sexta-feira, 25 de março de 2011

A MEDIOCRIDADE CULTURAL E SEUS PALIATIVOS


NÃO É À TOA QUE ANA MARIA BRAGA É APELIDADA DE "ANA MARIA BREGA".

Por Alexandre Figueiredo

Domingo, dia 20 de março: um disc-jóquei foi chamado para animar uma festa de aniversário perto de casa e, no repertório, rolou tudo que havia de "dançante" e "animado" da Música de Cabresto Brasileira: axé-music, "pagodão" baiano, forró-brega, "sertanejo universitário", "funk carioca".

Segunda, 21 de março: uma rede de lojas de departamentos controlada pelo estadunidense Wal-Mart despejou, numa de suas filiais, o CD do cantor sambrega Alexandre Pires, cuja música está sob medida para os interesses do Departamento de Estado dos EUA em relação à cultura brasileira.

Terça-feira, 22 de março: o programa de Ana Maria Braga - uma das damas do movimento de extrema-direita "Cansei" - mostrou o caso de um menino que sonhava ver os ídolos breganejos Zezé Di Camargo & Luciano, que, como Alexandre Pires, são "a prata da casa" (leia-se Rede Globo de Televisão). Um espetáculo publicitário incluindo o mais puro sentimentalismo que sempre promove os ídolos breganejos, para compensar a falta de humanismo de suas canções apátridas e pseudo-sofisticadas.

A mediocridade cultural do brega-popularesco passa por avançado desgaste, sabe-se muito bem. E voltaram as críticas negativas que há muito tempo foram silenciadas pelo "marketing da exclusão" que beneficiava os ídolos popularescos (tidos como "vítimas de preconceitos"). Além disso, seus espaços, como as rádios FM "populares" e o Domingão do Faustão, já começam a perder audiência e preocupar os anunciantes.

Por isso, nota-se a retomada da mesma campanha de 2002, quando os barões do entretenimento "compram" não só a intelectualidade adesista, como mais músicos para tentar a última salvação do mainstream cafona que ainda domina as rádios FM e a televisão aberta.

Ídolos "turbinados" com "novos referenciais", agora citando até mesmo o hoje esquecido The Ventures, grupo de instrumental guitar dos anos 60. Enfatiza-se o "respeito" pela classe mais "exigente", enquanto seus ideólogos tentam exibir "sincera sabedoria" alternando textos que exaltem o tecnobrega, o breganejo e o "funk" e, noutro, falem de relíquias da MPB autêntica do passado.

Dessa maneira, vemos Caetano Veloso elogiando, num dia, Luan Santana, e, em outro, escrevendo sobre Rosa Passos. Ou Pedro Alexandre Sanches, num dia, lamentando o não reconhecimento artístico do Calcinha Preta e do Parangolé e, noutro, escrevendo sobre Dona Ivone Lara, Zezé Motta ou Cida Moreira.

Mal comparando, é como se um cronista político dos EUA enchesse a bola de Richard Nixon e George W. Bush num dia e, em outro, escrevesse sobre George Washington e Thomas Jefferson.

A TÁTICA DA GOROROBA

Agora a onda é misturar alhos com bugalhos. Já que não se pode esconder do grande público a MPB autêntica, tenta-se mostrá-la de forma paliativa, desde que tentando alguma associação com a mesmice brega-popularesca dos anos 90, que continua persistindo no mercado.

Aí, joga Alexandre Pires para gravar tributo de Wilson Simonal, algo como chamar Ali Kamel para fazer uma palestra sobre Wladimir Herzog. A onda agora é tentar cooptar a nata da MPB autêntica para apoiar os popularescos, e, se possível, forjar uma falsa imagem cult de nomes como Odair José, Gaby Amarantos e Chimbinha.

Junto a isso, há o adestramento dos medalhões do brega-popularesco, sempre dando um aparato de "sofisticação" que os torne "digestíveis" para as plateias "exigentes". Mesmo que essa "sofisticação" faça os ídolos brega-popularescos parecerem, no máximo, com a "MPB burguesa" que tanto é mal-falada pela crítica especializada.

