sábado, 26 de março de 2011

O QUE FAZ ALGUÉM SER PSEUDO-ESQUERDISTA?



Por Alexandre Figueiredo

O que faz alguém ser pseudo-esquerdista?

Nos últimos dez anos, o pseudo-esquerdista tornou-se um dos mais frequentes fenômenos na sociedade brasileira, e anda mais atrapalhando do que ajudando na evolução de nosso país.

Pseudo-esquerdista é aquela pessoa, alinhada com qualquer valor conservador ainda vigente, seja no ramo da política, da economia ou da cultura, que no entanto adota uma posição aparentemente esquerdista.

Como o poder político de hoje é predominado por forças políticas de centro-esquerda, vários setores conservadores de nossa sociedade correram para o lado progressista, como urubus voando sobre carniça na praia.

De repente, vemos pessoas com alguma posição reacionária que, de repente, adotam posturas "esquerdistas", bajulando Che Guevara, fazendo falsos ataques a ícones da direita, e por aí vai. Uns até são tão reacionários que talvez a postura "esquerdista" seja uma forma de fazer eles ficarem menos visados.

Muitos motivos fazem com que a "nação conservadora" migre para o apoio à centro-esquerda. Certamente, não se trata de uma opção incondicional. Sempre existe alguma conveniência, se lembrarmos de três "tradições" da sociedade brasileira:

1) O BRASIL GERALMENTE REALIZA "RUPTURAS" COM A AUTORIZAÇÃO DO PODER VIGENTE - Em outras palavras, quase nenhuma mudança ocorrida no país ocorre através do rompimento total da estrutura do poder vigente, mas com o apoio de parte de seus detentores, ainda que estes sejam dissidentes.

2) FALSA MODÉSTIA É UM VÍCIO DO POVO BRASILEIRO - A mania de muitos brasileiros de obter falsa modéstia ou vestir a máscara dos tipos sociais excluídos para impressionar as pessoas. Aí todo mundo é "nerd", todo mundo "foi vítima de bullying", todo mundo "é proletário", todo mundo é "tímido", todo mundo é "pobretão", todo mundo é "socialista", todo mundo é "excluído social", todos "são discriminados e sofrem preconceito".

3) MEMÓRIA CURTA DOS BRASILEIROS - A tradicional tendência para o esquecimento faz com que muitos conservadores de outrora, não raro reacionários e até canalhas, passem a adotar posturas falsamente progressistas que são toleradas e até respaldadas por quem deveria repudiar gente desse tipo.

Através desses três aspectos, o pseudo-esquerdista surge para minimizar os efeitos das mudanças sociais, se passar por "injustiçado social" e verificar que as pessoas esqueceram seu passado reacionário, que não obstante ainda não foi superado.

O pseudo-esquerdista pode ser apenas um "simpatizante", como vemos em pessoas como Mário Kertèsz, Gilberto Kassab, Eduardo Paes e Ivete Sangalo, ou um "integrado", como Pedro Alexandre Sanches, Eugênio Arantes Raggi, Paulo Skaf e Gabriel Chalita.

Os "simpatizantes" se tornam pseudo-esquerdistas por associação, ainda que não sejam exatamente figuras declaradas de "esquerda". Mas os "integrados", apesar de terem um background direitista, passam a ser oficialmente tidos como "integrantes de esquerda".

As manobras que fazem os pseudo-esquerdistas se projetarem é geralmente um paternalismo de apelo bem populista, um espírito de aparente generosidade com o povo, ainda que essa generosidade seja muito, muito falsa, ou então superficial.

Há também uma postura de falso desdém em relação aos símbolos e valores da direita, como se o pseudo-esquerdista nada tivesse a ver com eles. Por exemplo, a Rádio Metrópole, de Mário Kertèsz, veiculando críticas à "grande mídia", Eugênio Raggi "falando mal" do Cabo Anselmo (no fundo, seu "mentor" ideológico), da turma da Veja e do resto do PiG, ou Pedro Alexandre Sanches "atacando" a Folha de São Paulo que tanto o acolheu como um filho.

Aliás, a Rede Globo, como é muito visada, torna-se alvo comum dos ataques de vários pseudo-esquerdistas. É mais fácil apedrejar um leão ferido. Mas os comentários, além de nada serem criativos, presos a clichês ou comentários forçados, são passíveis de certos exageros.

Exemplos desses exageros são dizer coisas tipo "tudo que a Globo produz é um lixo" ou "a Fátima Bernardes é uma bruxa velha e feia". Em muitos casos, o exagero mascara uma certa hipocrisia, como o fato de vários desses pseudo-esquerdistas verem felizes o Domingão do Faustão e o Globo Esporte.

Em outros casos, há também ataques forçados à Veja (outro leão ferido), mas ainda são raros os ataques à Folha de São Paulo, até porque, durante muito tempo, esta publicação foi o jornal predileto dos pseudo-esquerdistas, que a viam então como um totem sagrado e inquestionável.

Observa-se também que o esquerdismo forçado também não é muito corajoso. O aparente apoio se limita a algumas figuras badaladas do PT ou do PSOL, à leitura apressada de Caros Amigos e Carta Capital, à óbvia bajulação a Che Guevara, a ataques forçados e falsos ao imperialismo e ao FMI, e à consulta de blogues progressistas mais flexíveis, como Conversa Afiada, Brasilianas.org e Viomundo. Ler o Blog do Miro? Nem pensar. Angry Brazilian? Nem sonhando!

As conveniências fazem pessoas agirem assim. Às vezes, ocorrem desavenças pessoais - porém não ideológicas - que fazem certos direitistas "abandonarem o barco". Em outras, há o desejo simples de sobrevivência pessoal - em outras palavras, o desejo de não perder privilégios - ou de obtenção de novas vantagens pessoais.

Muitas vezes a postura "esquerdista" não é integral. Num dado momento, sempre aparece algum reacionarismo. Como é o caso de Marcos Medrado, político do antigo PDS baiano que hoje está filiado ao PDT. No entanto, ele nada tem a ver com as lutas populares que marcaram o partido brizolista - parece que Brizola "inexiste" no PDT baiano - e ainda defende os interesses dos latifundiários do país.

Dessa forma, temos que nos preparar. Romper a memória curta e verificar os direitistas que hoje se escondem na esquerda. E nos prevenir para que a memória curta não venha fazer com que no futuro Kátia Abreu, Gilberto Kassab, Álvaro Dias e outros sejam encarados naturalmente como "esquerdistas".

Tem certas paçocas que causam dor de barriga. E de consciência também.

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