quarta-feira, 23 de março de 2011

JABACULÊ BREGA-POPULARESCO E SUA "PANELINHA"


CHIMBINHA, DA BANDA CALYPSO, UM DOS BENEFICIÁRIOS DO LOBBY DO BREGA-POPULARESCO

Por Alexandre Figueiredo

Quanto custa apoiar um ídolo brega-popularesco? E quanto custa apoiar uma tendência? E mais tendências, qual é o preço?

De repente, na época do esgotamento do brega-popularesco, todo o lobby veio a socorrer seus ídolos, como uma multidão que corre para socorrer alguém agonizante. E, numa época em que se intensificam os movimentos sociais no exterior, a mídia tenta mais uma vez usar o brega-popularesco como "água-com-açúcar" para domesticar as massas populares do Brasil.

De repente voltaram os carros de divulgadores anônimos fazendo propaganda de ritmos popularescos locais: o "funk carioca", o "pagodão" baiano, o tecnobrega, o arrocha, a axé-music. Foi essa manobra que "salvou" o sucesso do Chiclete Com Banana em 1999, quando o grupo passava por um violento desgaste de imagem.

Aumentaram-se os bares tocando forró-brega, sambrega e breganejo. Vieram também internautas reacionários mandando mensagens contra quem não gosta dos ídolos brega-popularescos.

E, numa época em que o escândalo relacionado ao blog milionário de Maria Bethânia sugere uma "wikileakidificação" das verbas da Lei Rouanet - que beneficia várias duplas inexpressivas de "sertanejo universitário" e até o grupo de axé-sambrega Tchakabum - , pode vir a tona o esquema clientelista que pode estar por trás do "apoio voluntário" à música brega e todos os seus derivados.

Afinal, nada parece espontâneo, voluntário nem solidário. O apoio ao brega-popularesco em nenhum momento representa uma ruptura aos vícios que a crítica tanto reclama da chamada "MPB burguesa", fase de luxo e pompa que assombrou a Música Popular Brasileira no final dos anos 70 e no decorrer dos anos 80, provocando um êxodo gradual de seus artistas para selos pequenos ou independentes.

Pelo contrário, o que se viu foi que os ídolos do brega-popularesco relacionados às ondas de 1990 (Alexandre Pires, Latino, Zezé Di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel, Exaltasamba, Belo e Chitãozinho & Xororó) e 1997-2002 (Ivete Sangalo, Banda Calypso, Calcinha Preta, Cláudia Leitte e Bruno & Marrone) absorveram, com gosto, as mesmas caraterísticas e recursos que contaminaram a MPB da fase "burguesa". Todos se superproduzindo e adotando muita pompa, muito luxo, como se isso fosse "aperfeiçoar a verdadeira cultura popular". Está na cara que não.

Que apoio é esse, por parte de artistas até certo ponto insuspeitos como Nando Reis, Fernanda Abreu, Otto e Zeca Baleiro, de intelectuais como Hermano Vianna, Denise Garcia e Ronaldo Lemos, ou de jornalistas como Pedro Alexandre Sanches, Rodrigo Faour e Bia Abramo, ou de atores como Patrícia Pillar e Bruno Gagliasso?

Seria ingenuidade dizer que esse apoio se deve por alguma descoberta da salvação da humanidade nesse tipo de música alienante e apátrida. É muito mais fácil, e muito mais coerente, dizer que eles encontraram a mina de ouro na Música de Cabresto Brasileira que durante muito tempo se alimentou do jabaculê radiofônico.

É até estranho que, em outros tempos, todos os ídolos do brega-popularesco se envolviam com prazer nesse esquema jabazeiro, mas hoje eles dizem que nunca fizeram jabá, que só são "a expressão das periferias" e que nunca rolaram em rádio, só em "redes sociais" da Internet. Isso é brincar com a memória curta de nosso povo.

REDE DE COMPADRIO

Claro que o que está em jogo é toda a rede de compadrio, de clientelismo e de contratos publicitários que está por trás disso.

A "panelinha" de intelectuais, celebridades e músicos apoia o brega-popularesco sempre visando alguma vantagem que o traga mais visibilidade, carisma e, acima de tudo, dinheiro e sucesso.

O intelectual elogia o brega-popularesco visando trocar as miseráveis bolsas de pesquisa pelo cachê da grande mídia.

O jornalista elogia o brega-popularesco porque vai receber mais discos de graça, inclusive aqueles raríssimos de esquecidos mestres da MPB do passado, recém-remasterizados.

O cineasta, enfocando ídolos ou tendências brega-popularescos em documentários ou cinebiografias, estará aumentando sua visibilidade em vários veículos de imprensa do país, além de entrar no lobby que pode garantir prêmios no futuro.

Os músicos elogiam o brega-popularesco porque sabem que estes, mesmo sendo artistas medíocres, servem de pistolão para aparecer nas grandes redes de televisão.

Os atores aderem ao brega-popularesco visando futuros contratos para campanhas publicitárias e papéis de destaque nas novelas da Rede Globo.

Nada é incondicional. Tudo é tendencioso. Mas cria-se um mal-estar quando alguém fala isso, não é mesmo? Tudo porque mostrar a realidade derruba todo o clima corporativista e clientelista que está por trás.

O que sabemos é que todo esse apoio em nada contribuiu para a consolidação da verdadeira cultura popular no nosso país. Nada contribuiu para a preservação dessa cultura. E nem vai contribuir de forma alguma para sua renovação.

Isso só fez justificar a prevalência dos sucessos radiofônicos jabazeiros de outrora, que, demonstrando seus primeiros sinais de desgaste, agora tenta repetir a campanha de 2002, quando se falou que os "sucessos do povão" eram "vítimas de preconceito", a pretexto de empurrá-los para plateias mais intelectualizadas.

Tudo o que se fez, até agora, foi fazer os "sucessos do povão" atingirem a mesma plateia de burguesinhos, que deixaram de lado o pop-rock frouxo dos anos 90 (Charlie Brown Jr., Baba Cósmica, Virgulóides, Ostheobaldo etc) para aderir ao brega-popularesco que essa juventude, ironicamente, dizia abominar. E que agora defende com mãos de ferro, sem escrúpulos de xingar quem discorda do que eles defendem.

Só que não se pode atribuir como "preconceito" a rejeição sofrida pelos ídolos brega-popularescos, porque quem rejeita sabe muito bem do que isso significa.

Mas toda essa campanha de defesa, que no fundo só visa salvar o mercado que superfatura por trás desse entretenimento, só faz mostrar todo o esquema clientelista e oportunista que não consegue ser mascarado com belos discursos.

Afinal, para que produzir mais "vacas sagradas", desta vez ligadas à música brega-popularesca e aos intelectuais, artistas e celebridades que os apoiam?

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