segunda-feira, 28 de março de 2011

A BOMBA QUE EXPLODE NOS BASTIDORES DO FORRÓ-BREGA


TIMÓTEO PINTO, O "TIMPIN".

Por Alexandre Figueiredo

No jornal O Globo, na edição de 27/03 da Revista do Globo, a reportagem de capa fala de uma séria polêmica envolvendo o blogueiro Timóteo Pinto, do Cabaré do Timpin (apelido do blogueiro), e empresários do chamado "forró eletrônico", envolvidos em um escândalo envolvendo plágios, roubo de músicas e exploração de cantores e dançarinos.

Devido ao escândalo, Timpin tornou-se conhecido como "o Julian Assange do agreste", pela divulgação dos bastidores do forró-brega, isso apesar dele ser curitibano.

O cabaré nem é tão ousado assim e Timpin ainda é tolerante com o brega-popularesco mais "profissional", publicando inclusive um texto de Vítor Chaves, da dupla Vítor & Léo, um dos símbolos do "sertanejo universitário", apadrinhado pelos barões do agronegócio e pelas novas gerações filiadas à UDR.

Mas, no âmbito do forró-brega, Timpin já causa um abalo suficiente na hegemonia do brega-popularesco, se levarmos em conta que o "som nordestino" é monopolizado por uma minoria de empresas, ligadas a rádios, à indústria do entretenimento e apoiada por latifundiários e políticos da região.

Entre essas empresas, estão a Luan Promoções e a A3 Entretenimentos, que controlam o mercado musical dominante no Norte e no Nordeste brasileiros. Há também a Rede Somzoom Sat, que inclui até rede de rádios, que como as outras participa de um poderoso esquema de eventos, apresentações ao vivo, jabaculê, contratos para rádio e TV aberta, etc.

Consta-se que essas empresas são responsáveis pela divulgação dos sucessos do forró-brega no YouTube, o que contradiz qualquer tese de "mídias pequenas" tão associada ao estilo. Até para detentores do poder é bem fácil criar uma conta numa rede social da Internet.

ESCÂNDALO PODE ABALAR ENTRETENIMENTO NO NORTE E NORDESTE

Uma das denúncias divulgadas por Timóteo Pinto é que uma música do DJ Reginho, seu próprio sucesso "Minha mulher não deixa, não", primeiro ia ser gravada pelo grupo Garota Safada, que ofereceu R$ 25 mil pela exclusividade de gravação da música. Mas, logo depois, veio o grupo Aviões do Forró (um dos mais badalados do gênero e já com uma legião de fanáticos) oferecendo o dobro do valor do outro grupo para interpretar exclusivamente o sucesso.

Outra denúncia, que está sob o conhecimento do ECAD, é que o refrão de "Minha mulher não deixa, não" é idêntico a uma canção de um grupo de evangelização infantil de Recife, Turma do Zé Alegria, lançada há cinco anos.

O forró-brega é famoso também pela apropriação constante de músicas estrangeiras, que quase sempre ganham uma versão em português e um arranjo mais tosco. De Bee Gees a Nirvana, até mesmo a música "The Unforgettable Fire", que nem foi um dos maiores sucessos do grupo inglês U1, ganhou uma versão tosca do grupo Calcinha Preta.

OPORTUNISMO - Em tempos de mediocridade cultural hegemônica na mídia, já surge um movimento oportunista em que o ruim tenta ser "melhor" do que o pior. Um esperto empresário da Forrozão Promoções (que estabelece parcerias como o Somzoom Sat) tenta promover o "movimento" Forrozão das Antigas, na tentativa de reabilitar grupos veteranos de forró-brega, como Mastruz Com Leite, Limão Com Mel e Magníficos.

A desculpa é que esses grupos mais antigos, com cerca de 21 anos de existência, trabalham com repertório original. Isso não significa necessariamente que eles sejam bons ou mais autênticos. No entanto, é aquela aposta no ditado popular que diz: "Em terra de cego, quem tem um olho é rei".

Aliás, ainda se vai discutir a respeito do brega-popularesco do cenário de 1989-1997, os neo-bregas que acompanharam e retrabalharam o receituário de seus antecessores, que agora vende a imagem de "música de qualidade". Fica para um outro texto.

