terça-feira, 15 de março de 2011

PEDRO CAETUCANO SANCHES



O que faz a imprensa de esquerda publicar textos de Pedro Alexandre Sanches é um mistério. Acompanhando com atenção os textos publicados por ele, vamos notar que, mesmo de forma implícita ou sutil, sua abordagem expressa conceitos de teóricos neoliberais como Francis Fukuyama, Roberto Campos, Auguste Comte e outros.

Só lendo o texto Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais, nota-se claramente que Pedro Alexandre Sanches descreve exatamente a tese do "Fim da História", lançada por Francis Fukuyama em 1992, aplicada à Música Popular Brasileira.

Associando este texto a outros do mesmo autor, esse "Fim da História" se manifesta pelo encerramento daquela boa fase da MPB que nos deu tanto Ataulfo Alves, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Elizeth Cardoso como Tom Jobim, Chico Buarque, Elis Regina e Edu Lobo.

Da mesma forma que Fukuyama fala que foram superados os movimentos sociais, as agitações políticas, e tudo o que resta à humanidade atual é usufruir das benesses do consumo no mundo neoliberal, Sanches revela que aquele patrimônio cultural que tanto nos encanta e fascina agora é coisa de museu, e que cabe a nós, brasileiros, apenas usufruir do consumo da "cultura das periferias" (eufemismo para o brega-popularesco patrocinado pelo PiG).

Não vamos aqui alongar as contradições das ideias lançadas por Pedro Alexandre Sanches, coisa que já fizemos em outros textos e, se preciso, faremos mais em outra oportunidade.

O que vamos mostrar aqui é um exemplo do falso esquerdismo de Sanches, que se comporta mais como um "esquerdista profissional", desses cujo convívio com os jornalistas de esquerda não vai além do protocolo POP3 de transferência de mensagens de e-mail.

DE PÁRA-QUEDAS

Vale lembrar que, antes de Pedro ser o queridinho dos "progressistas frágeis" (pessoas que ainda parecem crianças deslumbradas e acríticas diante da mídia esquerdista e que expressam a famigerada "passividade bovina"), ele era um dos principais críticos da Folha de São Paulo e havia ainda colaborado para a revista Época, das Organizações Globo, e Bravo, do Grupo Abril.

Pedro Sanches caiu na imprensa esquerdista de pára-quedas. Ele não integrou a geração de dissidentes da Folha, como José Arbex Jr. e Marilene Felinto, que saíram do jornal bem antes de 2005. Ainda nesse ano, Sanches escrevia para a Folha. Durante o hype do "funk carioca", ele ainda servia ao seu amo Otávio Frias Filho quando entrevistou Tati Quebra-Barraco.

Pedro Sanches foi "enfiado" na mídia esquerdista por razões misteriosas. Dizem que foi o ECAD que o jogou para a imprensa de esquerda. Outros rumores indicam que ele foi a "moeda de troca" do IVC e da distribuidora DINAP (do Grupo Abril) para aceitarem comercializar em larga escala os três principais periódicos da imprensa de esquerda do Brasil, Carta Capital, Caros Amigos e revista Fórum.

Ele também teve dois livros publicados por uma editora de esquerda, Boitempo (que lançou o excelente livro Cães de Guarda, de Beatriz Kushnir). Um sobre a Tropicália, outro sobre Roberto Carlos.

Nota-se que os dois grandes ídolos em questão, Caetano Veloso e Roberto Carlos, são hoje relacionados à ideologia direitista. Em 1971 o cantor capixaba, recentemente homenageado pela escola de samba Beija Flor, afirmou explicitamente numa entrevista que era uma pessoa de direita. E isso quando era arriscado assumir uma postura assim, porque a direita estava associada à campanha de repressão, censura e tortura que entristecia e revoltava o povo brasileiro.

POSTURA DISTANCIADA

Vendo o blog de Pedro Alexandre Sanches, em seus dois mais recentes textos - pelo jeito, o colunista-paçoca está de férias - , em três pequenos textos, "do lado esquerdo do peito", "coroa e cara de menina (ou) a inquisição da idade média" e "ser o dono da verdade" (os títulos ele escreve só em minúsculas), nota-se o superficialismo expresso no suposto esquerdismo do jornalista.

