sábado, 12 de março de 2011

A CRISE DA INTELECTUALIDADE BRASILEIRA - II


JEAN BAUDRILLARD - Imitar sua retórica, sim, mas sua abordagem crítica, não.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade brasileira, não digo os brilhantes pensadores que existem, mas as elites que controlam o meio acadêmico e detém o status quo intelectual, tem o vício de querer manter as aparências. Teses acadêmicas sem o menor fundamento social, apenas meramente descritivas, meras cumpridoras de um rigor retórico, de uma métrica linguística que de "científica" só têm a verborragia, mas que, depois de badaladas e festivamente aprovadas pela banca examinadora, vão residir nas estantes das bibliotecas, sem que viva alma se interesse em consultá-las.

Dessa intelectualidade viciada, há quem prefira ficar nos bastidores das atividades acadêmicas, ditando um padrão "europeu de mentirinha" de monografia e de elaboração de tese acadêmica, enrolando bacharéis e licenciandos que são levados a acreditar que tudo é maravilhoso, que as teses são de livre escolha e que a abordagem só deve ser "inocentemente científica".

É um padrão que aparentemente está de acordo com o alto nível da intelectualidade européia, que talvez também não seja tão de alto nível assim. Pode ser, diante da indigência intelectual de país emergente como o Brasil, ainda movido por uma campanha anti-intelectual de fascistóides digitais, "donos da verdade", com sua estupidez travestida de "sabedoria", por vezes falaciosa, por outras caluniadora e chantagista.

Mas ela não o é, talvez, no Primeiro Mundo, onde o debate intelectual em muitos casos é acérrimo. O deslumbramento tecnológico, a globalização, ou mesmo a pós-modernidade, são temas que causam muita polêmica entre pensadores da Europa e dos EUA.

Além disso, um professor como o norte-americano Alan Sokal bagunçou o coreto intelectual de lá, quando escreveu um texto misturando um discurso pretensamente científico com bobagens construídas em linguagem formal.

O texto de Sokal, Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica, aparentemente saiu em 1996, sem problemas e as elites intelectuais o aceitaram como se aceita qualquer texto pseudo-semiológico numa pós-graduação de uma universidade brasileira.

Isso se deu dessa forma, até Sokal escrever outro artigo, Língua Franca, afirmando que o texto anterior era uma fraude composta por um "pastiche de jargões esquerdistas, referências aduladoras, citações pomposas e completo nonsense.

Isso causou um escândalo enorme na intelectualidade da Europa e dos EUA, mas o economista Roberto Campos, no final da vida, tentou pegar carona na polêmica, puxando a brasa para sua sardinha, mas Sokal soube da armadilha do economista e ex-diplomata e o desmascarou.

Robert Heinlein (1907-1988), escritor de ficção científica, havia publicado em 1979 um livro O Número do Monstro, que conta a história de Zebadiah Carter, que desenvolve uma tese de doutorado completamente sem sentido nem conteúdo relevante e consegue tal graduação.

O PADRÃO "EUROPEU DE MENTIRINHA"

A elite acadêmica brasileira adota um padrão de abordagem acadêmica que chega ao risível. É um padrão dentro das regras técnicas de monografia, que exige uma linguagem científica, e que aparentemente é um padrão perfeito para a elaboração de uma tese de graduação ou pós-graduação que permita a boa reputação do formando.

Os professores que integram essa elite enrolam os alunos de graduação, dizendo que os temas são livres, apenas têm que ser feitos num padrão de linguagem monográfica, de abordagem científica, satisfatório para o padrão acadêmico. Só não querem explicar por que e como se dá essa tarefa.

O estudante de graduação sai sem saber qual é a diferença entre justificativa e objetivo, qual a metodologia adequada para seu projeto de pesquisa, se é necessário pesquisa de campo ou citações bibliográficas.

Se o aluno é bem amestrado pelos professores mais poderosos, pode entender o mecanismo e, tal qual um Zebadiah Carter à brasileira, criar suas teses de graduação, mestrado e doutorado compostas por meros delírios semiológicos ou por uma etnologia de plástico, meramente descritiva, sem vida, apenas cumprindo procedimentos técnicos de linguagem, discurso e abordagem.

Na Universidade Federal da Bahia, soube-se até mesmo de uma tese de mestrado cujo tema era tão simplesmente as imitações de passarinho feitas pelo cantor regional Elomar. Um tema inócuo, até risível, em que pese o respeitável talento do cantor.

O padrão de monografia adotado no Brasil - o tal pseudo-europeu, para intelectual inglês ver - contagia não só monografias de graduação e pós-graduação, mas textos publicados em periódicos acadêmicos. Com toda a "boa intenção" acadêmica, são textos muito cansativos de serem lidos, extremamente chatos e cuja produção de conhecimento é praticamente natimorta, intelectualmente estéril.

Esse texto padrão é identificado pelas etapas comuns adotadas.

