domingo, 6 de março de 2011

MEIA HORA: IMPRENSA JAGUNÇA SOFRE BAIXA EM SP



Por Alexandre Figueiredo

A classe média politicamente (in) correta está de luto, com o fim de um daqueles jornais que ela encara como catarse para disfarçar sua ojeriza ao povo pobre. Em outras palavras, é menos um jornal que faz a classe média fazer chacota dos pobres sem levar culpa.

O jornal Meia Hora, do grupo Ejesa, do carioca O Dia, perdeu sua edição paulistana. O Meia Hora SP circulou pela última vez ontem, pressionado pelas baixas vendas. E isso numa época em que o fim do jornal Notícias Populares (da famiglia Frias, da Folha de São Paulo), completa 10 anos.

Embora muitos não considerem tais jornais como "imprensa jagunça", é justamente isso o que essa imprensa supostamente popular significa. É uma espécie de "PiG da periferia", que trata o público pobre de forma caricata, preconceituosa, levando às últimas consequências a domesticação sócio-cultural do brega-popularesco.

POSIÇÃO MERCADOLÓGICA ENGANA

Talvez, num país ainda marcado pela desinformação constante, a posição mercadológica dessa "imprensa popular" engane as pessoas e a posição de "vilã", que naturalmente seria creditada a essa imprensa "marrom" (ou yellow press, pois, nos EUA, a imprensa jagunça tem outra cor, amarela, para sua definição no jargão jornalístico), é revertida a uma pretensa postura de "anti-heroína" por parte da opinião pública.

Primeiro, porque o preço dos periódicos é bem barato, inferior a R$ 1. Segundo, porque aparentemente não ataca os movimentos sociais. Terceiro, porque usa linguagem humorística. Esses três aspectos acabam dando à imprensa jagunça uma reputação "positiva", quando por outro lado ela causa estragos que deixam os barões do PiG dormirem alegremente.

CONFUSÃO COM IMPRENSA VANGUARDISTA - Em primeiro lugar, pelo aspecto da desinformação da maior parte das pessoas, essa imprensa de apelo aparentemente popular é confundida com veículos históricos da imprensa de vanguarda, como o jornal Última Hora e O Pasquim.

Essa confusão se dá porque, da Última Hora, muitos jornais populistas - como o Jornal da Bahia pós-1990, do "Berlusconi baiano" Mário Kertèsz, que deu um golpe mortal no jornal de Teixeira Gomes e João Falcão eliminando sua alma editorial - apenas imitavam o design do periódico lançado por Samuel Wainer.

Da mesma forma, do Pasquim havia a leve e longínqua semelhança da linguagem humorística, uma semelhança pequena que é superestimada por muitos.

Sabemos que isso não é verdade, porque os jornais que compõem a imprensa jagunça nem de longe possuem a inteligência que marcou Última Hora e Pasquim, que, cada um em seu modo próprio, valorizavam a cultura, a cidadania e não subestimavam a inteligência do público, mesmo aquele sub-alfabetizado.

ESTRAGOS SOCIAIS

O aspecto sombrio da "imprensa jagunça", que seus defensores definem como "paranóia", é que ela investe nos mais baixos valores sociais, "normalmente" atribuídos às classes pobres como se fosse inerente a elas, representando o pior do universo brega-popularesco ainda dominante em nosso país, mas já sinalizando para a decadência.

A "imprensa jagunça" glamuriza a violência, incita o ódio popular - é anti-jornalístico chamar criminosos de "monstros" ou "monstras" (o que é uma incorreção gramatical, porque "monstro" tem gênero fixo, sempre no masculino) - , transforma o homem trabalhador num tarado com a exploração barata do sexo vulgar, além de promover o fanatismo pelo futebol e a obsessão por banalidades.

É bom deixar claro, por exemplo, que veículos como o "inocente" Meia Hora fazem propaganda explícita do Big Brother Brasil, programa questionado por nove entre dez blogueiros progressistas e cujo apresentador, Pedro Bial, escreveu uma biografia-exaltação de Roberto Marinho, integra a cúpula do temível Instituto Millenium e é amigo dos sócios mais famosos do Opus Dei.

Por isso não dá para creditar esses jornais populistas, que tratam as classes populares como se fosse uma massa de idiotas, como se fosse uma imprensa heróica. Essa "imprensa popular" nada tem a ver com a imprensa que investe em humor com inteligência nem na imprensa que investe num jornalismo popular com cidadania e respeito. Nem essa imprensa de baixa categoria pode ser nivelada a uma imprensa sindical "despolitizada".

A imprensa supostamente popular joga no time da mídia golpista. Veste a camisa da imprensa conservadora. Age em conformidade aos interesses que os barões da grande mídia têm em relação às classes populares.

A "imprensa popular" age em conformidade com o processo de controle social das multidões, distraindo os homens com o "sexo selvagem" das "popozudas" e desviando a revolta popular das causas nobres para o ódio barato da violência. Esse tipo de imprensa em nada contribui para a democratização da informação nem para a qualidade de vida das classes populares.

O fim do Meia Hora SP é, portanto, uma boa notícia. Só não é uma ótima notícia porque outros veículos ainda continuarão explorando o filão da idiotização popular.

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