É claro que, como todo jornalista profissional, há momentos de superficialismo quando mostra-se que não há intimidade no assunto. O jornalista tem que ter jogo de cintura para pelo menos fazer um texto correto e menos pedante possível sobre tal assunto, porque, em muitos casos, é ele o escolhido para fazê-lo. O editor então lhe orienta a pesquisar e fazer as devidas entrevistas. Muito jornalista iniciante tem experiências assim.

Mas para um jornalista tão festejado por setores chamados de "esquerda festiva" (a "esquerda" alfabetizada há 20 anos pela Ilustrada da FSP), esse superficialismo mostra o quanto seu esquerdismo é de fachada.

Nota-se, nos três textos, uma postura "esquerdista" distanciada, forçada, feito só para agradar os amigos, coisa que eu já notei também na revista Piauí (que descobri depois ser tutelada pelo Estadão, se tornando um crossover direitista de Pasquim e Caros Amigos). Nota-se também a clara influência de Caetano Veloso (hoje colunista de O Globo) nas resenhas escritas por PAS.

No texto "do lado esquerdo do peito", ele apenas faz chover no molhado falando da manjadíssima amizade entre Lula e Dilma Rousseff. Um texto até desnecessário, que em nada acrescenta aos fatos. Parece redação de criança, e que mostra o quanto PAS tem pouca intimidade com o meio esquerdista no qual está (profissionalmente) envolvido.

Há o texto "coroa e cara de menina (ou) a inquisição da idade média", que expressa uma sutil defesa do casamento por conveniência do casal Michel Temer e Marcela, cuja problemática não cabe aqui discutir. Uma defesa que vai no caminho do politicamente correto, e num certo temor-fascínio em relação ao casal, um temor ao Temer, que, como político, nunca foi grande coisa, mas têm sua reputação aumentada gratuitamente por conta da beleza encantadora de sua jovem mulher.

Já o texto "ser o dono da verdade", Sanches força muito a barra. De repente ele deu para "atacar" Folha de São Paulo, Globo e Veja, um ataque de mentirinha que me faz lembrar do Cabo Anselmo em 1964 falando mal do imperialismo dos EUA.

Talvez faça até sentido que Sanches dispare contra extremo-direitistas como Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Miriam Leitão, mas fazer como em outro artigo, quando ele cita o "velho estilo Folha" com uma aparente aversão, significa fazer injustiça com os antigos mestres. Até Paulo Henrique Amorim ou mesmo Rodrigo Vianna são muito mais elegantes (apesar do humor corrosivo de PHA) e ponderados quando dirigem críticas à Rede Globo onde antes trabalharam.

Nesse texto, Sanches descreve um tipo de jornalismo "exotérico", tipo de Zora Yonara e Oscar Quiroga, para temperar sua postura aparentemente pró-PT (Gilberto Kassab deve ter lido muito PAS para adotar sua atual postura política). Ele cita até Marcelo Tas (hoje alinhado com a direita) nas críticas aos jornalistas que querem "julgar" o governo Dilma como se fossem pretensos videntes.

DOIS BRASIS

Apesar da postura "solidária" a Dilma, nota-se o quanto Pedro Alexandre Sanches está distanciado. É muito fácil colocá-lo ao lado de blogueiros progressistas ou analistas de esquerda, mas nota-se, com surpreendente evidência, o abismo que separa o Brasil da "MPB que aceita o brega-popularesco como seu filhote adotivo" de Pedro Alexandre Sanches e o Brasil dos movimentos sociais e das questões políticas de Mino Carta, Renato Rovai, Rodrigo Vianna, Emir Sader e Venício A. de Lima.

Isso sem falar que o Raphael Tsavkko Garcia que definiu a música de Ivete Sangalo de ruim - o que ele diria então do "funk carioca", do "pagodão" baiano, do "neo-forró" (forró-brega) e do tecnobrega... - escreve na mesma revista Fórum que recebe os artigos de um Pedro Alexandre Sanches acomodado em seu apê.

