domingo, 6 de março de 2011

PEPE ESCOBAR: O FIM DO FIM DA HISTÓRIA


PROTESTOS NO BAHREIN - PARTE DO PESADELO DE FRANCIS FUKUYAMA.

COMENTÁRIO DESTE BLOG: Pepe Escobar mudou muito, para melhor. O jornalista paulistano dos anos 80 era uma espécie de David Nasser mais pop, com um excelente talento para escrever textos, mas cometendo pecados como inventar entrevistas que nunca existiram ou fazer resenhas de discos a partir de palpites dos outros. Felizmente isso acabou e Pepe passou a ser um ótimo cronista político, vivendo no exterior e escrevendo para o Asia Times.

E aqui ele ainda dá uma beliscada em Francis Fukuyama, que deve estar tremendo de medo com os rumos que acontecem no Oriente Médio.

O fim do fim da história

Por Pepe Escobar - Asia Times Online

How does it feel to be on your own, like a complete unknown, like a rolling stone ("Like a Rolling Stone", Bob Dylan), cruzando as areias do deserto, uivando para a lua que o fim do fim da história é hoje?

As categorias ideológicas ocidentais jazem mumificadas na tumba. Nada de dicotomia, necas de “choque de civilizações”, entre a democracia parlamentar ocidental e o Islã.

O esloveno Slavoj Zizek, o Elvis Presley da filosofia, disse à al-Jazeera há algumas semanas que a verdadeira tragédia das nações árabes foi o sumiço de qualquer esquerda forte, secular. Não surpreende. Os ditadores apoiados pelos EUA no MENA (ing. Middle East/Northern Africa) mataram ou exilaram os melhores e os mais brilhantes dos intelectuais progressistas.

Agora se pode pelo menos sonhar que a ideia de combater governos incompetentes/corruptos em nome da justiça social no Médio Oriente/Norte da África [em português, talvez, MONA? (NTs)] venha a contaminar a Europa e os EUA (como, de fato, já contaminou: “do Cairo a Wisconsin”) – e que raia um novo dia para os movimentos dos trabalhadores que padecem sob a ‘austeridade’ e os ‘ajustes estruturais’ inventados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Novos proletários internacionalistas do mundo, classe de 2011, uni-vos.

E como não se maravilhar, agora que o neoliberalismo aplicado ao mundo árabe também fez emergir grupos islâmicos capazes de converter em ação política a profunda e vasta fúria coletiva provocada pela horrenda má distribuição da riqueza comum?

Qual é a sensação de rir, rolar de rir, desses neoliberais ridículos, depois dos anos e anos que consumiram para convencer o mundo de que os árabes poderiam ser livres se quisessem ser livres, mas que eles, de fato, nem sabem que querem ser livres e nunca aprenderiam sozinhos, motivo pelo qual precisariam do Pentágono para despertá-los para a realidade, “com choque e pavor”?

Enquanto isso, sionistas e sionistas-conservadores, aí, hoje, pedindo aos céus que surja no Egito qualquer governo, islâmico que seja, desde que seja pelo menos um pouco moderado, qualquer governo serve, desde que considere a possibilidade de preservar os acordos de 1979 em Camp David e aceite não discutir os anos, as décadas, da tragédia dos palestinos. Talvez consigam.

Como não festejar que as revoluções tunisiana e egípcia sejam revoluções seculares e nacionalistas – com o que, só por isso, já arrancaram a revolução iraniana do trono de única revolução possível, mas segundo a qual o Xá do Irã, apoiado pelos EUA, teria sido derrotado pelo Islã como ideologia?

Trata-se pois de “um, dois, três… Lutamos por o quê(s)?” Lutamos por um, dois, três, mil revoluções, não contra a velha tirania de ter de aceitar um ou outro velho tirano, mas contra toda a tirania de toda a arquitetura da ‘realidade’ inventada pelo Tesouro dos EUA/FMI/Banco Mundial.

Nacionalismo árabe, solidariedade árabe nacionalista, Al-Jazeera árabe nacionalista, a Internet como uma super al-Jazeera – tudo aí, para todos os árabes verem e fazerem, eles mesmos. E o ocidente não tem plano B – nem qualquer sinal de alguma “transição ordeira” à moda Barack Obama/Hillary Clinton, para o Bahrain, o Iêmen, a Líbia.

E, contudo, a revolução ainda nem começou.

A dinastia sunita no Bahrain continuará a representar um drama shakespeareano árabe. Como se lê em telegrama de 2009 publicado por WikiLeaks, o rei Hamad continuará a “transferir gradualmente o poder”, do poderoso primeiro-ministro Khalifa bin Sal Al-Khalifa, para o filho, príncipe coroado Salman. O primeiro-ministro é tio do rei e tio-avô do príncipe coroado. Enquanto isso, o Serviço de Segurança Nacional do Bahrain, comandado por Sheik Khalifa bin Abdullah al-Khalifa, continuará a receber ordens da CIA-EUA.

O Conselho de Cooperação do Golfo [ing. Gulf Cooperation Council (GCC)], chamado “forte aliança tribal”, usará tanques, jatos, mercenários, o que for preciso, para impedir qualquer mudança no regime do Bahrain-elo-mais-fraco. Afinal de contas, o Conselho de Cooperação do Golfo – Bahrain, Qatar, Kuwait, Omã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos – repousa sobre 45% das reservas mundiais de petróleo, e não se pode deixar escapar a coisa, em nome da “democracia”.

E mesmo quando a al-Qaeda jaz tão moribunda quanto Mubarak, absolutamente sem qualquer influência ideológica ou sociológica no norte da África, estridentes vozes imperiais continuam a alertar contra o perigo de a Líbia degradar-se até o status de Somália gigante. Como se, amanhã, o “Doutor Egípcio”, Ayman al-Zawahiri, subitamente se materializasse no leste libertado da Líbia, e se candidatasse ao emprego de novo emir. Aí, sim, haveria choque de civilizações!

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