1) TEMÁTICA - Se é um texto sobre Comunicação ou sobre Tecnologia, seu tema tem que ser o mais abstrato possível. Houve uma moda da temática semiológica, que chegou a desviar o ensino de jornalismo em várias faculdades, pois as Faculdades de Comunicação ligadas ao setor jornalístico estavam mais preocupadas em formar semiólogos do que jornalistas. Mas, nos últimos anos, o tema se aproximou da Informática, mas isso dá no mesmo, costurando teses semióticas com divagações sobre o ciberespaço.

Já se é um texto de Ciências Sociais ou Ciências Humanas, sobretudo Antropologia ou Sociologia, o tema tem que se voltar para a narrativa descritiva de comunidades interioranas. Chegou-se ao ponto de haver um surto de teses completamente iguais, envolvendo religiosidade e comunidades rurais, sem que qualquer contexto ou peculiaridade pudesse diferir decisivamente uma tese da outra.

2) JUSTIFICATIVAS LONGAS - O texto monográfico "padrão" no Brasil comete o seu pecado de gastar toda a sua introdução querendo "justificar" o tema de pesquisa. São justificativas cansativas, mas também inócuas, meramente acadêmicas, que fazem o leitor (e não se fala do leitor comum, mas do leitor pesquisador) abandonar o texto logo nos primeiros cinco minutos de fatigante leitura.

É um texto longuíssimo, uma justificativa de umas quinze páginas em média, numa linguagem acadêmica prolixa, ainda que não rebuscada. Não há como ler uma coisa dessas sem dar um bocejo, apesar de ser um texto corretíssimo dentro das normas de rigor acadêmico e científico determinadas.

3) DESFILE DE CITAÇÕES - Quando começa o texto acadêmico, o autor, sem dizer a que veio, faz um enunciado apenas descritivo de seu trabalho, e inicia um desfile de citações de autores pesquisados, numa bibliografia pesadíssima. Os autores são descritos em longas frases, mas em parágrafos fatiados, em parte, por parêntesis e reticências, porque aí seria demais.

O trabalho todo praticamente é assim. O autor faz sua tese descritiva, mas sem dizer claramente seu propósito, sem apontar uma posição crítica sua. Não há uma análise, mas uma narrativa teórica, recheada de citações de autores pesquisados. A leitura continua cansativa, apesar, ou talvez por causa do rigor acadêmico adotado.

Geralmente esse desfile de citações bibliográficas ocorre na maior parte da monografia, geralmente entre 60% e 80% de suas páginas maçantes.

4) FALTA DE POSIÇÃO CRÍTICA - Quando chega a parte final, quando teríamos a oportunidade de conhecermos qual a posição do autor da monografia, ele enrola, dentro da retórica rigorosamente acadêmica, numa evidente neutralidade.

Não há uma posição crítica, mas apenas uma exposição de prós e contras do tema escolhido, num modo "científico" de hesitação, sem que essa hesitação pareça evidente. O autor se limita a posicionar-se "acima do bem e do mal", mostrando que o tema "tem problemas e méritos", e faz uma conclusão morna, mas "científica", sobre sua apresentação. Mais ou menos uma forma "científica" de dizer "é isso".

Em resumo, o autor monográfico ou ensaístico - no caso de textos em periódicos acadêmicos - arruma mil desculpas para validar sua tese pouco proveitosa, usa dezenas de autores para "segurar" seu raciocínio pouco produtivo e depois engana a plateia dizendo, no final, que a problemática é essa mesma e fica como está. Ou seja, uma "problemática" sem problema, muito comum nos delírios intelectualóides existentes.

Imagine uma intelectualidade dominada por um processo "científico" desses! Que só serve para uma mera masturbação discursiva que encante as bancas examinadoras! Meras imitações estéreis e frouxas de narrativas de pessoas como Merleau-Ponty, Ferdinand de Saussure, Jean Baudrillard e Charles Peirce, sem aproveitar todavia de qualquer abordagem crítica.

Tudo fica parecendo apenas uma mera imitação retórica dos europeus. Uma preocupação com as aparências, que nada faz para o Brasil se equiparar ao Primeiro Mundo através de uma intelectualidade viva e atuante.

Grandes intelectuais o Brasil possui. Mas eles, ainda que relativamente numerosos, são exceção à regra. E as elites academicistas não mexem com eles. No entanto, o que se vê nos meios acadêmicos é uma esterilidade intelectual que só serve para criar um mimetismo docente que travista a impotência de pensar criticamente o mundo por um amontoado de palavras bem organizadas.

O quadro de intelectuais brilhantes no Brasil, mesmo expressivo, ainda é insuficiente para que se tenha uma intelectualidade com visibilidade e influência decisivas para a sociedade. Tal como um Noam Chomsky, um Robert Fisk, um Umberto Eco, no exterior. Os brilhantes Emir Sader e Venício A. de Lima, por exemplo, ainda são postos à margem no mainstream intelectual e sua lucidez de ideias ainda encontra sérias resistências mesmo em meios acadêmicos mais influentes.

Enquanto as masturbações retóricas de roupagem "científica" prevalecerem, serão sempre monografias feitas para o deleite acadêmico, mas que, sem qualquer serventia social, vão se juntar aos ácaros, bactérias e fungos nas bibliotecas das faculdades.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...