domingo, 27 de março de 2011

DADO, QUE PAÍS É ESTE?



Por Alexandre Figueiredo

Hoje, dia em que o vocalista da Legião Urbana completaria 51 anos, é de lamentar que o remanescente da banda, Dado Villa-Lobos, com toda sua trajetória em prol do rock nacional, tenha sido cooptado pelo clientelismo brega-popularesco, ao aderir ao esquema do músico da Banda Calypso, Chimbinha.

A Banda Calypso, um dos símbolos do Pará fantasioso, quase uma Disneylândia amazônica, é também um dos maiores exemplos do que a esperteza e o oportunismo podem fazer na Música de Cabresto Brasileira.

Liderados por Joelma e Chimbinha, o grupo é um dos mais marqueteiros do país. Seu primeiro golpe foi vender discos baratos gravados por um selo local (pequeno, mas NÃO-INDEPENDENTE, porque segue o mesmo método mercantilista das grandes gravadoras), seduzindo a curiosidade dos incautos e virando "fenômeno" na grande mídia.

Segundo, o grupo usou um obscuro "militante" dito "de esquerda" para divulgar o boato de que seus projetos assistencialistas foram "indicados" para o Prêmio Nobel da Paz. A boataria, lançada há quase meia-década, não se concretizou, mas foi o suficiente para promover o grupo e sua dupla central.

Terceiro, a Banda Calypso apadrinhou o tecnobrega, embuste lançado em Belém, e que às custas de dois escritores - um deles, um tecnocrata da Fundação Getúlio Vargas, e outra, integrante do Centro Cultural Banco do Brasil - do Rio de Janeiro, lançaram imediatamente um livro "histórico" sobre o estilo. O uso de escritores cariocas foi crucial para que estes repitam, para o tecnobrega, o mesmo discurso "socializante" que promoveu o "funk carioca", numa esperta jogada de marketing.

Agora, Chimbinha tenta cooptar o apoio do Rock Brasil, tentando forjar uma "sabedoria" musical. Como os ídolos tecnobregas, há a bajulação ao carimbó, ritmo muito falado e pouco seguido pelos popularescos paraenses.

Pior: Chimbinha chegou ao ponto de dizer que é influenciado pelos Ventures, que provavelmente ele só começou a ouvir poucos meses atrás. Até porque o grupo de "Walk Don't Run" é pouco conhecido no Brasil, só fez sucesso nas rádios brasileiras nos anos 60, mas depois caiu no esquecimento.

Na verdade, se Chimbinha é influenciado por alguma coisa, não é pelo instrumental guitar que ele não conhece sequer a metade. A influência da Banda Calypso, na melhor das hipóteses, se limita, tão somente, a Wanderléia (na voz de Joelma), Renato & Seus Blue Caps, Fevers, Incríveis e Dom & Ravel. Dizer que Chimbinha é influenciado por Ventures é o mesmo que dizer que Tiririca é discípulo de Paulo Freire. Ora, tenham paciência!!

A cooptação de ídolos da Música de Cabresto Brasileira à MPB, ao Rock Brasil e à intelectualidade e crítica especializadas não foi mais do que um golpe publicitário. A cada dia, com os episódios envolvendo ECAD, Lei Rouanet e o simples desejo de visibilidade dos músicos de Rock Brasil e MPB que não conseguem atingir o grande público (apesar de muitos deles serem, de fato, muitíssimo talentosos), mostra o quanto esse esquema clientelista anda fazendo a fortuna de muita gente.

Pena que Dado Villa-Lobos, por intermédio dos amigos do Paralamas do Sucesso - um grande grupo do Rock Brasil, mas cujo irmão do vocalista-guitarrista Herbert Vianna, o antropólogo Hermano Vianna, é um dos maiores símbolos desse esquema clientelista - , tenha também se vendido para o establishment brega-popularesco.

É um recurso fácil para buscar visibilidade, virar notícia ao menos nas páginas de O Dia, Extra ou São Paulo Agora, para depois entrar nos grandes festivais de música como atração principal. A Música de Cabresto Brasileira é o império da mediocridade cultural brasileira, mas também é dotada de um poderoso esquema comercial e publicitário.

Dá para perceber o quanto Dado Villa-Lobos não consegue dar ao seu bem intencionado projeto Dado & O Reino Animal - na verdade uma banda que ele teve até antes da Legião Urbana - a mesma visibilidade e sucesso que o músico teve na famosa banda de Renato Russo.

Já vimos certas barbaridades envolvendo o Rock Brasil ou a MPB com o brega-popularesco. No caso do Rock Brasil, é sintomático ver Clemente, dos Inocentes, que um dia desafiou até Gilberto Gil, se render ao tecnobrega.

Também vemos o caso de Andreas Kisser, do Sepultura, tocar com Chitãozinho & Xororó. Ou os demais integrantes do Camisa de Vênus contratarem um ex-assessor de Ivete Sangalo para o lugar de Marcelo Nova. Ou os músicos de Rock Brasil se renderem à malandragem da Banda Calypso.

Em suma, todo mundo querendo ser um pouco o Capital Inicial, e tocar em mega-festivais, se preciso for até em micaretas ou vaquejadas, ou aparecer nos mesmos mega-especiais da Rede Globo junto com Vítor & Léo, Ivete Sangalo, Zezé Di Camargo & Luciano e Latino.

Por isso a MPB e o Rock Brasil tentam aderir ao compadrio - sem medir escrúpulos de desfilar ao lado dos ídolos brega-popularescos como se fossem suas "mascotes" - , sem perceber que isso cobrará um preço caro para eles.

Porque hoje isso pode gerar uma visibilidade imediata e um sucesso de mídia estrondoso. Mas, a médio prazo, poderá transformar os adesistas da MPB e do Rock Brasil ao brega-popularesco numa panelinha de "dinossauros frustrados", e eles, embora de talento indiscutível, podem desgastar sua imagem a exemplo do que aconteceu com Caetano Veloso, com todo o talento e história que o cantor do movimento tropicalista acumulou há décadas.

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