quinta-feira, 17 de março de 2011

ECAD, MINC, LEI ROUANET


Blog milionário de Maria Bethania está dando o que falar.

Por Alexandre Figueiredo

O setor da cultura, no Brasil, passa por uma série de questões e problemas, e o mais recente é a polêmica em torno do blog dedicado a vídeos de poemas de vários autores recitados pela cantora Maria Bethania, sob direção do cineasta Andrucha Waddington.

O investimento no blog - deve incluir tanto pagamento à equipe dos vídeos quanto ao próprio espaço digital da publicação - é de R$ 1,3 milhão, verba aprovada pelo Ministério da Cultura. Mas, segundo a sobrinha da cantora, a também cantora Belô Veloso (também sobrinha de Caetano), o investimento partirá de patrocinadores.

É mais uma polêmica envolvendo o Ministério da Cultura, na gestão de Ana de Hollanda, também de outro clã da MPB, ligado a Chico Buarque e Miúcha que, como a irmã ministra, são alguns dos vários filhos do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, autor do fundamental livro Raízes do Brasil.

A suspensão da licença Creative Commons (que facilita a reprodução total ou parcial de obras com direitos autorais, mesmo sem qualquer ônus), oriunda de uma ONG sediada na Califórnia (EUA), foi a primeira polêmica causada pelo MinC de Ana de Hollanda. O fim do Creative Commons teria sido motivado pelo lobby que a cúpula do ECAD (entidade ligada aos direitos autorais) tem com a ministra Ana, por isso apelidada por seus críticos a "Rainha do ECAD".

Depois, foi o cancelamento da posse do prestigiado sociólogo Emir Sader, que numa entrevista à Folha de São Paulo, reprovou a acomodação do Ministério da Cultura diante das reais necessidades do setor, e chamou a ministra Ana de "autista". Sader seria diretor da Fundação Casa de Rui Barbosa, mas com seu depoimento o cargo lhe saiu das mãos, para alegria do PiG e de seu "astro pop" Caetano Veloso.

Agora são as aprovações para investimentos em apresentações, blogues, eventos etc. É certo que ninguém é santo, nem mesmo na MPB. Mas certamente o problema está muito mais além de investir ou não verbas milionárias para tais eventos. Principalmente se percebermos que o grupo de axé-sambrega Tchakabum (que "revelou" Gracyanne Barbosa, noiva do ídolo sambrega Belo) recebeu nada mais do que R$ 1.629.000,00 para seu "projeto musical".

O problema reside na Lei Rouanet, que a princípio parecia ser uma solução para a cultura, na concessão de incentivos fiscais para empresas que investissem em eventos culturais. Claro, há muitas questões por trás. Existe cultura e "cultura". Existe cultura popular, cultura erudita e a mass culture do brega-popularesco.

A supervalorização dessa lei faz com que o setor cultural se submeta ao comercialismo e à burocracia, sem falar do claro elitismo manifesto pelo enriquecimento de muitas personalidades culturais prestigiadas.

CRISE E CLIENTELISMO

É evidente que a crise da MPB se deu por esse esquema que transforma a sigla numa "Academia Brasileira de Letras" musical. É evidente que existe clima de compadrio, de camaradagem corporativista. Mas usar a música brega-popularesca, conhecida oficialmente como "sucessos do povão", como "alternativa" a essa mesmice olímpica (não no sentido esportivo, mas no sentido teológico) da MPB "burguesa", não só não resolve como agrava o problema.

Afinal, se existe compadrio entre Ana de Hollanda e o ECAD, entre cantores e cantoras da "nata" dessa MPB, o circo clientelista só se estende quando artistas do porte de Nando Reis, Fernanda Abreu e Zeca Baleiro cortejam ídolos brega-popularescos como Wando, DJ Marlboro, Waldick Soriano e Zezé Di Camargo & Luciano.

E, para piorar as coisas, se estende ainda mais quando intelectuais passam a integrar essa bola-de-neve da troca de vantagens. Daí vemos nomes como os cientistas sociais Milton Moura, Hermano Vianna e Paulo César Araújo, com a adesão do tecnocrata Ronaldo Lemos, e os jornalistas Pedro Alexandre Sanches, Rodrigo Faour e Bia Abramo, entre outros, apoiando os ídolos brega-popularescos, por um lado, e promovendo a elitização da MPB, por outro.

Ou seja, essa intelectualidade só reforça ainda mais a elitização da música brasileira de qualidade, que poderia ser popular, mas não é, por causa do mecanismo da indústria cultural de desqualificar, desnacionalizar e até enfraquecer a cultura do povo pobre. Só esses intelectuais se acham no direito de deter os segredos e tesouros da Música Popular Brasileira do passado.

Ou seja, um patrimônio construído pelo povo pobre não mais lhe pertence. É uma realidade típica de livro de Franz Kafka, ver que o baião nordestino não pode ser patrimônio do povo do Nordeste, que hoje só "produz" o forró-brega, engodo que mistura imitações baratas de disco music, country music e salsa.

POLÍTICA "LATO SENSU"

Voltando ao caso da Lei Rouanet, os incentivos fiscais envolvem também dinheiro público, porque a verba que o empresariado deixa de pagar à Receita Federal para investir num evento cultural corresponde à renúncia fiscal, ou seja, essa parcela também foi convertida em verba pública.

Com todos esses problemas, no entanto, é bom que a blogosfera progressista comece a analisar o setor cultural. Já era tempo, porque o pessoal estava preso à temática política strictu sensu. Passaram a pensar a política também em lato sensu. Porque cultura também tem sua política.

É bom ver, por exemplo, Carlos Leonam e Ana Maria Badaró criticarem a vulgaridade feminina pelo exemplo da Valesca Popozuda. Temia-se que, com a influência do "colaborador" de Carta Capital, Pedro Alexandre Sanches, Valesca fosse poupada de críticas ou talvez, numa delirante abordagem em retórica "etnológico-neo-jornalística" (Marc Bloch e Tom Wolfe "usados" numa mesma manobra), a grotesca funqueira fosse considerada a "Audrey Hepburn da Baixada". O que é um grande equívoco, por motivos bem óbvios.

Um comentário:

  1. Querer que a blogosfera progressista atentasse para a questão cultural? Sonho de uma noite de verão, Alexandre. Você e seu irmão gêmeo são os únicos blogueiros progressistas com visão ampla pra essas coisas. Os únicos MESMO. O resto não passa de um bando de dondocas progressistas, que acham que o país está nas mil maravilhas porque elegeram Lula e Dilma, mataram o demo-tucanato (com minha ajuda, inclusive) e reduziram o público cativo do PiG apenas à legião de reacionários e direitistas que são a minoria do país, e que por serem minoria não decidem eleição.

    E é aquilo que eu já disse: se depois de 1964 a direita tinha o Governo e a esquerda tinha o mainstream cultural, na Era Lula-Dilma a merda é a mesma. Só que com as posições trocadas: esquerda comandando o Governo e a direita no mainstream cultural. Parece que as dondocas progressistas querem deixar o mainstream cultural para a direita, pra esta brincar, se distrair, se conformar e parar de encher o saco do Governo.

    Só há uma semelhança do regime de 1964 com a Era Lula-Dilma: naquela época, como hoje, a direita é que é igualmente alienada.

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