quinta-feira, 10 de março de 2011

NO BREGA-POPULARESCO, O POVO SÓ É "CRIATIVO" QUANDO "RECRIA"



Por Alexandre Figueiredo

Difícil desconstruir o discurso em prol da "cultura" brega-popularesca, "inocentemente" creditada apenas à "verdadeira cultura do povo pobre". Sabemos, através deste blog, que o discurso é confuso, mas persuasivo, e seus ideólogos possuem uma visibilidade que os faz serem uma pretensa unanimidade dentro do meio intelectual.

O discurso nem é dotado da racionalidade necessária para uma intelectualidade que se autoproclama "objetiva" e que prometa estimular a reflexão crítica da problemática da cultura brasileira. Mas nomes como Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches, evidentemente, descumprem suas promessas de estimular a reflexão crítica.

Sua retórica é cheia de marketing, é um amontoado de recursos discursivos que só servem para corroborar as teses que eles defendem, e que apenas justifica o poderio dos barões da grande mídia no entretenimento popular.

Ninguém desconfia que esses intelectuais, assim como outros - não nos esqueçamos de Paulo César Araújo, "endeusado" por uma retórica que aponta muitas falhas em sua tese (ele até agora não explicou a ausência dos ídolos cafonas nas campanhas de redemocratização do país) - , se vangloriam de uma posição de poder frente à opinião pública, como os sacerdotes da Idade Média.

Tanto uns e outros, intelectuais de hoje e sacerdotes medievais, expressavam seu poder no privilégio do saber, na detenção de supostos segredos da humanidade, e eram venerados pela sua retórica que pouco tem de coerente, mas muito tem de convincente, pela arrumação de palavras.

Ideólogos daquilo que chamam de "cultura popular", uma das teses mais suspeitas que os intelectuais de hoje trazem é que o povo é "criativo" quando "recria" o que o rádio joga para eles ouvirem. Uma tese tão inocente, supostamente atribuída à "autossuficiência das periferias", na verdade é uma atualização de uma visão colonialista de "arte" subordinada, de um mero processo de imitação do que vem de fora.

São imitações de Beyoncé, de Lady Gaga, ou porno-pagodeiros usando máscaras de super-heróis, ou de axézeiros falando de orgias sexuais entre a Mulher Maravilha e o Super Homem, isso para não dizer os antigos ídolos bregas vestidos de detetive norte-americano com chapéu de caubói.

Há também o caso de "forrozeiros eletrônicos", através dos grupos com dono (comandados por empresários) que nada fazem senão criar um engodo que junta ritmos caribenhos, disco music e country music, com estética meio faroeste, meio pirata de Hollywood, e que definem cinicamente como "som nordestino".

Vendo a gravidade dessa atitude colonialista, os ideólogos "endeusados" pela opinião pública, e seus artigos carregados de sonho e fantasia, tentam adotar alegações "caetânicas", dentro de um palavreado "modernista" estereotipado e deturpado, que credite essas "manifestações culturais" como se fosse uma aplicação de ideais modernistas que seus intérpretes nunca ouviram falar.

Com essa tese, o colonialismo seria atribuído a uma "antropofagia" (a tese modernista de Oswald de Andrade de absorver o que é de fora e recriá-lo à maneira local) que não faz sentido algum no brega-popularesco, porque existem dois tipos de assimilação do estrangeiro: a que fortalece a cultura local, por acréscimo (a "antropofagia" de Oswald) e a que enfraquece e subordina a cultura local, pela prevalência do elemento estrangeiro. Esta última é que é o caso do brega-popularesco.

Com isso, mais uma vez o povo pobre é enganado por uma retórica eugenista, de uma pretensa superioridade intelectual dos ideólogos do brega-popularesco, que, num claro tom paternalista, dizem "docilmente" que o povo só é criativo quando "recria".

Dessa forma, o discurso intelectual reafirma os interesses das classes dominantes de manter o povo subordinado e submisso, mas tendo a falsa impressão de que mantém sua autonomia e criatividade.

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