segunda-feira, 14 de março de 2011

CORREIO DA MANHÃ: MAIS SUBSÍDIOS


CORREIO DA MANHÃ FOI RESPONSÁVEL POR REGISTRAR IMAGENS COMO ESTE PROTESTO ESTUDANTIL CONTRA UMA VIATURA DA PM, EM 1968.

Por Alexandre Figueiredo

Com o livro de Nelson Werneck Sodré em minhas mãos, Síntese de História da Cultura Brasileira (Civilização Brasileira, 1979), cito mais um trecho que o autor citou com base em artigo de Sérgio Bittencourt, "Televisão desencanta mais um", publicado no Correio da Manhã, periódico carioca, em 28 de janeiro de 1965, portanto no começo de sua fase contestatória ao regime militar e seus valores associados.

Nelson Werneck escreve seu comentário com base nas ideias do artigo, que ele concorda, e que pode ser usado com muita exatidão para analisarmos o contexto do Brasil popularesco em que vivemos, de uma "cultura popular" estereotipada e apátrida que insiste em permanecer mesmo com base em teorias falsamente "sociais".

Essas teorias, que misturam delírios pós-modernos com ideias sociológicas e antropológicas precariamente interpretadas, podem ser seguramente descontruídas e desmontadas por um embasamento teórico fornecido pelos mais renomados intelectuais.

Afinal, mesmo as questões da cultura não podem ser analisadas pelo mundo da fantasia ou pelo mascaramento das relações de poder com uma retórica que legitima o estabelecido, para o bem do "deus mercado" visto como se fosse um "deus midas" a ser adorado pela sociedade. Essa retórica, mesmo transmitida na imprensa de esquerda, só faz legitimar e reforçar os interesses das oligarquias que controlam a grande mídia, que manipulam a sociedade através de um sistema de valores dominador e alienante aplicado ao entretenimento.

Pois o subsídio em questão, o texto de Sérgio Bittencourt de 28.01.1965, serve de base para o raciocínio de Nelson Werneck Sodré, é este abaixo, com as separações de parágrafos feitas por mim para facilitar a leitura:

"Essa é a cultura que os meios de massa difundem, no Brasil, hoje: além de seu baixíssimo nível e de seu teor desumanizante, tende, cada vez mais, à desnacionalização, ao esmagamento de nossa herança cultural.

Nosso povo, destituído de quaisquer direitos, inclusive o que afeta a sua cultura, para não falar do impedimento à ampliação dela, é ainda acusado pelo nível baixo; seriam suas preferências rudimentares a causa desse nível baixo; os exploradores, comerciais e ideológicos, dos meios de comunicação de massa seriam simples vítimas desse incorrigível mau gosto popular; no fim de contas, estão apenas fornecendo o que lhes é imposto pelas exigências desse mau gosto.

Essa impostura atinge os limites do escárnio, quando se sabe que a verdade é muito outra: o público aceita e procura o melhor.


Não dá para não ver, nessas linhas, uma surpreendente atualidade. Enquanto ideólogos da pseudo-cultura popular do brega-popularesco, de forma tão esnobe, definem ideias de "mau gosto" e "alienação" como "expressões de puro preconceito", deixando o problema da mass culture para debaixo do tapete, vemos o quanto intelectuais realmente sérios nos alertam contra a desqualificação do conceito de cultura popular através da tirania midiática.

E olha que, naqueles idos de 1965, o brega-popularesco que hoje envolve uma série de tendências culturais hegemônicas, era apenas "palidamente" representado por figuras como Jacinto Figueira Júnior, Waldick Soriano e Moacir Franco (o "Fábio Jr." da época, excelente ator, mas cantor medíocre). E mesmo as chamadas "boazudas" de hoje só surgiriam mesmo de 1974 em diante.

Mas mesmo assim a desqualificação da cultura popular já preocupava intelectuais e jornalistas naquela época. Por que intelectuais e jornalistas de hoje têm que se preocupar bem menos, se o problema atingiu níveis muito mais preocupantes do que há 46 anos atrás?

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