Mas é sempre manipulando o discurso: o que um nome do movimento Cacique de Ramos ou do Clube da Esquina, por exemplo, gravar de mediano, recebe críticas negativas. Mas se o grupo de sambrega grava o mesmo tipo de disco burocrático do sambista de raiz, ganha elogios da crítica. Da mesma forma, se a dupla breganeja grava o mesmo "disco ruim" de um integrante do Clube da Esquina, a crítica influente solta fogos.

Tudo isso, no entanto, não fará do brega-popularesco uma categoria cultural mais humana. Pelo contrário, isso começa a expor um esquema clientelista entre músicos da MPB e do Rock Brasil e a crítica e intelectualidade especializadas, e o apoio aos brega-popularescos não é senão uma extensão desse clientelismo.

Ninguém nasce sabendo, mas dá para perceber a diferença do verdadeiro artista que aprende sem alarde, na quietude de sua privacidade, e o ídolo medíocre que transforma seus primeiros discos de mau gosto em milhões de cópias vendidas.

O primeiro efetiva sua carreira como um artista autêntico, com uma simplicidade que não se contrasta com a genialidade. Que faz sua arte humildemente, sem pretensões.

O segundo, pelo contrário, promove-se com sua mediocridade, expondo seus erros ao grande público, se enriquecendo com eles e depois tentando pedir desculpas ao público. E, quando aparentemente tenta se evoluir, não é senão por macetes ditados por outrem, como produtores, arranjadores, músicos de MPB que estão no mesmo evento do ídolo popularesco etc.

Por isso fazer paliativos para perpetuar a Música de Cabresto Brasileira não adianta muito. O ídolo pode encher de gravações-tributo aos mestres da MPB, gravar muitos covers, fazer o dever de casa, ou criar canções autorais que "lembram MPB" com a ajuda de arranjadores especializados. Pode se tornar badalado no seu tempo, mas não deixa marca na posteridade.

Também não adianta tapear e investir numa gororoba cultural, na mesma brincadeira da mídia golpista de "revela-e-esconde" dando uma ênfase parcial à MPB mais difícil junto à mesmíssima insistência com os ídolos brega-popularescos do establishment midiático. Misturar Cida Moreira com Tati Quebra-Barraco, Jorge Veiga com Psirico, Villa-Lobos com Chitãozinho & Xororó simplesmente não dá!

A nova campanha do brega-popularesco é apenas a repetição da longa campanha de 2002-2010 como farsa. Mas hoje ela só fará mostrar o esquema viciado de troca de favores da intelectualidade, dos artistas e celebridades mais tarimbados, e seu paternalismo populista em torno dos tais "sucessos do povão".

Nada disso vai representar qualquer contribuição à renovação da verdadeira Música Popular Brasileira.

Um comentário:

  1. Há de se anotar mais um ícone da MPB cooptando um ídolo do brega-popularesco: Dado Villa-Lobos chamou o guitarrista Chimbinha (do grupo Calypso) para participar da gravação de seu novo CD. Detalhe irônico: o nome da faixa em que Chimbinha tocou (juntamente com Dado e os paralamas Bi Ribeiro e João Barone) é Lucidez.

    http://whiplash.net/materias/news_853/127038-legiaourbana.html

    Por outro lado, o texto cita novamente o movimento Cansei, da extrema direita. O curioso é que até agora não vi nenhum progressista agradecer ao cardeal Dom Odilo Pedro Sherer, por ter proibido uma missa de desagravo do movimento Cansei na lendária Catedral da Sé de São Paulo. Geralmente, os progressistas têm uma visão meramente utilitarista da Igreja Católica. Isso é a regra. As exceções entre os progressistas são poucas. A ICAR só presta se suas figuras públicas apóiam movimentos ditos populares ou coisas parecidas. Se algum líder não apóia, tome ladainha pra cima da Igreja: aquele velho papo de Idade Média, Inquisição, papa Pio XII, etc. Depois é só a ICAR que tem ladainhas... Esquecem até dos cumpanhêros Dom Paulo Evaristo Arns e Frei Betto.

    Para quase todos os progressistas, só merecem agradecimento os cumpanhêros bispos Macedo, Crivella e seus asseclas. Afinal, a Record não é do PiG golpista, e sim do governista.

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