quarta-feira, 9 de março de 2011

BREGA-POPULARESCO EM RITMO DE "SABÃO EM PÓ"


SAMARA FELIPPO DEIXOU VAZAR QUE VAI A EVENTOS DE AXÉ-MUSIC POR MOTIVOS CONTRATUAIS.

Por Alexandre Figueiredo

Os atores de televisão, sobretudo os mais jovens e emergentes, têm que desempenhar um papel que irá impulsionar decisivamente suas carreiras.

Esse papel não é o de mais um personagem da próxima novela da Globo, nem o de uma minissérie de época, nem o de um personagem histórico numa nova produção de cinema. E muito menos nem o de algum personagem dramático na próxima peça de teatro.

O papel que eles têm que desempenhar é o de "fã" de cada uma das diversas tendências da Música de Cabresto Brasileira, seja o dito "sertanejo" (breganejo), o dito "pagode romântico" (sambrega), forró-brega, axé-music e "funk carioca".

Alguns meses atrás, alguns conjuntos de sambrega fizeram a estratégia de chamar atores de novelas - não apenas emergentes, mas mesmo veteranos com alguma empatia entre o público mais jovem - para chamar a atenção do público de classe média. Um grupo inteiro de atores da novela Ti Ti Ti, da Rede Globo, foi todo junto para "curtir" o som de um desses nomes do sambrega.

Mas, nos últimos dias, o Carnaval baiano se tornou a vitrine reservada para esses atores. É sua tradicional estratégia de marketing, que, no começo do crepúsculo da hegemonia brega-popularesca (que inclui a axé-music), tenta manter o auge de outrora com o máximo de atrações famosas no público.

Mas o breganejo e o "funk carioca" também fizeram suas campanhas maciças em outros tempos. No auge da retórica pseudo-socializante, o "funk carioca" chegou mesmo a fazer parte das obrigações profissionais de atrizes emergentes da Globo. Se elas não quisessem perder contratos publicitários para marcas de cosméticos, por exemplo, ou papéis de protagonista na próxima novela das nove, tinham que dançar a "boquinha da garrafa" herdada pelo ritmo carioca.

Para o público médio, parece que os atores gostam mesmo dos estilos com que aparentemente se envolvem. Apenas poucos deles, realmente, gostam. Mas a maioria "gosta" da música brega-popularesca apenas por razões profissionais. Eles estão fazendo mais uma encenação, estão em evidência na mídia, apenas estão emprestando sua fama para os ritmos musicais de maior sucesso comercial na grande mídia.

O gosto médio do ator de televisão gira em torno da MPB autêntica e do Rock Brasil. Envolve o que chamamos de "moderna MPB", sobretudo. A maioria dos atores e atrizes, mesmo jovens, só se envolve com brega-popularesco pela mesma lógica das propagandas de sabão em pó e outros produtos: é uma forma apenas de promover tais mercadorias.

Essa estratégia é planejada pelos marqueteiros do brega-popularesco e pelos barões do entretenimento "popular" para tentar atingir as classes econômicas mais altas. Usando atores e atrizes em ascensão, os empresários dos cantores, duplas e grupos da Música de Cabresto Brasileira tentam associar a imagem deles aos intérpretes musicais em questão.

Tanto o suposto gosto musical do brega-popularesco pelos atores de TV é falso que, quando houve um escândalo envolvendo um jovem deputado, a atriz Samara Felippo deixou vazar, no seu depoimento, que era contratada a aparecer em micaretas, que são similares do Carnaval baiano feitas fora de época.

Outras três atrizes, uma delas com dois filhos, outra amamentando um e outra grávida - a questão da maternidade, no entanto, é apenas uma coincidência - , todas influentes na sua beleza e na visibilidade, já não aparecem mais em eventos de "funk carioca", tendo atingido a reputação de celebridades desejada. Quando apareciam em eventos de "funk", as três atrizes ainda estavam em situação emergente, eram atrizes ascendentes.

A artificial associação do brega-popularesco com atores de televisão, estranhamente, envolve quase sempre atores jovens que estejam em ascensão na mídia. No fundo, tais atores nem gostam dos nomes musicais que são obrigados a "gostar" por razões de contrato. Mas têm que fazer sua encenação, pois, como atores, eles desempenham mais um papel, o de fã de axé-music, breganejo, "funk", forró-brega e o que vier.

Os atores são postos à prova nesses personagens que têm que desempenhar. A receptividade e a aceitação dos eventos brega-popularescos dão uma amostra de que tais atores e atrizes são "maleáveis". Caso contrário, tais atores e atrizes ganham fama de "difíceis".

E aí, nada de comerciais de cosméticos para as meninas. Nada de comerciais de cursinho de inglês para os rapazes. Nada de papel de semi-destaque na "novela das sete" nem de protagonista na "novela das nove". E periga dos diretores da Globo mandarem carta de "desrecomendação" para as emissoras concorrentes, dizendo que "o(a) ator (atriz) é uma pessoa com temperamento difícil".

Aí, o ator ou atriz terá que aceitar as normas de marketing, pulando na micareta, indo para mais uma apresentação de "sertanejo universitário", fazer sorriso amarelo ao lado dos ídolos que no fundo odeia ou despreza, rebolar o "funk" até cair no chão, etc.

São regras de mercado, para esses atores e atrizes emergentes. Mas, acima de tudo, são testes decisivos para uma boa encenação.

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