" e outros.

Comentário publicado no blog do Luíz Nassif

Por Alexandre Figueiredo

Eu abomino manifestos de racismo deste tipo, que vitimam os integrantes do Psirico e Parangolé, mas quero fazer uma crítica a eles. Infelizmente, o tipo de som que eles fazem e o próprio perfil cafona que eles expressam dá a deixa para reações desse tipo, que são certamente abomináveis.

Mas, por outro lado, isso não enobrece os músicos dos dois grupos e não acrescentará valor artístico algum, porque tais grupos simbolizam a mediocridade pós-Tchan. Grupos assim nem de longe se equiparam a grandes nomes nordestinos como Jackson do Pandeiro, que tinha um jeitão moleque mas não sucumbia à imbecilização do Brasil brega-collorido-tucano, até porque Psirico, Parangolé, assim como Tchan, Terrasamba, Harmonia do Samba e outros são apadrinhados pelo PiG regional, pela carlista Rede Bahia e pelas FMs controladas pelos amigos dos latifundiários (como Salvador FM, do deputado Marcos Medrado, baiano que sempre vota junto com Ronaldo Caiado).

Além disso, os próprios grupos desse "pagode baiano" acabam promovendo uma imagem deturpada do negro, numa distorção que supera estereótipos trabalhados em chanchadas ou programas humorísticos.

As danças são de uma pornografia abobalhada que desafia até mesmo conceitos morais mais flexíveis. As letras são medíocres, e muitas vezes investem na balbuciação pura e simples ("uisminoufay", "tchibirabiron"). Melodicamente, são muito fracos.

Alguns temas são machistas ("tapa na cara", "toma madeirada", "pancadinha"). E, no palco, tais grupos mostram uma insegurança enorme, "interagindo" com a plateia de forma desajeitada e maçante. Cheguei a ver, num vídeo, num festival de música em Salvador, um vocalista de um grupo de pagode ficar hesitando no palco quando, de repente, dá uma risada "engraçadinha" e fica pulando sem mais nem menos. Mas a coisa vai para a imprudência: o marido de Scheila Carvalho e vocalista do grupo Raghatoni, Tony Salles, chegou a passar mal por desidratação, numa das primeiras apresentações do grupo.

Não dá para ser politicamente correto e achar que tais coisas são puramente inocentes. Somos um país de valiosas contribuições da cultura negra. Tivemos um grande cientista social, o geógrafo Milton Santos, um dos maiores intelectuais que o mundo teve a oportunidade de conhecer. Temos grandes escritores, poetas, músicos, atores, e outras profissões, com negros brilhantes. Na música, um nome como Milton Nascimento é um exemplo de grandioso valor artístico e cultural, vinda de um negro de origem pobre e de um talento natural e poderoso.

O problema é sofrer a "síndrome de Ali Kamel" (pergunte ao PHA que ele sabe) e achar que o Psirico e o Parangolé são "geniais" porque sofreram racismo. Aí não se pode. O racismo que seus integrantes sofrem é condenável, merece punição de acordo com a lei, mas isso não faz com que esses grupos, musicalmente medíocres, se tornem de repente "salvadores" da cultura nacional.

Temos que botar os pingos nos "is" e ver os erros aonde eles estão. Sejam os erros dos racistas que agiram contra Psirico e Parangolé, seja a mediocridade artística destes dois grupos.

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