terça-feira, 22 de março de 2011

JÁ PENSOU SE FÔSSEMOS DEPENDER DA "MÍDIA BOAZINHA"?



Por Alexandre Figueiredo

A recente visita de Barack Obama ao Brasil mostra o quanto é a chamada "mídia boazinha" que até pouco tempo atrás nossa opinião pública tanto se derretia.

Era uma época em que, salvo raras exceções, muita gente sonhava que a mídia concorrente daquela explicitamente dominante (Globo, Veja, Estadão) seria necessariamente democrática e aliada das forças sociais progressistas. Grande engano.

Não é preciso dizer aqui os casos da Folha de São Paulo, que no fundo é tão reacionária quanto o "tradicional" O Estado de São Paulo, e da tendenciosa "mídia de botequim" que, na Bahia, representa a Rádio Metrópole, concorrente ideológica da Rede Bahia.

Mas mesmo as "inocentes" TV Bandeirantes (vai Rádio Bandeirantes e Band News FM junto), Isto É e O Dia (vai o Meia Hora junto) também não estão aí para as causas progressistas, cumprindo o agendamento da vinda do presidente Obama com o mesmo cardápio ideológico da Globo, Veja, Estadão e Folha.

Nenhum desses veículos da chamada "mídia boazinha" - a mídia conservadora que não ladra nem morde - tomou partido das dores dos movimentos sociais ou mesmo dos presos políticos dos protestos no Rio de Janeiro. Desconhecem até que os EUA de Obama mantém em cárcere privado, sob torturas e humilhações, o soldado Bradley Manning, colaborador de Julian Assange na divulgação de documentos políticos secretos.

Nem precisamos falar muito do tão mitificado Meia Hora, a "vaca sagrada" do jornalismo popularesco, que foi totalmente indiferente à tragédia recente no Japão. Aí, a desculpa de última (meia) hora de seus defensores é que Meia Hora é um "jornal de humor", só que essa condição nunca é anunciada oficialmente pelo periódico da imprensa jagunça.

Já pensou se nós, blogueiros progressistas, tivéssemos que nos contentar com a "mídia boazinha", em vez de desenvolvermos nossa mídia alternativa e lutarmos pela real democratização dos meios de comunicação?

Certamente, só nos principais blogueiros, teríamos uma diferença qualitativa para baixo. Em vez de Paulo Henrique Amorim, Luiz Nassif, Rodrigo Vianna e Luiz Carlos Azenha, teríamos Ricardo Boechat, Joelmir Betting, Fábio Pannunzio e Fernando Mitre. Teríamos que nos contentar com a Isto É, em vez de investir numa Carta Capital. Embora "independentes" e aparentemente "imparciais", estes nomes da "mídia boazinha" se alinham mais ao pensamento conservador e dominante.

Imagine então um Bóris Casoy no lugar de Altamiro Borges? Seria um desastre. Ou, na Bahia, um Mário Kertèsz pouco confiável e incompetente lutando pela democratização da mídia no lugar de Emiliano José (que também havia se iludido com o astro-rei da Rádio Metrópole)? Seria uma catástrofe sem precedentes, transformando a mídia brasileira num reduto do mais promíscuo tendenciosismo midiático, totalmente esquizofrênico e movido pelas conveniências sócio-políticas.

Podemos nos aliviar e ver que, felizmente, esse quadro desastroso não pôde se consolidar. Uma mídia "inodora" não seria necessariamente nossa aliada só porque não está no topo do poder midiático. Até porque, uma vez ou outra, essa "mídia boazinha" também tem seus surtos reacionários. Vide a TV Bandeirantes com os ataques de Bóris Casoy aos garis e a censura dada a Luíza Erundina (hoje liderando uma frente parlamentar de democratização dos meios de comunicação).

A "mídia boazinha" pode não publicar artigos ofensivos a Che Guevara e Karl Marx - especialidade de uma Veja - , mas não é capaz de contestar os totens absolutos do conservadorismo capitalista.

Além disso, o "jornalismo conversa" (descontraído) dessa "mídia boazinha" em nada acrescentou à agenda socialmente restritiva da mídia conservadora.

Será que resolve uma mídia que fala de dondocas inglesas investindo em salões de beleza para seus cãezinhos, como "alternativa" à mídia que ofende até mesmo tribos indígenas e trabalhadores idosos?

A vinda de Obama mostra o quanto o agendamento "neutro" da "mídia boazinha" está muito longe de representar os interesses dos setores progressistas da humanidade. Pelo contrário, na hora do aperto, essa mídia torna-se tão conservadora quanto aquela que está acima no ranque do mercado.

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