segunda-feira, 7 de março de 2011

SÍLVIO SANTOS, "COLEGAS DE TRABALHO" E GAL COSTA



Por Alexandre Figueiredo

Um incidente no Programa Sílvio Santos foi pouco divulgado, mas mostra o quanto está a cultura de nosso país.

Certa vez, o famoso apresentador e empresário perguntou à sua plateia feminina, que ele chama de "colegas de trabalho", se conhecem a cantora Gal Costa. Boa parte das presentes, em coro, disse que não, o que deixou o animador espantado, ainda que mantendo seu tradicional senso de humor.

Isso se torna grave, porque as "colegas de trabalho", em sua maioria, correspondem a mulheres ligadas à classe média baixa ou à classe pobre com alguma emancipação, o que poderia significar um nível mediano de informação.

Mas o grave mesmo é que o desconhecimento envolve Gal Costa, uma das maiores cantoras do país, uma das mais conhecidas personalidades da Bahia, que poderia ao menos ser tão conhecida quanto Roberto Carlos, que aliás havia composto, com Erasmo Carlos, a música "Meu Nome é Gal" especialmente para a baiana.

Gal Costa não é qualquer cantora, foi um dos principais nomes do Tropicalismo, apresentou o som de Janis Joplin aos brasileiros (ela era influenciada pela blueswoman do psicodelismo), gravou seu álbum de estreia junto com Caetano Veloso, e teve o jogo-de-cintura suficiente para, depois dos anos 80, arrependida de ter participado da máquina globo-brega de Sullivan & Massadas, voltar à boa MPB gravando apenas bons compositores.

É um ponto a menos para o "esquerdista profissional" Pedro Alexandre Sanches, cujo falso esquerdismo havia antecipado, na crítica musical, as novas aventuras de Gilberto Kassab na política brasileira.

Isso porque Sanches, sacerdote moderno, conhecedor dos segredos da Música Popular Brasileira do passado - junto a outros "papas" da Idade Mídia como Hermano Vianna, Paulo César Araújo, Rodrigo Faour e Ronaldo Lemos - , têm o direito de conhecer a trajetória de Gal Costa desde os primórdios, como outros nomes da MPB autêntica, mas atua como propagandista das tendências brega-popularescas que vibram os cofres da Rede Globo e da Folha de São Paulo.

O coitado do povo paraense não pode conhecer a Gal Costa que PAS e outros "iluminados" conhecem bem e guardam como segredo em suas discotecas privilegiadas. Tem que esperar que Gaby Amarantos grave algum cover da fase áurea de Gal Costa. O mesmo caso para o povo baiano, esperando que Ivete Sangalo cumpra tal "missão".

O duro é ver Gaby Amarantos ou Ivete Sangalo gravarem, por exemplo, a trágica "Divino Maravilhoso", já que, no meio brega-popularesco, versos como "É preciso estar atento e forte / Não temos medo de temer a morte", soa muito amargo para a "alegria" organizada que todas as tendências ditas "do povão" representam.

Se nomes como Gal Costa ou o mestre Luiz Gonzaga são "desconhecidos" do "povão", então a situação é muito grave. Talvez tão autistas quanto Ana de Hollanda na avaliação de Emir Sader são os blogueiros que tão alegremente saúdam Pedro Sanches ou similares como os "deuses" da historiografia cultural.

Fazem isso sem saber do tendenciosismo que faz intelectuais assim estarem mais afinados com o circo popularesco da grande mídia do que com as lutas sociais dos blogueiros realmente progressistas.

É dessa festa que Gilberto Kassab e Kátia Abreu gostam.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...