segunda-feira, 14 de março de 2011

CORREIO DA MANHÃ OFERECE SUBSÍDIOS CONTRA O BREGA-POPULARESCO


FOTO DO ARQUIVO DO CORREIO DA MANHÃ, NA FASE EM QUE PROTESTOU CONTRA O REGIME MILITAR, EM 1968.

Por Alexandre Figueiredo

O Correio da Manhã nunca foi um periódico de esquerda. O jornal carioca, que teve entre seus jornalistas figuras como Carlos Heitor Cony e Márcio Moreira Alves, até combateu raivosamente o governo João Goulart, defendendo o golpe militar de 1964.

No entanto, uma vez realizado o golpe, e instaurado o regime militar, o Correio da Manhã logo adotou uma postura diferente, de franca oposição. Sem aderir ao esquerdismo, no entanto sua postura tornou-se corajosa e admirável, diante do arbítrio do regime contra aqueles que discordavam dele.

Entre 1964 e 1968 o Correio da Manhã adotou uma postura anti-ditadura, denunciando seus absurdos e fazendo o seu claro protesto. Só parou de fazer com o Ato Institucional Número 5, o AI-5, e com a intervenção que praticamente destruiu a alma editorial do jornal, que tentou sobreviver como situacionista, até ser extinto anos depois.

Existe um livro sobre essa fase do Correio da Manhã, Um jornal assassinado: A última batalha do Correio da Manhã, de Jefferson de Andrade (José Olímpio Editora, 1991) que descreve muito bem essa fase. Vale lembrar que Márcio Moreira Alves se elegeu deputado pelo MDB e foi o responsável pelo discurso contra as Forças Armadas que foi o pivô do AI-5.

Aliás, doze dias antes do "ato" maligno, um texto interessante foi publicado no jornal. De autoria de Jaime Rodrigues, "Observações sobre a cultura popular", reproduzido por Nelson Werneck Sodré em Síntese de História da Cultura Brasileira (Civilização Brasileira, 1979), é de uma atualidade indiscutível em pouco mais de 42 anos de publicado.

O texto, que fala sobre a cultura de massa, cita assuntos até hoje tabus, principalmente na retórica em favor do brega-popularesco (a nossa mass culture imposta pelo mercado midiático dominante), como a desnacionalização da cultura, hoje definida pelos ideólogos através do eufemístico pretexto da "saudável integração à cultura pop mundial" e a debilitação das culturas regionais, também descrita, de forma eufemística pelos mesmos ideólogos, como "capacidade das periferias de recriar o que vem de fora".

Mas, derrubando o mundo da fantasia do brega-popularesco, vamos ao trecho interessante que Jaime Rodrigues escreveu para o Correio da Manhã, em primeiro de dezembro de 1968, com os parágrafos por mim separados para facilitar a leitura:

É preciso não perder de vista o fato de que a cultura, na atualidade, é uma indústria rendosa, estruturada sobre fórmulas de produção em série. A cultura de massa (mass culture), em crescente expansão, graças à ampliação gigantesca dos veículos de comunicação massivos (mass communication media), é anacional, sem nenhuma raiz com o regional. (...)

Uma das consequências desse 'admirável mundo novo' é a internacionalização do produto artístico-cultural. Essa internacionalização, evidentemente, quando não fortalecidas as culturas nacionais, a conduzem para o aniquilamento ou para a subversão, mediante a simbiose com as manifestações alienígenas (direta ou indiretamente).

Quando não é mantida uma relação constante com as formas de expressão popular, quando ela não é encarada como algo a preservar e estimular, quando vigora uma mentalidade de simples importação de cultura, as culturas regionais destinam-se ao desaparecimento ou entram em acelerado processo de debilitação".


Sim, esse texto pode servir muito bem para denunciar a gravidade dessa suposta "cultura popular" que aparece nas rádios FM, na TV aberta, na imprensa jagunça, nas revistas fofoqueiras, e que é defendida a mãos-de-ferro por ideólogos que vão desde um simples direitista dente-de-leite até figuras como o semi-deus neo-caetânico Pedro Alexandre Sanches (que anda servindo conceitos neoliberais para os caros amigos da imprensa de esquerda).

Pois se relembrarmos o que a intelectualidade mais conceituada escreveu sobre as relações de poder por trás da exploração midiática da cultura popular, certamente derrubaremos todo um repertório ideológico trabalhado solenemente por Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e afins.

É tamanha a coerência e a concisão explicativa dos que oferecem subsídios para nosso questionamento do brega-popularesco, essa praga que impede o povo pobre de se emancipar culturalmente, e o faz preso a uma tomada elétrica montada pelos barões do entretenimento e da grande mídia.

Por isso, vamos, sempre que possível, mostrar análises intelectuais que sirvam para enriquecer o questionamento do império brega-popularesco que quer sufocar a verdadeira cultura popular.

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