Nota-se também uma certa linguagem neo-caetânica de Pedro Sanches - no fundo, não menos direitista que Marcelo Tas - , em todos os seus artigos, às vezes num discurso mais sofisticado, em outras em jargões tipo "cê tá entendendo?", "cê tá ouvindo?", "cê tá escutando".

Não por acaso, o Caetano Veloso que ensinou a intelectualidade etnocêntrica a defender o brega-popularesco (neste sentido, Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo e Hermano Vianna são seus "filhos") teve como um de seus discos mais recentes intitulado . Cê tá ouvindo, cê tá entendendo, PAS?

Sim, o mesmo Caetano Veloso que disparou ataques ao sociólogo Emir Sader, figura ilustre nos três periódicos de esquerda acima citados. O mesmo Caetano que está de mãos dadas com Ferreira Gullar e Fernando Gabeira na corte do príncipe dos sociólogos, Fernando Henrique Cardoso.

Adotar uma postura requer responsabilidades, identificação com a causa. Se comportar como uma criança de uma família recatada que quer ser surfista porque é legal, desconhecendo os riscos, macetes e condições diversas para sê-lo, e adotar um esquerdismo de fachada só para agradar algum amigo ou tirar vantagem fácil, é uma demonstração de incoerência que cobrará seu preço no futuro.

Por isso Pedro Alexandre Sanches comete a incoerência de, jornalista formado pela Folha de São Paulo, continuar transmitindo uma visão neoliberal do que ele entende como "cultura popular". Daí o grande contraste que tem ele, numa página de Caros Amigos, lamentar que o Calcinha Preta "não possui reconhecimento artístico", e uma abordagem esquerdista de outros articulistas sobre as relações de poder político-midiáticas do Norte-Nordeste, que são responsáveis justamente por empurrar o ridículo Calcinha Preta para o consumo de plateias subordinadas ao coronelismo eletrônico regional.

Também não é preciso detalhar o contraste violento entre um Pedro Alexandre Sanches que desconhece o poderio midiático do Pará e tentou empurrar o tecnobrega para a capa da revista Fórum (o que fez a revista encalhar na referida edição), enquanto um jornalista sério como Lúcio Flávio Pinto sabe muito bem o apoio do latifúndio e da mídia golpista local e nacional para esse entretenimento caricato do brega-popularesco.

É preciso que tomemos cuidado com pretensos esquerdistas. É preciso vermos se eles realmente têm essa postura de forma sincera e espontânea. Não é suficiente dizer que sim, se a realidade prova o contrário.

Não adianta se dizer esquerdista e falar no "deus mercado" como se fosse um Papai Noel pós-moderno, como se vê naqueles que defendem a pseudo-cultura "popular" do brega-popularesco.

Pensar assim é rigorosamente o mesmo que os colonistas da mídia golpista, que no seu enfoque político-econômico desejam ver um povo pobre subordinado e tratado de forma paternalista pela burguesia nacional e pelos investidores estrangeiros.

Nesse sentido, gente como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches equivalem justamente a uma tradução cultural dos mesmos temíveis jornalistas da Rede Globo, O Globo, Folha, Estadão e Veja.

Não é à toa que, nos últimos anos, a falta de desconfiômetro de boa parte da opinião pública, que deixou que Mário Kertèsz, Eugênio Arantes Raggi, Eduardo Paes, Gabriel Chalita e até Paulo Maluf e Fernando Collor usurpassem a esquerda em proveito próprio, agora assiste passiva à adesão de um Gilberto Kassab que manda a polícia bater nos estudantes e uma Kátia Abreu que representa os interesses dos grandes proprietários de terras. Ambos com Ivete Sangalo a tiracolo.

Será que daqui a cinco anos vamos ficar felizes e encarar com naturalidade uma Kátia Abreu se passando por esquerdista? Será que vamos ser mais uma vez golpeados pela síndrome da memória curta que tanto faz a péssima imagem do Brasil até no exterior?

Chega de tanta ingenuidade.

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