sábado, 19 de março de 2011

BUSOLOGIA CARIOCA: RUMO À DIREITA



Por Alexandre Figueiredo

A busologia do Rio de Janeiro entra numa etapa preocupante, que aponta para uma provável "politização" do setor.

Isso se deve a uma aparentemente repentina adesão de busólogos ao projeto tecnocrático do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, para o transporte coletivo. Afinal, seu projeto, inspirado no projeto curitibano de Jaime Lerner lançado no auge do regime militar, em 1974, se baseia no controle político centralizado das secretarias de transporte, sejam municipais ou metropolitanas.

O projeto foi aplicado também em cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, sempre através de governantes direitistas. Caraterizado pela padronização visual, que dificulta a identificação de empresas - favorecendo irregularidades - , e por medidas que variam entre o pomposo e o paliativo, como a construção de avenidas exclusivas para ônibus articulados (avenidas que integram o esquema BRT - Bus Rapid Transit) e a redução drástica de frotas de ônibus nas linhas, esse esquema vende a suposta imagem de "racionalidade", que deslumbra muita gente e garante o lobby político entre autoridades, empresários e tecnocratas do setor.

O que preocupa nisso tudo é que, no caso do Rio de Janeiro, o esquema não só não disse a que veio como já mostra graves equívocos, como a licitação confusa que criou pseudônimos para empresas irregulares "reprovadas" (como Rio Rotas para a Ocidental e City Rio para o Grupo Breda Rio), e a caótica distribuição de empresas por linhas, não bastasse o visual que é capaz de confundir uma Braso Lisboa com uma Verdun.

Paralelamente a isso, sistemas similares como os de São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Brasília já mostram o quanto esse projeto tecnocrático para o transporte coletivo está em processo avançado e irreversível de desgaste e decadência, através de fatos que desmentem até o mais ponderado otimismo.

Essa decadência se dá com acidentes de ônibus, com vítimas fatais, lentidão nos chamados "ligeirinhos", longas esperas nos pontos, ônibus superlotados, greves constantes de rodoviários, ônibus piratas mascarados pela padronização visual, e mesmo a pura corrupção, conforme é o caso do Consórcio Leste 4, em São Paulo.

A situação é tão séria que, em Curitiba, berço desse modelo de transporte coletivo, especialistas mais sérios afirmaram que existe o risco de um violento colapso no setor. E, seis meses depois do trágico acidente no centro curitibano, na Praça Tiradentes com um ônibus da Auto Viação Redentor - dois detalhes irônicos em relação ao Rio, pelo nome da praça e da empresa de ônibus - , houve um outro acidente com dois ônibus na capital paranaense, também no Centro.

São Paulo e Curitiba são as líderes em acidentes de ônibus urbanos, muitas vezes consequência de motoristas estressados ou de ônibus mal conservados, mesmo semi-novos. E nada garante se não vai haver acidentes com a compra de 390 ônibus com motor Volvo, depois de tanto tempo adquirindo os chamados "cabritos", ônibus convencionais com motor dianteiro simples, equiparado ao de um caminhão, das marcas Mercedes-Benz e Volkswagen.

Então, por que a adesão de busólogos ao projeto carioca, se ele mostra-se fracassado desde o começo? E logo quando o sistema de ônibus se mostra cada vez mais atrapalhado?

É porque essa medida visa expressar, no setor de transportes, o aparato de "rigor administrativo" que está por trás do desnecessário fardamento das empresas de ônibus. Tudo para exibir para as autoridades estrangeiras um transporte coletivo dentro do padrão de "cidade espanhola" sonhado por Eduardo Paes, que, pelo jeito, prefere transformar o Rio de Janeiro numa "Madri dos trópicos", com praças centrais gigantescas - há o desejo dele de fechar a Avenida Rio Branco - e ônibus pintados todos iguaizinhos.

Só isso garante um "trem da alegria" politiqueiro que anda abocanhando o apoio gradual de uma parte de busólogos. Quem é que não quer ter um assento no gabinete da Secretaria de Transportes da Prefeitura do Rio de Janeiro? Com a chance de ser fotografado lado a lado com Pelé, Carlos Arthur Nuzman, Ronaldo Nazário, fora governantes estrangeiros?

É certo que, quando se fala nessas oportunidades, soa o mesmo que tirar a máscara. Não é por acaso que os adesistas mandam mensagens grotescas na Internet para quem não concorda com eles.

Um deles é um conhecido busólogo que faz parte de um conhecido fotolog carioca. Dotado de muita arrogância, talvez devido à sua fama no meio, ele era contra a padronização visual dos ônibus cariocas, até virar a casaca e bajular as autoridades. Chega a se aproveitar de nomes de outros busólogos que discordam dele para criar fakes e soltar desaforos, enquanto, por outro lado, ele pede que "todos respeitem" Eduardo Paes, seu secretário de Transportes Alexandre Sansão e companhia.

COMO A "NEUTRA" BUSOLOGIA CARIOCA SE "ENDIREITA"

A busologia aparentemente é um movimento ideologicamente neutro e descompromissado politicamente. Mas, com o projeto de Eduardo Paes, com claras conotações políticas - como foi o de Jaime Lerner, que em 1974 praticamente traduziu para a busologia o projeto de Roberto Campos e Otávio Bulhões para a economia dez anos antes - , ganhou adesões tendenciosas e repentinas, que não encontram justificativa senão pelo "carnaval" politiqueiro que está por trás.

Afinal, por um lado, vemos o projeto de Eduardo Paes e Alexandre Sansão mostrarem claramente seus equívocos e transtornos. A população sofre tentando identificar ônibus, tarefa bem mais difícil para quem é analfabeto, idoso ou deficiente. Ou mesmo as gestantes.

Se alguém está passando mal e precisa ir a um hospital, não vai se preocupar senão com seu compromisso, nem sempre terá atenção suficiente para ver se um ônibus é ou não de tal linha. Se ele, por conta da cor uniformizada, pegar uma linha diferente da desejada, o dano pode ser pior.

Aí entra o outro aspecto, que é o esnobismo que mostra o quanto certos busólogos adotam uma postura anti-popular e anti-cidadania, desenvolvendo aí uma atitude direitista e conservadora.

Com um esnobismo que chega à grosseria gratuita, tais busólogos chegam a defender a padronização visual que tanto faz o povo sofrer, baseados no que as autoridades e tecnocratas dizem. E, totalmente demagogos, tentam dizer que "o povo está gostando da padronização", uma mentira tão descarada que tal declaração é feita geralmente com pseudônimos.

Para uma busologia que se preocupa mais com o que as autoridades e tecnocratas determinam, e que cada vez mais se distancia do interesse público (sobretudo pelo apego neurótico e paranóico a empresas de ônibus deficitárias, como a Turismo Trans 1000, de Mesquita, Baixada Fluminense), a "evolução" desses busólogos para a direita ideológica dará muito pano para a manga. O que já ocorre em Curitiba e São Paulo, entre corrupção, censura e desmandos trabalhistas já sugere o que os cariocas vão encarar.

É esperar o decorrer desse caminho que, em parte, mancha a reputação de um simples hobby.

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