sexta-feira, 4 de março de 2011

POR QUE A INTELECTUALIDADE NÃO QUESTIONA O BREGA-POPULARESCO?



Por Alexandre Figueiredo

A indiferença da intelectualidade de esquerda quanto às questões relacionadas ao brega-popularesco, a "cultura popular" difundida pelos barões da grande mídia e da indústria do entretenimento, assusta.

Em vez de arriscarem algum questionamento mais consistente, acabam se iludindo com a tendenciosa e suspeitíssima tese de "cultura da periferia", difundida pelos seus pares num discurso engenhoso, mas que tem clara intenção de propaganda publicitária.

Afinal, essa abordagem que seduz a muita gente, mesmo a professores e pesquisadores, ainda que seja aparentemente solidária às classes populares, em nada diverge dos interesses de manipulação sócio-cultural promovida pelos barões da grande mídia.

Pelo contrário, a defesa de tendências musicais, comportamentais, humorísticas ou jornalísticas ligadas ao brega-popularesco chega mesmo a estabelecer um contraste violentíssimo com a análise política das lutas sociais e dos problemas acerca da mídia brasileira.

Todos se esquecem, portanto, que o Brasil brega-tropical de Pedro Alexandre Sanches contrasta violentamente com o Brasil de Venício A. de Lima, Emir Sader, Altamiro Borges e Fábio Konder Comparato.

Em compensação, quando vemos textos sobre tecnobrega, forró-brega, "funk carioca" e outras tendências brega-popularescas, publicados pela Folha de São Paulo e O Globo, até parece que Pedro Sanches continua escrevendo lá.

Pior: Caetano Veloso em sua fase demotucana ainda se afina assustadoramente com o eterno "crítico da Folha", por enquanto tentando se associar a uma mídia esquerdista na qual, no fundo, não se sente à vontade.

A falta de senso crítico, no âmbito do brega-popularesco, diante da postura de "passividade bovina" de uma intelectualidade sonhadora, faz com que valores retrógrados que impedem o povo pobre se de evoluir intelectualmente e moralmente, sejam aceitos comodamente dentro do pretexto politicamente correto de "valores da periferia".

VALORES ELITISTAS E DOMESTICAÇÃO DO POVO POBRE

A postura sorridente dessa intelectualidade esquerdista acaba abrindo caminho para reações esnobes de gente como Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e outros, de uma facção da imprensa direitista que, numa postura de extrema-direita, adota um protecionismo sócio-cultural das elites mais ricas.

Dessa forma, temos a Veja e o Estadão que, na maioria das vezes, zelam pelos interesses elitistas das classes mais conservadoras, agindo pela defensiva. Mas veículos não menos conservadores como O Globo, Folha e, acima de tudo, Rede Globo de Televisão, sem deixar de seguir o propósito dos outros dois veículos, adotam outra medida, formatando a "cultura popular" de forma que as classes populares se tornem domesticadas, passivas e conformistas.

Esses valores atribuídos erroneamente à "verdadeira cultura popular", na verdade, são uma forma elitista de ver o povo pobre sempre como uma massa inferiorizada, medíocre, de valores baixos, sejam grotescos ou piegas.

Só que, no politicamente correto, essa mediocridade cultural não é assumida no discurso. Pelo contrário, vemos a hipócrita exploração da visão do "outro", que esconde os preconceitos de quem defende essa "cultura". Mascaram-se preconceitos, sob o cínico conceito de que "para mim, o povo pode ser inferior, mas isso é, para eles, uma cultura superior e perfeita".

MEA CULPA?

Esses preconceitos gentilmente mascarados por um discurso "benevolente", que atrai setores da opinião pública pela sua retórica habilidosa e utópica - mas que vai contra as lutas sociais das classes populares, uma vez que o povo só é "valorizado" quando faz papel de idiota no rádio FM e na TV aberta - podem parecer uma tentativa de "mea culpa" de uma classe média alta tradicionalmente elitista.

Essa visão dominante sobre a dita "cultura das periferias", que nos últimos dez anos se multiplicou em blogs, redes sociais e textos na imprensa e nas publicações acadêmicas, entre outros recursos midiáticos, na verdade é uma tentativa da classe média alta de parecer boazinha com "as periferias", sem que permita que o povo se emancipe da manipulação da grande mídia conservadora e manipuladora.

Mas se a intelectualidade em geral pretende adotar uma postura realmente progressista, é necessário que seja rompida essa postura, que não assusta os barões da grande mídia, que riem nos bastidores toda vez que alguém escreve na mídia esquerdista elogiando o "funk", o tecnobrega, as popozudas, ou jornais tipo Meia Hora.

É necessária essa ruptura com essa visão paternalista com o povo pobre, porque as transformações sociais no mundo inteiro sugerem uma postura mais crítica, e não resignada ou apologética.

A atitude de defender o brega-popularesco torna-se, no contexto atual, vergonhosa para a intelectualidade mundial, que não aprovaria esse desperdício intelectual de aceitar o que se oferece "pronto" pela grande mídia conservadora.

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