terça-feira, 1 de março de 2011

O EMPRESARIADO OCULTO DO BREGA-POPULARESCO



Por Alexandre Figueiredo

Eles usam calça jeans ou calça tactel. Geralmente usam uma camiseta de torcedores de time de futebol americano, falam muitas gírias, usam tênis, usam e abusam dos gestos informais, da pretensa jovialidade. Outros usam camisas polo, com jeans comuns e tênis, mas adotam a mesma postura informal. Mas todos sempre capricham na camaradagem aparente, são comunicativos e descontraídos.

Todavia, por trás dessa aparente informalidade, existe um perfil oculto de empresários gananciosos, sedentos por poder e por riqueza. Eles são os empresários do brega-popularesco, geralmente ligados a agências de talentos, casas noturnas (ou galpões reservados às apresentações ao vivo dos "ídolos do povão"), "pequenas" gravadoras regionais e produtoras de eventos locais.

Confundidos, na retórica do brega-popularesco, com "simples populares", eles, apesar da origem pobre, são ricos o suficiente para adquirir um primeiro latifúndio. Vários deles são até fazendeiros. Mas entregam a "administração" de suas grandes fazendas a terceiros, para que assim os "humildes empresários" sejam difíceis de serem identificados como proprietários de terras.

Os empresários de brega-popularesco envolvem sobretudo os estilos mais "rudimentares", já que os estilos ditos "sofisticados" - a elite da axé-music, o dito "sertanejo" (breganejo) e o "pagode romântico" (sambrega) - , tidos como "independentes", são sustentados pela indústria fonográfica, pelas redes de televisão e pelas grandes redes de atacado e varejo, incluindo supermercados e lojas de eletrodomésticos.

É o "funk carioca" no Rio de Janeiro, o "forró eletrônico" no Norte e Nordeste, o arrocha na Bahia, os escalões inferiores do porno-pagode baiano (quando não é apadrinhado pelos medalhões da axé-music), a tchê-music, o tecnobrega e outros, incluindo o "brega de raiz".

São empresários que estão por trás do controle dos espetáculos, da divulgação e mesmo da carreira dos próprios ídolos, muitas vezes com mãos-de-ferro, o que derruba de vez a tese de "expressão espontânea do povo da periferia".

Primeiro, porque não dá para creditar esses empresários como "simples gente do povo". Se esses empresários têm ou não origem pobre, o que se sabe é que eles hoje não são mais pobres. São até surpreendentemente ricos, embora acusar tal condição faz vários internautas reagirem de forma cínica: "que empresário? O estilo tal tem empresário? Em que mundo você vive, seu b...", dizem de forma ao mesmo tempo hipócrita e chantagista.

Mas a verdade é que eles são empresários e vivem de forma opulenta. Muitos são donos dos próprios conjuntos musicais ou intérpretes que são equivocadamente associados à periferia. Afinal, muitos MC's do "funk", muitos grupos de "forró eletrônico" ou forró-brega, muitos ídolos do "brega universitário" ou arrocha são desprovidos de vontade própria.

Afinal, o perfil ao mesmo tempo ingênuo e domesticado desses ídolos do popularesco mais rasteiro é algo que salta aos olhos. A periferia é realmente assim? Não, mas a mídia quer que seja.

A discurseria "socializante", que tenta inocentar os barões da grande mídia da manipulação das vontades e desejos do povo pobre, enquanto seus ideólogos tentam fazer o possível para que a gente acredite que a domesticação das classes pobres é "uma demonstração da saudável inocência e da alegria inerentes ao povo brasileiro", numa retórica engenhosa, cheias de meias-verdades, mas que são altamente persuasivas.

Afinal, no entretenimento popularesco, há desde assessores de imprensa a publicitários. Todo mundo para criar um discurso que tenta trabalhar o grotesco como se fosse "coisa inocente". E o empresariado do brega-popularesco faz sua parte: ninguém aparece de terno e gravata nem de sapatos de verniz.

Mesmo em eventos de gala, por conta de premiações culturais, por exemplo, lá estão eles com calça tactel, camisetona folgada e tênis de caminhada, caprichando na informalidade e no senso de humor.

Enquanto isso, nos bastidores, são eles que decidem se o MC da hora vai gravar um proibidão ou uma "música de protesto", o que o grupo de forró-brega tem que fazer, qual o tema que o cantor de "brega universitário" vai gravar, se a moda agora é letra de bebedeira ou de obsessão por uma marca de automóvel, ou para onde vai o noivo da dançarina de pagode que vende a falsíssima imagem de "solteiríssima encalhada".

Em certos casos, se o "artista" popularesco não obedecer as ordens do empresário, a discussão é séria e as reações deste podem ser muito enérgicas, em muitos casos resultando na demissão do empregado.

Mas, para que falar esse texto todo se a intelectualidade está ainda embriagada pelas pregações de seus pares etnocêntricos, que mostram o mundo de cor e fantasia, e vendem o espetáculo brega-popularesco como se fosse a "legítima expressão das periferias".

Enquanto essas pessoas, feito focas de circo, aplaudem esses ideólogos do povo domesticado, os bastidores do espetáculo brega-popularesco mostram que a última coisa que aconteceria era a "legítima expressão cultural das periferias".

É por isso que o brega-popularesco é a moderna cultura de cabresto brasileira. E há quem ache que definir assim é "preconceito". Vá-se entender...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...