ESCÂNDALOS SIMILARES PODEM ENVOLVER OUTRAS TENDÊNCIAS

O que Timpin mostra, no entanto, pode envolver também outros estilos, como a axé-music - concorrente direta do forró-brega no Nordeste, mas concentrado na Bahia e em Sergipe - , o porno-pagode ("pagodão" baiano), o arrocha, o tecnobrega e o breganejo. Ainda que a profusão de duplas de "sertanejo universitário", por exemplo, seja dotada de um nível de astúcia bem maior do que a das armações do forró-brega.

Mas também os escândalos podem envolver o "funk carioca", também famoso pelo poderio férreo de seus empresários (em sua maioria DJs que comandam equipes de som). Inclusive com denúncias muito piores.

Afinal, se até funqueiros obscuros que nem metade do público do gênero no Rio de Janeiro conhece, pode fazer turnê européia (claro, não são nas melhores casas, o povo de lá não é trouxa), alguma coisa está errada. Também a profusão de "popozudas" associada ao gênero indica, em si, que há muita coisa errada nos seus bastidores. Está talvez na hora de haver uma espécie de "Wikileaks do Pancadão".

A "PANELINHA" NEM ESTÁ AÍ

Diante do escândalo do forró-brega, o antropólogo Hermano Vianna, integrante da "panelinha" de intelectuais que defende o brega-popularesco (que também inclui, sabemos, Ronaldo Lemos, Pedro Alexandre Sanches, Denise Garcia, Rodrigo Faour, Paulo César Araújo, Milton Moura e outros), afirmou que não "ainda não analisou" as picuinhas relacionadas ao episódio.

Pior, como mero propagandista da Música de Cabresto Brasileira, Hermano se limitou a classificar o forró-brega como uma "sensacional combinação da sanfona com a metaleira tropical". Um rótulo que, convenhamos, soa muito vago, assim como o "neo-forró" citado por Pedro Alexandre Sanches.

EM RELAÇÃO A TIMPIN E A REVISTA DO GLOBO

Nem a reportagem nem o blogueiro citado, no caso a Revista do Globo e Timóteo Pinto, devam ser superestimados. É um avanço que a mídia conservadora divulgue escândalos desse tipo, talvez numa lacuna causada pela mídia esquerdista que não pode silenciar-se ao assunto sob a velha e já inconvincente ladainha de que o forró-brega é "vítima de preconceito".

Mas esse avanço se deve porque o forró-brega foi longe demais na desqualificação cultural e artística, e até mesmo na badalação do brega-popularesco na grande mídia existe limites. Até porque deixam vasar casos de exploração de cantores e dançarinos, de roubo de músicas, de descumprimento dos direitos autorais.

No entanto, nem Timpin nem O Globo querem a ruptura com o brega-popularesco. Eles ainda defendem um mercado forte, que mesmo nos seus intérpretes mais "profissionais" (a geração de 1990-1997 que dominou as rádios nas épocas de Collor e FHC) envolve interesses mercantis em detrimento dos verdadeiramente artísticos e culturais, por mais que seus "artistas" pareçam musicalmente mais "lapidados" e tenham algum domínio na exploração da imagem e no uso de tecnologia.

O avanço se dá porque até mesmo divulgar os escândalos do forró-brega - cuja hegemonia já causa revolta entre os nordestinos e seu domínio sufoca não só a MPB, mas outras tendências do brega-popularesco - soa uma novidade, porque até as piores coisas do brega-popularesco, a pretexto de uma aparente aceitação da "cultura da periferia", eram toleradas.

Mas, independente de um jornal que defenda o brega-popularesco ou de um blogueiro que, em que pese os ataques ao forró-brega, ainda apoia o tecnobrega e o breganejo, as denúncias contra os bastidores do forró-brega são apenas o início de todo um desgaste da Música de Cabresto Brasileira. Um desgaste que nem os "artistas" mais dotados de profissionalismo conseguirão resolver.

Sobretudo, se levarmos em conta que vivemos num tempo em que o episódio do blog milionário de Maria Bethânia abriu a caixa de Pandora da música brasileira como um todo, revelando mordomias financeiras tanto para o filho de Ricardo Noblat quanto para ídolos popularescos como Tchakabum e a dupla "universitária" Fernando & Sorocaba.

Muita coisa ainda vai ser revelada por trás da indústria cultural brasileira. É bom prepararmos para o efeito dominó e pela queda de totens e "vacas sagradas".

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